A calçada como passarela e surge um corpo de mulher que revela sutilmente a “combinação”. Havia décadas que nunca mais tinha ouvido ou visto uma combinação. Combinação, saiote, corpete e outras peças são agrupadas no termo “anágua”.
Para que serviria uma anágua nestes anos de nudez e sexo explícito na mídia do café da manhã? São peças íntimas da época em que havia o mistério das carnes ocultas e disfarçadas sob os panos armados da roupa, tirando-nos a certeza do seu jeito íntimo de ser. Com anágua, não se percebe o contorno da calcinha ou a textura do sutiã. A “combinação” é a interface da fusão do corpo com a roupa feminina.
Combinação também pode ser um conceito matemático no qual os agrupamentos são feitos pela natureza dos elementos. Ou, o menino dizia: estou combinando; a roupa está ornando? Combinação também pode ser um acordo, um código estabelecido por sinais ou decisões.
Recombinantes
Nossas células têm 23 livros chamados de cromossomos e, em cada um, tem mais ou menos mil receitas. Todos os cromossomos juntos têm 25 mil receitas escritas com um alfabeto de 5 letras ou bases nitrogenadas: A, G, C, T e U ou adenina, guanina, citosina, timina e uracila. As receitas estão escritas sobre material especial chamado de DNA, tal como fosse plástico ou papel!
Quando o organismo precisa fazer algo, sempre lê o livro de receitas: executa exatamente o escrito! As receitas fornecem informações e quando isto acontece são chamadas de genes. Cada gene representa uma “combinação” de letras específicas naquele indivíduo. Esta “combinação” de letras ficou estabelecida quando o óvulo fundiu com o espermatozoide. Somos resultantes da combinação de letras e palavras das receitas da mãe e do pai. Das 50 mil receitas, houve uma combinação de 25 mil, muito especial e daí apareceu você!
Podemos interferir nesta combinação? Por exemplo: se nas células que produzem o leite na cabra não tem uma proteína que seria bom ter, poderemos colocar algumas palavras a mais na receita ou gene que rege a produção do leite nas glândulas mamárias!
Podemos na hora da gestação das cabras mudar a “combinação” dos genes ou recombiná-los: a cabra vai crescer e produzir um leite “recombinante” com coisas que queremos! A cabra será um animal recombinante! O termo manipulação é feio, mas estaremos mudando a combinação para o bem! Se o cientista muda a receita ou gene da cabra por um gene de humano ou outro animal, pode se dizer que houve uma transferência de genes ou transgenia. O animal modificado agora é transgênico ou recombinante.
Pesquisas
Foi publicado na revista “PLoS One” um trabalho da Universidade de Fortaleza: o leite de cabra é naturalmente pobre em lisozima, uma proteína antibiótica importante que temos em abundância no leite humano. Muitas crianças nordestinas morrem por diarreia infantil induzidas por bactérias com consequente desidratação, pois tomam desde cedo o leite de cabra e culturalmente as mães amamentam apenas durante um mês.
E se incorporassem o gene da lisozima humana nas células das cabras que produzem o leite? Haveria um fortalecimento das capacidades defensivas do leite de cabra e se diminuiria a mortalidade infantil por diarreia. A pesquisa mostrou ser possível. Pesquisadores micro-injetaram in vitro o gene humano da lisozima em embriões caprinos e colocaram-nos em cabras. Agora, um casal de cabras é transgênico e o leite produzido está sendo testado em ratos, depois o será em porcos e, por fim, nos humanos.
A mesma equipe também fará testes com outra proteína antibiótica do leite humano a lactoferrina. A equipe está formada por Luciana e Marcelo Bertolini, Luiz Antônio Barreto de Castro e pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, liderados por James Murray.
Em Minas Gerais, pesquisadores da Embrapa como Luiz Sergio de Almeida Camargo, estão ansiosos: bezerras transgênicas produzirão leite com insulina, ou com o fator 9 sanguíneo ausente nos hemofílicos ou ainda sem lactose para alérgicos. A cada dia a transgenia melhora a vida do produtor bovino com animais resistentes ao carrapato, à mastite e outras doenças. Sem contar, que algumas recombinações levam a um ganho de peso maior e mais rápido, aumentando a produtividade e reduzindo custos. O boi transgênico já chegou!
Para o bem, a transgenia é bem vinda e em breve também será aplicada em humanos para melhorar a saúde, beleza e desempenho. A recombinação genética humana é inevitável, uma questão de tempo e aceitação!
Combinado?