Regional

Jovens viajam em busca de diversão

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

O lazer é fundamental para a formação do indivíduo, não só psicologicamente, mas também para o desenvolvimento da sociabilidade. Encontrar o outro e ter contato com ele é uma forma de diminuir os preconceitos sociais. Esta é a tese do antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Cláudio Bertolli sobre a falta de entretenimento nas cidades de pequeno porte, especialmente para o público jovem. Muitos deles se deslocam para cidades maiores em busca daquilo que necessitam.

Municípios com poucas opções de lazer elegem as praças, especialmente as centrais, como ponto de concentração. “Como as políticas públicas se preocuparam muito com a cultura, mas em um nível mais formal e sempre se coloca o lazer em segundo plano, os moradores que não têm condições financeiras para sair de sua cidade em busca de atividades de lazer ficam nas praças”, explica o professor.

Para ele, esse logradouro é o espaço tradicional para encontros. “Desde o período colonial aqui no Brasil. Na Europa do mundo moderno, a praça se constituiu no grande espaço de sociabilidade, assim como um dia foi em Bauru. No começo da história da cidade, a Praça Rui Barbosa, como foram as avenidas Rodrigues Alves e Duque de Caxias, funcionaram como o local onde se praticava o footing.”

O professor e antropólogo explica que o uso das praças, nesses casos, é uma prática tradicional, a mais barata e aquela que toda cidade tem. A praça com coreto é onde indivíduos ficam por falta de opção. “A música, o espetáculo teatral, as festas antigas, desde as tradicionais, as folclóricas até um baile local, tudo isso seria possível de ser realizado nos pequenos municípios para o lazer dos moradores”, observa.

Estado e sociedade

As estruturas públicas, segundo Bertolli, partem de alguns princípios muito complicados. “Por exemplo, a própria relação entre Estado e sociedade historicamente engendrada no Brasil. Ela é complicada. Eles (governantes) acham que, se tiver uma aglomeração pública, vai ter violência. Obviamente que isso pode ocorrer, mas não é a regra. As prefeituras têm condições de criar uma agenda de desenvolvimento de atividades nos espaços públicos.”

Ele ressalta o papel dos espaços públicos na vida dos moradores. “As praças são espaços de sociabilidade. Poderiam ser melhores aproveitados. Juntar moradores para que se conheçam e se relacionem entre si. Para que eu conheça não só o outro da minha idade, do meu nível escolar, mas aquele que é diferente. Porque conhecendo eu vou perceber que ele não é nem melhor nem pior que eu. Inclusive, isso contribui para diminuir os preconceitos. Quanto mais eu conheço as diferenças, mais eu me relaciono bem com elas”, destaca Bertolli.

Ele explica ainda que a maioria das cidades criam palácios esportivos e acham que estão oferecendo lazer. “O máximo que a gente encontra nessa ideia de lazer na maior parte das cidades é um palácio esportivo, lugar onde a administração acha que está dando lazer à sociedade, uma quadra de futebol. O esporte é legal, mas o lazer é muito mais que apenas um esporte. Claro que tem que educar, mas tem que se buscar estratégias onde o lazer proporcionado pela esfera pública seja algo agradável.”  

 

 

Duartina tem parque para encontros

 

A cidade de Duartina tem dois pontos de concentração de jovens. A Praça Embaixador Pedro de Toledo, a da matriz e o Ecoparque, um espaço com quiosques onde esse público se reúne para “curtir um som” e comer. É no Ecoparque que se realizam inúmeros eventos, especialmente nos finais de semana.

A coordenadora da área cultural da cidade, Fátima Almeida Nunes, explica que Duartina não tem boates e que a administração local tem a pretensão de desenvolver projetos focados nos jovens que ela considera a base da sociedade.

“Estou assumindo essa área agora, porque estava parada. Pretendo executar vários projetos focados nos jovens. Nossos jovens estão pedindo, estão sedentos de opções de lazer.”

Ela admite que a praça da matriz ainda atrai moradores da faixa etária compreendida entre a adolescência e a fase adulta. “Ainda hoje, nos finais de semana o ponto de encontro na cidade, que tem 12.600 habitantes, é a praça da matriz. É um footing ao modo deles, não é como antigamente. Eles ficam batendo papo, tomando um lanche, bebendo. Existem lanchonetes ao redor da praça onde eles ficam sentados. Alguns ficam dentro do carro curtindo música. Quando o clima está mais ameno eles sentam nos bancos.”


Festa junina

O primeiro projeto da pasta a deixar a prancheta para a prática, segundo a coordenadora, é a festa junina. “Estamos no esboço desse evento. Queremos resgatar esses jovens para uma festa tradicional. Queremos que eles participem da quadrilha. Vai ser realizada no Ecoparque”, adianta.

Como na cidade não há cinema e nem espaço para o teatro, alguns jovens viajam para Bauru em busca de entretenimento e lazer, segundo Fátima Nunes. “Eles se deslocam principalmente para Bauru para frequentar as salas de cinema. Eventualmente ao teatro e a outro tipo de lazer.”

 

População mais nova de Avaí também viaja para se divertir

Os jovens de Avaí, que somam aproximadamente 1.271 moradores, se concentram na praça principal, Major Gasparino de Quadros. Nas imediações há lanchonetes, cinema e uma igreja. O local não tem um calendário de eventos para entreter essas pessoas, segundo o diretor de Cultura e Publicidade, José Botelho de Souza.

Para ele, com a mudança de administração ainda não foi definida uma programação focada para o local e para o público específico. “Não há calendário fixo. Periodicamente, em ocasiões especiais, datas comemorativas, contratamos DJs, bandas e grupos para cuidar do som.”

O diretor lembra que na cidade há um clube que também promove eventos voltados aos jovens. “Eles promovem bailes e shows com DJs. A prefeitura promoveu, recentemente, um show gospel e um torneio de som para atrair essa parcela da população.”

Ele concorda que os eventos voltados aos jovens são escassos no município. “Em minha opinião, falta lazer e entretenimento para os jovens. A prefeitura está colocando algumas questões financeiras em ordem para que possa ser feito um calendário. Em 100 dias dessa administração fizemos desfile de moda e a festa indígena. Temos feito alguns eventos esporádicos”, observa Souza.

A falta de atrativos para essa parcela da população faz com que eles deixem a cidade nos finais de semana, admite o diretor de Cultura. “Eles vão para Presidente Alves, Reginópolis e Bauru em busca de divertimento. Nosso cinema não está em atividade, e no município não tem teatro.”

Sem opções de lazer, só resta aos jovens de Avaí sair da cidade ou ficar na praça. “Alguns ficam na praça e ao redor dela, onde estão instaladas as lanchonetes. Uma delas, inclusive, leva som de DJs às sextas-feiras. Alguns estacionam seus carros, ligam o som e ficam interagindo.”

 

 

 

Pirajuí conserva ponto de encontro 

 

A Praça Dr. Pedro da Rocha Braga é o ponto de encontro dos jovens que moram em Pirajuí. É ali que eles se divertem e interagem com seus conhecidos. Mas o logradouro não é o local de concentração só do público jovem. Graças à programação cultural desenvolvida pela municipalidade, os integrantes da terceira idade e crianças também são frequentadores assíduos.

Mensalmente, a banda municipal ocupa o coreto brindando o público com músicas clássicas e populares, momento em que a população adulta ocupa o local para se deliciar com canções de boa qualidade, explica a diretora de Comunicação, Cultura e Turismo, Rosilaine Sinhorini.

“Esse tipo de evento ocorre nos domingos de manhã e está focado em um público mais seleto. O mesmo coreto é ocupado uma vez por mês pelos roqueiros. Desenvolvemos o festival de rock, sempre aos sábados, para atender o público mais jovem. O evento prossegue até a noite, depende de quantas bandas vão tocar. A população mais jovem também tem a opção de frequentar as festas promovidas pelos estabelecimentos particulares.”

Os shows também acontecem no domingo à tarde. “Temos uma banda local que toca na praça de 15 em 15 dias, embaixo das árvores. A Ciranda da Leitura é voltada às crianças. Neste mês vamos contar com a Caravana Cultural”, destaca a diretora.

Na opinião dela, a ideia central da administração atual é despertar no jovem que mora em Pirajuí o interesse pela cultura. “Não queremos que essa parcela da população deixe a cidade em busca de entretenimento. Estamos tentando agregar todas as tribos. Promovemos eventos sertanejos para quem gosta desse tipo de música, o rock tem espaço, o clássico e o popular também não ficam de fora.”

Rosilaine lembra que próximo à praça estão o cinema e o teatro. “Tem a turma do teatro. Tudo muito perto do logradouro. Tem ainda as lanchonetes e barzinhos. No sábado à noite, a galera fica na praça e passeia pela rua Riachuelo. É interessante o movimento deles. Vão e voltam, interagindo entre eles.”  

40% da população é jovem

 

Pirajuí tem aproximadamente 22 mil habitantes, segundo o Censo 2010. Deste total, 40% são jovens, ou seja, mais de 8 mil moradores. “Em Pirajuí temos a tradição de frequentar a praça central. Muitos moradores começaram a namorar aqui, no tempo do footing. Esse logradouro é muito bonito. É estilo republicano, são poucas as praças no Brasil que foram construídas nesse estilo.”

O grande número de jovens moradores incentiva a administração a desenvolver projetos focados neles. “Queremos que os jovens conheçam aquilo que a cidade tem a oferecer no âmbito cultural. A cada dois meses mais ou menos, trazemos uma peça teatral para ocupar o palco do nosso teatro. Nós temos uma companhia de teatro que eventualmente se apresenta.”

A praça também é ocupada por feiras de artesanato durante a semana. “Estamos com uma ferinha de artesanato. No final de ano é nesse local que a gente coloca o Papai Noel, momento em que recebemos cerca de 500 pessoas por noite. Fica lotada, fizemos desfile de parada de Papai Noel.”

Os jovens mais abastados, no entanto, saem da cidade em busca de diversão. “É um público mais seleto. O pessoal que tem carro e condições financeiras para arcar com despesas maiores vai para Bauru e Lins.”  

 

 

Prefeitura de Cabrália Paulista aposta em atividades audiovisuais

 

A Praça das Nações era, até pouco tempo, o ponto de encontro dos jovens que moram na cidade de Cabrália Paulista. Mas a fonte que dava brilho ao local está em manutenção, e a eles restou o Calçadão central, onde estão localizados bares e lanchonetes. A administração municipal aguarda um “kit cinema” que será doado pela Secretaria Estadual de Cultura para desenvolver atividades audiovisuais ao ar livre.

“Protocolamos no mês retrasado um pedido junto à secretaria para receber o kit cinema. A ideia é trazer o pessoal para todas as praças, ao clube, ao jardim para assistir filmes. O evento será itinerante. Pretendemos exibir filmes até no muro do complexo da piscina. Teremos várias opções de apresentações com o kit e com peças teatrais”, explica o secretário de Esporte, Lazer, Cultura e Turismo do município, Paulo Eduardo Palialogo.

Segundo ele, enquanto o kit não chega, a concentração de jovens acontece, durante a semana, no complexo esportivo. “Desenvolvemos programas com jovens nas piscinas e com jogos. O Calçadão ainda é a via mais utilizada por eles, como um footing.”

Além desse projeto, há ainda atividades esportivas para adultos e terceira idade. As atividades físicas podem ser feitas em aparelhos para musculação instalados no complexo esportivo, que só funciona no período diurno. “Temos programas para crianças a partir dos 7 anos. Elas brincam com fundamentos de esporte fora do horário escolar.”

A cidade, que conta com 5.083 habitantes, mantém atividades culturais ainda muito aquém das necessidades do público jovem. Por falta de opções, os jovens buscam lazer nas cidades vizinhas, admite Palialogo. “Eles viajam mais para Duartina, porque não há transporte coletivo durante a madrugada para eles retornarem de Bauru.” 

 

 

 

Projeto ‘Cinema na Rua’ faz sua estreia em Pederneiras 

 

O projeto “Cinema na Rua”, em Pederneiras, realizou no último dia 27 sua estreia com a apresentação do filme “Rio”. O espaço escolhido foi o Pátio Cultural “Izavam Ribeiro Macário”. A promoção é do Departamento de Cultura e Turismo municipal.

Para atrair maior número de moradores e amantes da sétima arte, uma tela gigante foi instalada no local. A primeira exibição do projeto, na antiga estação ferroviária da cidade, contou com uma tela inflável gigante de 9 metros de altura e 12 metros de comprimento. Foram disponibilizadas 500 cadeiras para o público presente acompanhar o filme.

O Cinema na Rua tem por objetivo levar entretenimento e cultura de forma gratuita através de sessões de cinema que são montadas em locais públicos da cidade. O projeto terá ainda outras três exibições gratuitas, todas com datas, locais e filmes a serem definidos.

“O Departamento de Cultura e Lazer me apresentou esta ideia do Cinema na Rua e na hora eu topei. Acredito muito na cultura como ferramenta de sociabilização, principalmente dos mais jovens. E o cinema é algo encantador, mágico, que leva o espectador a conhecer novas culturas e formas artísticas”, explica o prefeito de Pederneiras, Daniel Pereira de Camargo (PSB).

“Esperamos contar com a presença da população. O filme Rio foi escolhido para ser exibido na primeira sessão, pois é um filme muito bonito com uma mensagem importante de amizade e companheirismo, além de ser uma história com ares tipicamente brasileiros”, finaliza Camargo.

Festival de Bonecos

Em abril, o Departamento de Cultura e Turismo levou para o município o Festival Internacional de Teatro de Bonecos, realizado no Teatro Municipal “Flávio Razuk”. O evento contou com apresentações teatrais com marionetes (bonecos manipuláveis) feitas por companhias teatrais da Argentina, México, Peru e Brasil. A entrada foi gratuita todos os dias.

“Queremos trazer as diversas formas de cultural teatral para o nosso município e, com isso, incentivar o gosto da população pelo espetáculo teatral e pelo mundo artístico e cultural”, comenta o diretor de Cultura, Geraldo Antônio Cardoso Junior.

A cada dia, uma companhia de teatro de cada um dos países participantes apresentou uma história com marionetes procurando mergulhar no encantador mundo infanto-juvenil.

 

Espaço para o teatro

Pederneiras é uma das poucas cidades da região com espaço próprio para apresentações teatrais. O antigo galpão da ferrovia ganhou nova roupagem e há cerca de um ano tornou-se uma sala com 404 lugares para apresentações teatrais e shows. De acordo com o diretor de Cultura da cidade, Geraldo Antônio Cardoso Junior, as peças teatrais ocupam a casa de 15 em 15 dias.

A avenida Brasil, segundo ele, é um dos pontos de concentração de jovens. O cinema é simples e pouco frequentado. Não tem casa noturna. “Tem uma boate que funciona esporadicamente, a cada 20 dias. Muitos jovens viajam para Bauru e Lençóis Paulista, embora Jaú esteja mais perto, eles evitam por causa do pagamento de pedágio.”

Para o diretor, a cidade carece de atividades voltadas aos jovens. “Temos alguns projetos em estudo. Essa programação poderá ser colocada em prática no segundo semestre.”

 

 

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