| Divulgação |
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| Capa do trabalho 'Condição Humana - Sobre o tempo' |
As “coisas do amor” não impedem que Guilherme Arantes, 59 anos, revele-se indignado com as “coisas do Brasil”.
“Já fui convidado várias vezes para sair a deputado. Como? Com essa estrutura arcaica e podre de poder que está aí?”. E emenda: “Sou mais útil fazendo minha música e cuspindo fogo.”
Afiado em entrevistas e sensível em composições, ele também está feliz com os elogios ao seu recém-lançado 22º CD, “Condição Humana” – Sobre o Tempo” (foto). Porém, desencantado com aspectos da humanidade – e da política, em particular.
“É difícil. O brasileiro trabalha como burro de carga para sustentar quadrilhas de gravata”. Pessimista? Realista.
“Brasília parece um teatro distanciado da realidade”, diz. “Essa gente mexe com montanhas de dinheiro todos os dias enquanto falta quase tudo de básico para o povo. Na Europa, devolve-se imposto com saúde, educação. E aqui? Tivemos uma história política cheia de interrupções. Precisamos evoluir”.
Guilherme, que mantém estúdio/pousada na Bahia (Coaxo do Sapo), também sai em defesa da iniciativa privada. “É muito tributo, muito encargo... Você quer fazer algo e as coisas travam. E o que se ganha é a cultura do ‘não’. Nada pode”.
Humanidade
E os direitos humanos? E o deputado Feliciano? Do outro lado da linha, o cantor e compositor de “Nosso Lindo Balão Azul” cantarola ao JC o antigo tema de abertura do programa “Os Trapalhões”. “Só assim para responder à altura. É uma comédia triste. Tá todo mundo gritando contra e essa gente quer regrar a sociedade. Isso é um perigo. Isso é matriz de Hitler e Mussolini”.
Análises tão contundentes podem destoar da imagem de hábil construtor de baladas, como “Brincar de Viver”, “Amanhã” e “Um Dia, Um Adeus”, mas são coerentes com seu momento de vida. Trabalhando há tempos como artista independente (da concepção à produção final), posiciona-se com desenvoltura sobre temas nacionais. “Ah, não vou levar para o cemitério o que penso.”
Amargo? Pé no chão. Mas o que pode se contrapor a esse estado de coisas que o artista identifica? “O amor. A perseverança dos amorosos coloca a humanidade de pé”.
Bauru de trem...
Foi em Bauru o primeiro show-solo de Guilherme Arantes após fim da banda “Moto Perpétuo”, ainda em 1976. Ele conta:
“Inesquecível. No BAC. Formei um novo grupo e saímos de São Paulo: a ida ou a vinda, não lembro ao certo, foi de trem. Tenho recordação do José Carlos Prandini [guitarrista] reclamando muito de viajar de trem. Outros também se queixaram. Imagina, em 1976! E a nossa logística era mal feita, eu nem sabia fazer show direito. Mas deve ter dado tudo certo. [risos]”
Bônus do mundo
“Quando comecei, os brasileiros cantavam em inglês. Eu não. Um ano depois, já diziam que eu estava acabado. Quer dizer: no Brasil, o normal é não dar certo. O mundo escolhe o ‘não’. O ‘sim’ vira um bônus. Precisamos virar isso tudo”.
“Vejo o sucesso como algo circunstancial, fortuito. Muito ligado a um momento. Veja ‘Eu quero Tchu’: por causa do Neymar, estourou. Isso muda a vida desses garotos que fizeram essa música.”
‘Roberto disse: Bicho, ou você crê ou não crê’
Um caso curioso sobre alteração de letra é relembrado por Guilherme: “Em ‘Toda Vã Filosofia’, que fiz pro Roberto Carlos gravar na década de 80, a letra era ‘Eu quero crer que através de um grande amor...’. Aí ele me disse: ‘Bicho, eu quero crer??? Ou você crê ou você não crê’. E eu fiz a pequena alteração na letra. A gente tem que estar aberto a esse tipo de coisa. Tem que trabalhar para que o público conheça as músicas, mas sem mutilar tudo.”
Calejado, arejado, enturmado
Guilherme Arantes acertou: “Condição Humana” – Sobre o Tempo” entra, de cara, na fila da frente dos melhores trabalhos do pop brasileiro. É daqueles discos que parecem coletâneas – no bom sentido, por reunir o que há de melhor numa época: cada música tem vida própria, brilho farto, fluxo certeiro. Os músicos foram magníficos e o coro ganha reforço de convidados da nova geração (Kassin, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Tiê, Thiago Pethit, Mariana Aydar, entre outros). Lulu Santos, que já declarou que quer fazer um disco inteiro só com regravações de Guilherme, precisa ouvir este belo novo álbum de Guilherme. Periga ficar em êxtase.
“Pra encher nosso vazio
Bugigangas e superstições
De prazer e calafrio”
Condição Humana
“No fim só vai contar
A história que ninguém
Ousou se apropriar
Por mais que se morrer
O que se leva é amor”
O que se leva
“Faz-de-conta que eu não sei
Que o mundo está na mão
Da quadrilha de gravata
Que me assalta um
terço todo mês”
Moldura do quadro roubado
“Onde andava você
Quando o mundo me
esqueceu
Na areia do deserto
E não te achei jamais...”
“Quando somos jovens
Tantos sonhos são pra durar
Muitos só nos álbuns
De memórias pra guardar...”
Onde andava você
Novela mudou ‘Meu Mundo e Nada Mais’
“Na primeira versão da novela ‘Anjo Mau’ (1976), o personagem do Zé Wilker [Rodrigo] sofria traição. Ele fazia par com Vera Gimenez [Paula]. Minha música entrou em função dessa traição. Só que a letra era ‘Me atirei no mundo e vi tudo mudar’.
Pediram para virar ‘Quando fui traído vi tudo mudar’. Achei pesado o ‘traído’ e alterei para ‘Quando fui ferido...”. Ficou. Houve a conversa, aceitei em termos e a novela tirou ‘Meu Mundo e Nada Mais’ do anominato’ para sempre”.
