Polícia

Marido queima mulher e enterra corpo

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos: Malavolta Jr.

Em um canto dentro do pequeno barraco onde o casal vivia, a catadora de recicláveis foi queimada pelo marido

No famoso romance “O Cortiço” (1980), de Aluísio Azevedo, o personagem principal da história é o próprio cortiço. Desse ponto de vista, pode ser contada também mais uma tragédia bauruense. O pequeno barraco no Jardim Europa “nasceu” e “morreu” da união de Elaine Regina de Souza Rodrigues, 39 anos, com José Antônio Araújo, 33. Foi exatamente nesse barraco que o marido assassinou a mulher, queimou e enterrou parte do corpo.

O lar de madeira e papelão, localizado no fim da rua Charles Hughs, foi erguido por Elaine, mais conhecida por Edilaine, com a ajuda do seu marido há poucos meses. Na quinta-feira passada, alegando ter sido traído pela mulher, José, conhecido como Totó, a estrangulou no local.

Foi no barraco que a Polícia Militar (PM), após

Parte dos ossos de Elaine Regina de Souza Rodrigues, 39 anos, foi achada em um matagal próximo

denúncia anônima, localizou, por volta das 11h da manhã de ontem, parte dos ossos queimados da mulher e tufos de cabelo. “Quando homens da Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas) chegaram, ele confessou que tinha sido traído e, por isso, matou a esposa. Foi levado rapidamente ao plantão (da Polícia Civil) porque os moradores estavam revoltados”, conta o aspirante do Comando de Força da PM André Luis do Nascimento.

O pequeno barraco não tinha sequer banheiro. Em um dos cantos, abaixo da cama em que o casal dormia, o chão de terra batido mostrava que algo fora enterrado ali. O Corpo de Bombeiros foi acionado, escavou e localizou ossos humanos.

Ele confessou aos policiais que, embriagado, deu

Vítima era calma e bem humorada, segundo amigos

uma “gravata” na esposa, porém, alega que não tinha intenção de matá-la. Depois do ocorrido, cavou um buraco dentro do próprio casebre e deixou o corpo queimando a noite inteira.

Durante toda essa semana, José Araújo continuou vivendo normalmente no minúsculo barraco. “Eu perguntei da Edilaine, mas ele (o marido) disse que ela tinha dado uma saidinha”, relembra a amiga da vítima, a doméstica Creuza Aparecida Andrade, 45 anos. Segundo a vizinha, o homem falou isso tranquilamente, sentado na porta do barraco.

A Polícia Científica, a PM e os bombeiros perceberam que os ossos enterrados no barraco não eram todos. Começou então uma nova busca nos arredores.

Esconderijo

No plantão, José Araújo confessou que havia desovado o que restou da mulher em um matagal, bem próximo ao barraco. O local era

Douglas Reis

José Antônio Araújo confessou que, embriagado,

matou e queimou a esposa há uma semana

usado por um conhecido ladrão, que morava no bairro. Ele furtava na zona sul e escondia os objetos naquele terreno. 

A 100 metros do barraco, a polícia localizou o caminho que escondia produtos furtados e foi usado por José para ocultar o cadáver. Havia um arco feito com a vegetação indicando o ponto exato. Segundo os policiais, José Araújo havia sinalizado para saber onde era a entrada do local. Lá, os policiais encontraram os ossos enrolados em uma coberta.

Ao delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros, José Araújo confessou que o crime foi motivado por traição. Ele, entretanto, alega que não teve a intenção de matar Elaine. Mesmo assim, o delegado o autuou por homicídio triplamente qualificado (emboscada, motivo fútil e ocultação de cadáver).

Na noite de ontem, foi expedida a prisão temporária por 30 dias e ele foi encaminhado para a Cadeia Pública de Avaí.

No bairro, ficou a incredulidade dos vizinhos e o barraco, palco do crime. Este último, contudo, durará muito menos que o primeiro. Os moradores prometeram colocar o casebre de madeira e papelão abaixo para pôr um ponto final à tragédia. Ou melhor, tentar por um ponto final.


BO aponta que mulher estaria sumida há 22 dias

Apesar de o marido ter confessado que matou a mulher na semana passada, vizinhos afirmam que ela estava desaparecida há mais tempo. Em boletim de ocorrência (BO) registrado na última terça-feira, a irmã de Elaine aponta que ela seria usuária de drogas e que estava sumida há 22 dias.

No registro, a familiar já desconfiava do marido da irmã. Segundo ela, os vizinhos “informaram que ouviram gritos” da vítima. A irmã de Elaine estava ontem no local onde o corpo foi encontrado. Bastante abalada, ela preferiu não conversar com o JC.

À reportagem, os moradores alegaram não ter ouvido nada e nem visto a fumaça. Ainda segundo os vizinhos, o desaparecimento foi algo estranho, porém, há poucos meses, Elaine já tinha ficado fora vários dias. “Eu cheguei a perguntar para o José onde ela estava. Ele disse que ela estava em Santa Cruz do Rio Pardo, onde tem familiares”, conta André Silvestre de Souza, 32 anos, vizinho do casal.


Casal já havia cumprido pena por homicídio

Tanto José Araújo quanto a vítima Elaine Regina de Souza já cumpriram pena por homicídio. A informação foi confirmada pelo delegado Roberto Cabral Medeiros. Não foram fornecidos detalhes do crime praticado pela mulher. Já o homem teria, há mais de 10 anos, assassinado o pai de um desafeto a facadas.

Em meio à multidão de moradores do bairro, estava uma familiar do homem que foi morto por José Araújo no passado. “O José tinha uma briga com o filho dessa pessoa, que morava no Jardim América. Quando ele (José) foi lá tirar satisfação, o pai do desafeto saiu da casa e começou uma discussão. Assim José o matou com sete facadas”, conta a mulher, de 32 anos, que pediu para ter a identidade preservada.

Além desse crime, ele teria, de acordo com a PM, outras passagens pela polícia por tentativa de homicídio e furto. Contudo, a reportagem não confirmou a informação com a Polícia Civil.


Elaine ou Edilaine?

Os amigos da vítima ficaram com uma dúvida: o nome da mulher era Elaine ou Edilaine? Para todos, ela se apresentava como Edilaine Souza Rodrigues, porém, esse não era seu nome oficial.

Segundo o delegado Roberto Cabral, apesar de ela ser conhecida assim por todos, no registro, conta seu nome de batismo: Elaine Regina de Souza Rodrigues.


Gravidez

Foi aventada a possibilidade de que a catadora de recicláveis Elaine de Souza estivesse grávida. Pelo estado em que o corpo foi encontrado, a polícia explica que é impossível confirmar a hipótese.

Apesar dos boatos, amigos da vítima disseram que ela não estava grávida. “Ela tinha um mioma (uterino). Por isso, a barriga dela assemelhava uma gravidez. Mas ela não me disse nada que estava grávida. Acho que é boato”, conta Creuza Andrade, amiga da vítima.


‘Era muito divertida’

Creuza Andrade trabalhou com Elaine há cerca de 4 meses no setor de limpeza de uma construtora de Bauru. Ela tem boas recordações da amiga. “Era muito divertida e sossegada”, relata. O bom humor da vítima, aliás, foi citado por todos os ouvidos na reportagem.

Creuza conta que Elaine deixou o serviço de limpeza por conta de um mioma uterino. Segundo os vizinhos, ela gostava de uma cerveja, porém, parou de sair desde que iniciou o relacionamento com José Araújo.

“Era uma pessoa muito sossegada. Eu a conheço há mais de 10 anos. Não dá para acreditar”, disse a amiga e vizinha Elisangela dos Santos, 28 anos.

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