Calçamento, ciclovia e iluminação. Estes são os destaques do projeto de revitalização da avenida Elias Miguel Maluf, via de ligação à rodovia Bauru-Marília, elaborado pela arquiteta urbanista Andreia Ortolani e entregue ao poder público municipal de Bauru na última sexta-feira.
Éder Azevedo |
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Via é caminho rotineiro de estudantes |
O projeto foi o trabalho de conclusão de curso da arquiteta pela Universidade Paulista (Unip) em 2009, e foca a segurança e a acessibilidade de pedestres e ciclistas da região que é a mais povoada do município e tem altos índices de atropelamento.
“Em 2007, ainda na faculdade, eu decidi trabalhar com algo que beneficiasse a cidade onde nasci. Sendo assim, em 2008 dei início a uma pesquisa de planejamento urbano junto à população do município para saber o que os bauruenses pensam sobre o assunto e, ao constatar que a cidade, assim como o Estado, não pensa no pedestre, decidi que o alvo seria a acessibilidade. Muito se planeja pensando em veículos motorizados e a ideia é trazer o pedestre de volta para as calçadas e ciclovias, porém, de forma segura”, destaca.
A Elias Miguel Maluf foi escolhida devido à concentração populacional no seu entorno que, direta e indiretamente, ultrapassa a marca de 70 mil pessoas (leia mais nas próximas páginas) e pela grande dificuldade de locomoção dos pedestres por ali. A via começa em frente ao estádio do Noroeste, na Vila Pacífico, e termina na rodovia Bauru-Marília. Trata-se de uma das avenidas mais longas de Bauru, com cerca de 3,5 quilômetros de extensão.
Considerada uma avenida/rodovia, do seu início até a Praça Alfredo Neme ela é de responsabilidade do município, e da praça até a rodovia Bauru-Marília fica a cargo do Estado. Segundo a idealizadora do projeto, este foca a parte estadual da avenida.
Para conhecer a realidade dos moradores do entorno, Andreia realizou o seu trabalho a pé, de bicicleta e mesmo de carro. “Pude vivenciar o cotidiano dessa população e fiquei abismada com a falta de acessibilidade do lugar”.
O trabalho da pesquisadora durou ao menos dois anos e, na última sexta-feira, foi entregue ao poder público com o apoio de associações de moradores dos bairros vizinhos à avenida, da coordenadora de comunicação do projeto, Olga Marques dos Santos, além de organizações não-governamentais (ONGs), movimentos populares e da população interessada em conhecer o projeto de modificação da avenida, que poderá servir de modelo para outras vias da cidade.
Região é a mais populosa de Bauru
Segundo arquiteta, ao menos 24 mil pessoas fazem uso diário da mais longa avenida da cidade
Escolhida pela arquiteta urbanista Andreia Ortolani para o desenvolvimento de um projeto que prioriza a acessibilidade de pedestres e ciclistas, a avenida Elias Miguel Maluf está localizada na região mais populosa de Bauru, com 70 mil habitantes. De acordo com a pesquisadora, cerca de 24 mil pessoas usam a via diariamente e estão expostas aos riscos oferecidos pela falta de calçamento e iluminação.
Bairros como Vila Industrial, Vila Dutra, Jardim Marilu, Parque Santa Cândida, Leão XIII, Parque Val de Palmas e o Condomínio Residencial Pinheiros margeiam a via. Indiretamente, Andreia aponta que 53 bairros estão ligados à avenida .
“A segurança é zero. A população não tem acesso de um bairro a outro, passam até horas esperando uma oportunidade para atravessar, dependendo do horário. Não há calçadas e o pessoal caminha na beira da pista. Foi por isso que pensei na revitalização dessa via, que é do Estado, e que não foi feita pensando no pedestre”, afirma a arquiteta.
Durante o levantamento de dados, Andreia conversou com os presidentes das associações de moradores dos bairros do entorno e com os próprios moradores. De acordo com ela, o problema mais gritante do lugar está na falta de calçamento, responsável pelo alto índice de atropelamentos, e na má iluminação. “Este é um cenário perigosíssimo. Não há segurança alguma para os pedestres, crianças são atropeladas ali. Elas vão a pé para a escola pela via e voltam na escuridão. Eu presenciei muitas mães com carrinhos de bebê, idosos passando, e isso me sensibilizou muito”, grifa.
Os chamados “caminhos de formigas”, feitos pelos moradores na encosta da avenida, também chamaram a atenção da arquiteta. “Projetei rampas para facilitar o passeio nesses lugares, porque dificilmente os moradores mudarão o seu percurso”, acredita. Postes de iluminação, drenagem urbana e a construção das marginais também estão no projeto entregue à prefeitura.
Projeto é sonho de melhoria de vida
Descer o morro se equilibrando para não cair e depois esperar pacientemente que o fluxo de veículos dê uma trégua para que ela possa atravessar a via para trabalhar ou pegar um ônibus no ponto. Há cinco anos, ao menos três vezes por semana, essa é a rotina da doméstica Vélcia Pereira Godoy, que vive na Vila Industrial e trabalha do outro lado da avenida Elias Miguel Maluf, em um estabelecimento no Jardim Marilu. Assim como Vélcia, milhares de pessoas enfrentam diariamente o risco de atropelamento.
“Eu sinto uma dificuldade imensa quando preciso atravessar essa avenida. Já vi muitos acidentes por aqui. Muitos, inclusive, com morte. Se colocado em prática, um projeto feito para melhorar a vida dos pedestres seria como um sonho realizado. Nossa vida melhoraria muito”, ressalta a doméstica.
Apesar de não precisar se locomover de um lado para o outro da avenida com muita frequência, a dona de casa Rizalva Maria Rodrigues, também moradora da Vila Industrial, vê com frequência o sofrimento dos moradores do bairro. Ela mora em frente à avenida. E para minimizar o sofrimento dos que precisam descer a encosta para atravessar a via, ela fez uma espécie de escada na terra e plantou flores para alegrar os passos sofridos da vizinhança.
“Resolvi limpar o matagal desse morro, plantar flores e fazer uma escadinha improvisada. A gente se vira como pode. Também tiro a areia que cai na beira da pista para evitar acidentes. Muitas crianças passam por aqui para chegar até as escolas da região. Precisamos de calçadas e iluminação nessa avenida, cujo trevo já recebeu o apelido de trevo da morte por causa dos atropelamentos”, preocupa-se.
Associações ajudam a disseminar a necessidade de revitalização junto a moradores e poder público
Além de apontar quais são as necessidades mais urgentes da população quando o assunto é a Elias Miguel Maluf, as associações de moradores de bairros vizinhos à avenida levam a ideia do projeto ao conhecimento da população e reforçam a necessidade da revitalização junto ao poder público.
“A nossa maior reivindicação aqui diz respeito às melhorias de acessibilidade. O acesso das pessoas de um lado a outro da avenida é muito precário e também precisamos de calçadas para pedestres e ciclistas. A qualquer hora do dia você encontra gente andando na via por falta de opção. São pessoas que vão para o trabalho, crianças e adolescentes indo e voltando da escola e moradores fazendo suas caminhadas em prol da saúde”, aponta Sidinea da Silva, presidente da Associação de Moradores da Vila Industrial.
A representante da associação menciona o atropelamento da filha no caminho da escola, há 11 anos. Embora ela não tenha sofrido ferimentos graves, foi naquele instante que a sua luta por melhorias começou. A instalação de lombadas para forçar os motoristas a reduzirem a velocidade e o recape do asfalto são conquistas apontadas pela moradora. Entretanto, a luta ainda está longe de acabar.
“A iluminação praticamente inexiste nessa avenida. Casos de tentativas e consumação de estupros não são novidade. Sem falar que a escuridão também favorece a prostituição e a venda de drogas, outros problemas que temos por aqui”, enumera.
Erosão
Outra dor de cabeça que tem maltratado os moradores ao redor da Elias Miguel Maluf e que poderia ser solucionada com a revitalização da avenida é a erosão que se destaca no Condomínio Residencial Pinheiros, conhecido como Pinheirinho.
A erosão que se formou no terreno ao lado tem origem na água da chuva que passa pela rodovia e deságua ali, segundo Antônio Aparecido Araújo, um dos representantes da Associação de Moradores da Vila Dutra. “Quando o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) fez o alagamento, era para a água escoar para o Rio da Grama, aqui perto, mas está sendo escoada para o Pinheirinho”.
Já o presidente da Federação da União das Associações de Moradores de Bauru e Região Centro Oeste (Fuam), Jesus Adriano dos Santos, que também ajuda a promover o projeto junto à prefeitura, lembra que o Estado “cortou” a Vila Dutra e agora precisa arrumar meios para interligar o passeio dos pedestres: “Apenas uma passarela não é o suficiente para toda essa população. Também precisamos de melhor acesso para o tráfego de caminhões, que é muito intenso na região”, finaliza.
DER anunciou modernização
Em dezembro do ano passado, o JC noticiou o anúncio do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) sobre um projeto executivo de modernização da avenida Elias Miguel Maluf, a partir de demandas apontadas pela Prefeitura de Bauru. O anúncio foi feito pelo superintendente do DER, Clodoaldo Pelissioni. “Até o final de 2013, queremos estar com o projeto, com o custo da obra e com a equação definida em relação às contrapartidas do município. Tenho certeza que, a partir disso, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) será sensível à necessidade da intervenção”, disse.
Procurado novamente pela reportagem, o DER informou em nota que aguarda um projeto básico que deverá ser elaborado pelo município de Bauru para a duplicação da SPA-354/294. Depois, o DER vai elaborar o projeto executivo de melhorias do acesso.
