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Lutas marciais: uso de técnicas para violência é covardia, dizem mestres

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

F.*, de 17 anos, conversa com uma amiga, que recebe amigos numa festa dentro de condomínio fechado em Bauru. É início de noite. A balada ocorre ao lado da casa dos pais do rapaz, que descansam tranquilos: o que poderia acontecer numa simples festa na vizinhança? A resposta vem através de um soco, um nariz quebrado, hospital, delegacia...

Uma discussão por causa do volume sonoro deflagrou a confusão em que lutadores de Jiu Jitsu agrediram F., que, mesmo sem defesa, apanhou muito.

Os nomes, a pedido dos pais das vítimas envolvidas, foram trocados. Mas o fato é verídico. Ocorreu mês passado, numa festa em residência dentro de condomínio da cidade. Pouco antes, outro jovem, membro do mesmo grupo, agredira outro garoto, na base dos chutes, mesmo com a vítima já no chão, em frente à mesma moradia.

Nenhum dos agredidos pratica qualquer tipo de arte marcial, garantem os pais, que também preferem não se identificar. Preferem dar nomes aos autos policiais e judiciais. O trio acusado de espancar os adolescentes, informam os pais das vítimas, foram expulsos da respectiva academia.

“Chegaram na festa procurando ‘quem era bom de briga’”, diz o pai de um dos garotos agredidos. “Meu filho foi chutado, desacordado, no chão”, protesta a mãe do jovem espancado em frente à casa aonde havia a festa. “Nossa sociedade se preocupa muito com a massa muscular. Falta, na verdade, desenvolver o cérebro”, completa o pai.

Sem sujar os punhos, ele arregaçou as mangas e sugere a discussão: artes marciais demandariam atestado psicológico para seus praticantes? Ciente de que nem todo lutador é brigão (e vice-versa), o pai do rapaz propõe o debate: carteira de motorista requer laudo psicotécnico, bem como ingresso numa empresa.

Antes do tatame, devemos passar no divã? Com a palavra, praticantes, instrutores, esportistas, pais e psicólogos. “Sabemos que a academia não ‘ensina’ os garotos a agirem assim. A questão é se qualquer pessoa pode adquirir as técnicas de luta”, justifica. Ambos os pais garantem que os filhos não reagiram ou revidaram às agressões, substituindo golpes por ações judiciais.

Sentiu na pele

Giovanni Comora, estudante que foi agredido em 2011, recorda a covardia da qual foi vítima e questiona: “Fui agredido no banheiro de casa noturna em Bauru. Não me lembro de nada e, até mesmo por isso, os motivos ainda são incertos. Fui golpeado, pisoteado, agredido brutalmente a ponto de ficar dias na UTI. Fui espancado, desacordado. O fato é que muitas artes marciais derivam de filosofias e estados de espírito milenares, fazendo com que os indivíduos tenham equilíbrio mental. Acho que as pessoas que fazem ou vão começar a praticar alguma arte devem passar por orientação psicológica. Assim, ela mesmo fará uma auto reflexão se vai para fazer esporte, com os reais objetivos da arte marcial. As pessoas que fizeram aquilo comigo não eram praticantes. Será que alguém com o perfil delas poderia entrar no mundo das artes marciais?”

Minoria ‘queima faixa’ de atletas

Instituído no início do século passado pelo lendário Carlos Gracie, o Jiu Jitsu brasileiro, que prima pela aplicação de técnicas em luta de solo, é responsável por uma leva de atletas que se destacam internacionalmente, desde em campeonatos restritos à modalidade quanto no MMA (Mixed Marcial Arts ou Artes Marciais Mistas, do Inglês).

Porém, independentemente à luta escolhida, vale o tanto o que passa na cabeça de quem pretende escolher uma arte marcial, mas também do perfil do instrutor. Para o professor de Jiu Jitsu Michael Reihner, da academia Gracie Barra, em Bauru, cabe ao aluno e, principalmente, pais, avaliar academias e instrutores antes da matrícula.

“Mais que avaliações psicológicas de aluno, o instrutor deve ter o perfil observado. A academia precisa ser federada. Com o crescimento das modalidades e maior procura, tem muito professor que, na verdade, não é professor”, salienta. “Autodefesa se explica pelo nome. É defesa, não ataque”, diferencia, defendendo a expulsão sumária de quem usa os conhecimentos de forma indevida.

Aceituno Jr

Michael Reihner: “instrutores devem ser avaliados diretamente pelos pais antes da matrícula”

Com alunos de idades distintas, Michael implementa nas instruções conceitos além do tatame, envolvendo desde alimentação como convivência social. Além do que é transmitido na academia, diferencia, a educação em casa também pode ser um duro golpe na selvageria. “Os pais precisam estar por dentro de tudo o que o filho faz”, acentua.

Teste para professor

A “vitória” na discussão está longe de um ippon, finalização ou nocaute. A disputa é apertada, com pontos de vista distintos. Até mesmo para quem, em hipotética obrigatoriedade de avaliação, receberia a missão de aferir quem poderia ou não ir aos tatames, rinhas ou octógonos.

Terapeuta cognitivo (ramo que estuda os processos mentais por trás do comportamento), o psicólogo Arnaldo Vicente acredita mais no treinamento e atenção dos instrutores do que avaliações diretas com alunos das academias. O psicólogo defende a prática desportiva das artes marciais.

Segundo ele, cabe aos instrutores um olhar atento sobre os alunos que, além da orientação física e técnica, também devem ser norteados com preceitos de ética e convivência, dentro e fora dos tatames. “Esses valores precisam ser reforçados não apenas no início, mas em todas as etapas do aprendizado”, observa Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC).

O foco, talvez por meio de homologações de federações ou confederações, sobre a atuação dos instrutores, salienta o psicólogo, é justificado pela influência exercida pelos instrutores aos alunos. “A tendência é torna-los ídolos, exemplo. Por isso, eles mesmos precisam detectar potencial uso equivocado da técnica ensinada”, considera.

Avaliação sobre o aluno, diretamente, não seria eficaz, acredita. Para o terapeuta, além dos instrutores, a família também precisa estar presente e acompanhar os passos (e golpes), principalmente quando os alunos são mais jovens (caso dos envolvidos na ocorrência que gerou mobilização dos pais). “O tema merece uma atenção voluntária de professores e pais”, enfatiza.

Esporte para todos

A ideia lançada por pais de jovens agredidos por maus praticantes de artes marciais, durante festa em condomínio no mês passado, divide opiniões entre esportistas e instrutores na cidade.

Se, por um lado, há quem defenda laudo psicológico para que alguém aprenda técnicas de defesa pessoal ou luta de competição, por outro, há quem atribua aos professores a missão de detectar má intensão dentro das academias. “O principal é o professor”, aponta Mário Sabino, judoca bauruense medalha de ouro nos Jogos Panamericanos e bronze em Mundial, ambos em 203.

Para o atleta, com duas olimpíadas no currículo, se o instrutor não detecta esse perfil de aluno, dificilmente outro profissional o fará. Praticante também de Jiu Jistu (treina na academia Ricardo Pereira) ele elogia os professores da cidade. “No treino já há cuidados, acentuados com mulheres ou atletas menos graduados”, detalha.

Segundo a visão do judoca, a maioria dos “valentões” de balada é iniciante, independentemente da arte marcial. “Quem é mal intencionado geralmente desperta o lado agressivo sem mesmo completar um ano de prática”, avalia. Neste caso, diferencia, a solução está longe do tatame, e sim no divã. “Se é despertado esse lado, é preciso um trabalho psicológico”, diferencia. “Para evitar que a agressividade vá para a rua”, complementa, afirmando que “segundas intenções” são detectadas ainda em treinamento.

Ana Claudia Fatia, instrutora no Instituto Kung Fu Wushu, também coleciona conquistas e participações internacionais na modalidade. Contudo, as vitórias se restringem ao âmbito esportivo, diferencia ela, que tem uma opinião moderada sobre a intervenção psicológica para iniciantes. “Acho que uma avaliação ajudaria, mas não seria decisiva”, observa.

Para ela, eventual teste psicológico seria complementar. “Vai muito do professor também”, acentua. “Há possibilidade de não aparecer no teste e a má índole ser detectada nos treinamentos. A própria pessoa desiste quando percebe que as aulas não tem nada daquilo que era esperado. Testamos a paciência, com muito treino físico e fundamento”, detalha.

“Para querer ‘brigar’ com alguém, tem de ser do mesmo peso, tamanho, além de graduação técnica. Aí sim pode se dizer que é bom. Do contrário, é a prática da covardia. Nessas brigas, geralmente, ataca-se em grupo e sobre quem não tem técnica. É a prática da covardia”, denomina a lutadora. “A academia não é o lugar deles”, condena

A favor

Instrutor na Academia de Tática e Artes de Combate (Atac), Douglas Gonzales é enfático: “antes de lutar é fundamental passar por avaliação psicológica”. “Aferição por psicólogo deve ser adotada sim”, defende. Para ele, apesar dos professores poderem detectar algo fora do padrão, dentro da área específica, eventual desvio pode ser camuflado. “Desta forma, a pessoa pode desencadear algo mais grave”, acredita.

Especialista em kombato, sistema de defesa pessoal criado dentro das forças armadas, envolvendo uso de armas, muito utilizado por guarda costas, Douglas já diz exigir, no ato da inscrição, explicações detalhadas sobre motivo da matrícula. “Queremos saber se a intenção é defesa pessoal, as razões; condicionamento físico ou prática esportiva”, especifica.

O treinador observa que a maioria dos envolvidos em brigas é de novatos em artes marciais. “É aluno novo. Mal aprende um mata leão (golpe de estrangulamento) e vai para a rua. É imaturidade. Muito também parte da educação no lar”, opina.

Fragilidade camuflada

Para o psicólogo Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia (CTC), muitos “brigões” sem causa (não que haja justificativa para arrumar confusão), na realidade, usam os entreveros, geralmente provocados contra quem não possui as mesmas técnicas, para esconder fragilidade emocional.

Desta forma, brigar a esmo seria uma válvula de escape. “Algumas pessoas, para sentirem-se até mais confiantes, buscam formas de compensar eventual vulnerabilidade. Sentindo-se incompreendidas, tentam compensar, uma das formas é por técnicas de luta para se ‘diferenciar’ dos outros. Na verdade é demonstração de fragilidade”, diferencia.

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