Nelson Gonçalves |
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A Estação de Tratamento de esgoto em Bauru não adota o sistema de membranas filtrantes, como em Campinas |
A maior obra pública das últimas décadas em Bauru terá o edital de concorrência aberto em até 60 dias. O prazo foi anunciado pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) em entrevista ao JC. Segundo o prefeito, também não há mais espaço para modificação no projeto executivo da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Distrito Industrial I, com capacidade para dar destino final aos dejetos in natura para população de até 500 mil nos quatro módulos da obra. “A licitação vai sair em até 60 dias”, afirmou.
Orçada em cerca de R$ 118 milhões, a ETE vai adotar a tecnologia de reator anaeróbio (UASB), associada a complementos para aumentar a eficiência no processo com o chamado tratamento terciário. “Eu conheço o sistema por membranas filtrantes adotado em Campinas e discutido pelo JC. A eficiência desta ETE realmente é muito boa. Mas quando eu fui ver esse processo a opção restringia o sistema a poucas empresas e nosso projeto adotou o reator anaeróbio com o tratamento terciário para aumentar a eficiência e isso já acontece em centenas de cidades”, disse Agostinho.
O prefeito, ambientalista, também reconhece que o reator UASB escolhido para o sistema em Bauru gera gás metano e há também que ser enfrentado o problema de odor nesse tipo de sistema. “O H2S produzido na tecnologia tem de ser queimado para resolver o problema com odor forte. O gás metano também é queimado. Não acho isso um processo complicado”, argumentou, contrariando especialistas ouvidos pelo JC da Sanasa de Campinas.
Agostinho também garantiu que a ETE bauruense será, a exemplo de Campinas, automatizada. “Tem sim a questão de ter limpar o reator que é um processo diferente do que acontece com a membrana. Mas a ETE será automatizada. A eficiência que vamos alcançar aqui com a inclusão da câmara anóxica (para reduzir a presença de fósforo e nitrogênio) junto ao reator e tanque aerado chega a 98%. Não vamos adotar o UASB sozinho”, contou, reforçando informação veiculada pelo JC ao explicar o processo, no último domingo.
Sem modificação
“Não há como modificar o projeto aprovado em Brasília agora. Pequenos ajustes são aceitáveis, mas não tem como mudar a tecnologia concebida. Isso já foi aprovado tecnicamente e o dinheiro está na Caixa. Agora estamos acertando a documentação para o contrato e o edital sai em até 60 dias. Não vamos mais esperar”, comentou Agostinho.
O que ele ainda não decidiu é o formato da concorrência, se pelo regime mais simplificado (conforme a legislação adotada ancorada em obras da Copa do Mundo de Futebol) ou por edital de concorrência previsto na lei de licitações.
Sobre a discussão em torno da defasagem da tecnologia por reator anaeróbio em comparação, por exemplo, com as membranas filtrantes (utilizadas em escala nos EUA e com eficiência de 99,9% no tratamento), Agostinho comentou: “Nesse setor modificações e defasagens são naturais no tempo. Em 10 anos vamos ter outras tecnologias”.
O reator anaeróbio gera pouco lodo no tratamento do esgoto e consome pouca energia, mas produz metano e muito odor, ao contrário da ETE de membranas filtrantes. Já o tanque aerado, nesse processo, reforça Agostinho, gasta muita energia elétrica e gera muito lodo. A ETE de Bauru será licitada em três módulos e o prazo de execução da obra é de 18 meses. O recurso é do governo federal.
Cada módulo terá capacidade de tratar, ao invés de 335 litros por segundo, 435 litros/l. Segundo a engenheira de planejamento do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Nucimar Paes, cada filtro conseguirá atender o esgoto produzido por uma população equivalente a 159 mil habitantes.
Prós e contras da tecnologia
Renato Rossetto, gerente de operações de esgoto da Sanasa de Campinas, e Rovério Pagoto, do planejamento, estudam as tecnologias para tratamento de esgoto há mais de 15 anos. Para ambos, o sistema UASB está superado. “Sozinho o reator UASB dá somente 70% de eficiência. Para atingir o mínimo de 80% exigido pela legislação ambiental, esses processos têm de associar outros elementos. A eficiência no processo por membrana chega até a 99,9%”, aponta Pagoto.
Rossetto acrescenta: “O UASB libera gás que compromete o meio ambiente e produz cheiro forte em seu entorno. Outra dificuldade no UASB é o confinamento. A segurança de manejo é muito complicada. O processo também agride muito os reatores e isso exige cuidado meticuloso com a manutenção do equipamento. Tem de contar que é preciso retirar sempre a crosta, uma espécie de grande caixa de gordura que não tem solução”.
A baixa eficiência em relação à membrana, o odor, o custo elevado para impermeabilização e a turbidez são as desvantagens mais elencadas no UASB. “Mas o reator também não retira nem amônia e nem fósforo, enquanto que na membrana não passa nada, nem protozoário. Outro problema do reator: como queimar o gás metano que vai para a atmosfera?”, indaga Rovério.
Rossetto, por sua vez, pondera que a tecnologia anaeróbia por reator consome menos energia elétrica que o processo por membranas e também menos lodo. “Mas o lodo hoje é receita agregada e o custo com manutenção e a eficiência são tão superiores com as membranas que a despesa com energia do UASB se perde. E tem mais. A membrana gera água para reuso com 99,9% em relação ao lodo inicial, o processo é todo automatizado, você não para nunca o processo e o sistema não usa químicos. Uma vez por semana usa só hipoclorito para limpeza da membrana. O UASB tem de um operador entrar no meio do sistema insalubre e o custo é muito superior em manutenção”, aborda Rossetto.
Na EPAR em Campinas, o sistema por membranas utiliza três operadores por turnos de oito horas para funcionar. E o custo total do projeto? O diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos, disse que o sistema por membranas teve orçamento R$ 10 milhões a mais que uma ETE do mesmo porte com reator UASB.
A EPAR foi construída pelo consórcio Odebrecht e GE Water numa área de 180 mil m2, com R$ 91 milhões do PAC para iniciar a operação com o primeiro módulo, com capacidade para tratar esgoto para 250 mil habitantes.
Etapas do tratamento
A estrutura física principal de uma ETE com tecnologia de membranas é muito parecida com a prevista para Bauru, com reatores anaeróbios (UASB). O “meio” do processo distingue as duas tecnologias.
O esgoto chega à ETE por gravidade, como em Bauru, por onde passa pelo chamado tratamento preliminar. O gradeamento grosseiro retém o material mais “pesado”, acima de 15 milímetros. “Aqui chega lata, plásticos, tecidos, restos de materiais diversos, além de despejos irregulares de químicos diversos. Isso precisa ser retido na origem porque senão o sistema não funciona. Após o gradeamento, uma espécie de tanque de areia retém os itens não sólidos. Uma peneira com malha com furinhos de dois milímetros também está no processo. O desanerador se incumbe de tirar todo material que poderia paralisar o sistema. Isso se repete em uma ETE com reator UASB. A questão é verificar o dimensionamento desses itens”, explicou a engenheira Renata de Gasperi, coordenadora da estação EPAR em Campinas.
Uma diferença na origem, entre o sistema UASB e o de membranas, é que o último não utiliza decantadores. A membrana faz esse serviço. O processo também não se vale de ingredientes químicos em seu percurso de tratamento. “Retirado o material grosseiro o sistema remove nitrogênio e a primeira etapa de fósforo e outros materiais por um processo bioquímico, na fase secundária”, continua. A areação (uso de oxigênio) é feita por difusores, quebrando as moléculas. À frente, o nitrogênio amoniacal se transforma em nitrato.
Na ação, a bactéria é “quebrada”, gerando a liberação de nitrogênio na atmosfera. Na última etapa entram os “trens” de membranas, fileiras de fibras ocas que ficam submersas com o lodo. A superfiltragem completa o processo. A EPAR gera 200 toneladas de lodo por mês. O material pode ser utilizado para adubação. Até 2014, o lodo não poderá mais ser descartado em aterros.