Douglas Reis |
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Para o sindicalista Francisco Monteiro, a proliferação de sindicatos, com subdivisão de representações no mesmo nicho, prejudica o trabalhador |
O Dia Mundial do Trabalho ontem em Bauru teve ritmo de festa para alertar ao brasileiro, à sociedade civil organizada e aos políticos que a representação dos trabalhadores precisa se reinventar abandonando o “sindicato fantasma”. A esmagadora maioria das entidades sindicais brasileiras está distante da função primeira de organizar e lutar pelos interesses do trabalhador, conforme definição de Francisco Vagner Monteiro, o Chicão, coordenador da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e vice-presidente do Sindicato dos Eletricitários de Campinas (Sinergia/CUT). Ele acusa a existência de mais de 20 mil sindicatos no País, quando o necessário seria um número infinitamente menor, atuando por ramo de atividade e com uma abrangência estadual e ou nacional.
A festa foi organizada pela subsede da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Bauru no Parque Vitória Régia, onde desde o período da manhã foi desenvolvida extensa programação com encerramento no meio da noite com show da sambista Leci Brandão. (Leia mais na página 9)
Chicão professa que a CUT defende a liberdade e autonomia sindical. O sindicalista entende que a sustentação da entidade sindical com mensalidade deva ser aprovada em assembleia. “Fazendo isso você vai fechar 99% dos sindicatos no Brasil. Vão existir somente aqueles que querem realmente representar a classe trabalhadora”, garante.
Ele avalia que atualmente os sindicatos são criados para atender interesses de grupos ou de pessoas articuladas para tirar vantagem pessoal do sindicato. “Não pode ser um instrumento para pessoas se arrumarem na vida”, constata Chicão.
Ao olhar para o próprio umbigo, a CUT percebeu que o sindicalismo brasileiro corre sérios riscos diante de um cenário em que o Brasil debate desenvolvimento sustentável, com conceitos como consumo consciente, discute cidadania, que passa pela organização dos trabalhadores, enquanto o sindicato ainda está atrelado a valores ultrapassados.
“Temos sindicatos que só olham o interesse de meia dúzia de pessoas da sua direção e sindicatos fundados para resolver problema do umbigo das pessoas”, pontua. Chicão defende a liberdade e autonomia para criação das organizações verdadeiramente fortes e alerta para uma movimentação de desconstrução das organizações no País. “Ou você tem apoio para fundar organizações fantasmas. Vê esse bando de partido político. Não sou contra fundar partido político, desde que seja desejo da sociedade e ela quer se organizar, ela funde. O que a gente vê no Brasil é, do mesmo jeito que se abre boteco a cada esquina, se funda partido político e se funda sindicato. Existe um interesse em descontruir as organizações para que o Brasil continue colônia do primeiro mundo”, avalia.
Imposto
A CUT defende há muito tempo o fim do imposto sindical recolhido compulsoriamente de cada trabalhador brasileiro. Quanto à crítica de que a CUT é hipócrita, porque também se beneficia da arrecadação da contribuição sindical, a resposta expõe a disputa entre Centrais – existem CUT, Força Sindical, CTB, Nova Central e CGTB.
“É claro! Ninguém é idiota. O Estado está impondo para a classe trabalhadora para manter esse bando de sindicato picareta. Sindicato fantasma, de gaveta. É sindicato que sobrevive do imposto sindical”, salienta Chicão. O sindicalista comenta que, enquanto permanecer o imposto sindical, a entidade pode devolver para o trabalhador. Conforme Chicão, o Sindicato dos Eletricitários de Campinas (Sinergia/CUT) foi o primeiro do Brasil a extinguir o imposto sindical judicialmente – liminar judicial que posteriormente foi cassada.
O Sinergia/CUT devolvia 60% do imposto sindical aos trabalhadores e 40% do valor era dividido entre o Ministério do Trabalho e Emprego (M TE), federações e confederações. Recentemente, o Sinergia/CUT ganhou nova liminar para reverter os valores para o trabalhador. “As empresas desrespeitam a liminar para alimentar o sindicato fantasma”, pontua.
Chicão comenta a necessidade do Brasil implementar a reforma tributária e acabar com o fator previdenciário, além do fim do imposto sindical. “O que precisa é mudar a prioridade no governo. A prioridade tem que ser a classe trabalhadora. Não tem sentido eu ter uma nação com classe trabalhadora pobre. Não tem sentido você ter empresas pobres e os donos milionários. Para isso precisa da reforma tributária. Precisa de mais recurso na mão do trabalhador e para isso precisa acabar com o fator previdenciário. Redução da jornada e respeito aos professores”, destaca.
Trabalhador desorganizado
Francisco Monteiro atribui a desorganização da classe trabalhadora aos tais “sindicatos fantasmas” e a uma campanha para desacreditar as organizações no Brasil. “O trabalhador quer participar mas é preciso acabar com essa campanha do contra as organizações da classe trabalhadora e da sociedade. Não é só sindicato”, ressalta. Ele cita que essa campanha define nos meios de comunicação a classe política como corrupta, sindicalismo como algo nocivo e a falta de honestidade nas organizações que representam os trabalhadores.
O sindicalista comenta que essa campanha nivela todas as organizações a um mesmo patamar de descrédito. Para ele, com essa propaganda intensiva é natural o trabalhador se sentir desestimulado a participar da organização da sociedade. Isso se reflete na baixa participação das pessoas em associações de bairro e participam de eleições porque o voto é obrigatório. “Porque todo dia pregam que tudo é safadeza. E não é verdade. A classe política brasileira é boa e quer mudar o país”, avalia.
Chicão admite que nos sindicatos, como em todas as organizações do mundo, há corrupção, desvio de conduta e pessoas que só querem cuidar de seus interesses pessoais. O sindicalista avalia que, além da campanha negativa, quando o trabalhador se mobiliza para participar sofre retaliações como corte de ponto, assédio para a demissão e a demissão. “Existe uma campanha contra qualquer classe que organize a sociedade ou a classe trabalhadora como um todo. Que organize para ela melhorar”, finaliza.
A Festa do Trabalhador promovida por centrais sindicais ligadas à CUT teve apoio do Jornal da Cidade, Sesi, Sesc, Confiança Supermercados, Rádio 96 FM e Zopone Engenharia.
Trabalhador aproveita folga para se cadastrar no Minha Casa Minha Vida
A diarista Salete Oliveira, 45 anos, estava ansiosa para chegar o dia de ontem. Ela foi uma das primeiras a se cadastrar para concorrer a um imóvel no sorteio do Programa Minha Casa Minha Vida, que tem inscrições até 31 deste mês, na segunda fase em Bauru.
Aguardando para sentar-se de frente ao atendente que iria ajudá-la no cadastramento via Internet nos terminais instalados em uma barraca do MCMV, ela segura com firmeza seus documentos apostando que chegaria sua hora de economizar R$ 400,00 pagos no aluguel de uma residência no Jardim Ouro Verde. Ela é responsável pelo núcleo familiar formado com mais cinco filhos.
A renda da família depende do trabalho de Salete, que preferiu desconversar ao ser questionada sobre qual é o valor da renda mensal com seu trabalho de diarista, que garante o dia a dia todo mês de seis pessoas. Ela também integra o Programa Bolsa Família do governo federal.
Na fila de ontem no Vitória Régia todos demonstravam confiança. “É muito boa a esperança de ser sorteada”, frisa Salete. A diarista já possui o Número de Inscrição Social (NIS) pré-requisito para o cadastramento no MCMV, que é feito somente pela Internet. O governo concentra todos os dados no Cadastro Único (CAD Único). A secretária do Bem Estar Social de Bauru, Darlene Tendolo, conta que na última terça-feira cerca de 3 mil pessoas fizeram inscrição para obter o NIS na Sebes.
A Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) também montou uma barraca ao lado do MCMV para orientar as pessoas sobre como proceder. A segunda etapa em Bauru foi lançada ontem durante a comemoração do Dia Mundial do Trabalho. O MCMV atende a famílias de três faixas de renda – até R$ 1,6 mil ao mês, entre R$ 1,6 mil e R$ 3,1 mil ao mês e de R$ 3,1 mil a R$ 5 mil.
Programa vai ter juros menores para móveis e eletrodomésticos
Os beneficiários do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida vão ganhar em breve uma nova linha de crédito com juros mais baixos para financiar a compra de móveis e eletrodomésticos. Hoje, esse mutuários já contam com uma linha da Caixa Econômica Federal com taxas entre 0,9% e 1,5% ao mês, que variam de acordo com a renda da família. A ideia agora é reduzir os juros para 0,4% ao mês. Nos dois casos, o prazo de pagamento é de 60 meses. O limite de financiamento, que é de R$ 10.000 na modalidade já existente, deve ficar em R$ 5.000 na linha que será parcialmente subsidiada pelo Tesouro Nacional, segundo fontes do governo que participam das discussões.
Ainda é necessário definir se o benefício será aplicado da mesma maneira a todas as faixas do programa, dividido em famílias com renda de até R$ 1.600, até R$ 3.275 e até R$ 5.000. A linha deve ser oferecida ainda pelo Banco do Brasil, que também participa do Minha Casa, Minha Vida.
No mês passado, o governo havia ampliado o programa habitacional ao anunciar que os imóveis construídos na primeira fase terão a instalação de três tipos de piso, de acordo com a escolha do beneficiário, bancada pelo governo federal. Nesses imóveis, apenas banheiro e cozinha vinham com piso cerâmico instalado. O revestimento será colocado agora nas áreas internas das unidades e nas áreas comuns dos edifícios. Imóveis da fase dois do programa já possuem piso em todos os cômodos, inclusive nas áreas comuns.
A Caixa começou a visitar os 325.458 imóveis já entregues para elaborar a lista das famílias interessadas em colocar o piso. Nos 78.670 imóveis em processo de construção, os contratos estão sendo aditados para trocar as especificações para piso cerâmico em todos os cômodos. O custo estimado é de R$ 1.000 a R$ 2.000 por unidade e será bancado pelo Tesouro.
