A excomunhão do padre Beto pegou a nós todos de surpresa, principalmente os cristãos ditos "seguidores" do padre, seja na missa ou no evento Café com Letras, da Livraria Jalovi. Seu nível intelectual, somado à formação religiosa, à vivência profissional como professor do 2º grau e depois universitário, juntamente com várias graduações universitárias e doutorado, autor de vários livros, cronista de jornal, titular de programa de rádio, fizeram dele um sacerdote católico possuidor de cabedal profundamente diferenciado dos demais.
A celebração da missa, normalmente enfadonha, cansativa, sonolenta, repetitiva e geralmente não oferecendo nada de novo, quando rezada pelo padre Beto ganhava outra dimensão. A sua entrada na igreja já contagiava com a alegria e o entusiasmo que irradiava. Convidava a todos para um exame de consciência sobre as nossas atitudes e ações em relação às pessoas, aos familiares, enfim, ao próximo. Desenvolvia a celebração com descontração, mas prendia a atenção de todos. Após a leitura do evangelho, fazia de sua interpretação uma verdadeira obra de evangelização, traduzindo e atualizando seu conteúdo para os dias de hoje, tornando seu entendimento perfeitamente acessível. O amor sempre foi a pedra fundamental de sua reflexão. Insistia na necessidade de sermos cristãos transformadores e não apenas "carneirinhos" e acomodados. Às vezes associava uma abordagem social-político local, mas solidamente fundamentada, visando uma conscientização política das pessoas. Introduziu positivas alterações no texto da missa, onde substituiu o termo "poderoso" por "amoroso", conferindo assim, ao Senhor, um valor mais carinhoso. Próximo do final, reservava um momento social presenteando o aniversariante do dia com uma lembrancinha, seguido de um comentário igualmente carinhoso. Finalizava a celebração com uma evocação tocante ? "Levai paz a este mundo e o que Senhor vos acompanhe."
As celebrações de missas do padre Beto, na Paróquia Universitária, Santuário Nª. Srª Aparecida e, por último, Paróquia Santo Antonio e Paróquia São Benedito, sempre foram de igrejas cheias, lotadas. Qual será o motivo? Muito provavelmente, o carisma, a capacidade de fazer a missa ser um momento interessante e de reflexão e que ao final as pessoas pudessem se sentir melhor espiritualmente. Sua última missa na Paróquia de Santo Antonio, domingo passado (28/04), estava literalmente com a igreja cheia e com muitas pessoas em pé. Foi aplaudido de pé por alguns minutos, no começo e ao final da missa. Era perfeitamente notável a emoção nos olhos das pessoas, mulheres e homens, jovens e adultos já maduros, ao longo da celebração. Foi uma inequívoca demonstração de solidariedade ao futuro padre excomungado. O acolhimento e o longo abraço fraternal a pessoas ligadas à Umbanda, na saída, foi mais uma prova de seu amor ilimitado e sem qualquer receio de demonstrá-lo em público.
No momento em que a Igreja Católica perde cada vez mais seguidores, principalmente no Brasil, a Diocese de Bauru comete o violento ato de excomunhão do padre Roberto Francisco Daniel, sob a acusação de incorrer no "...gravíssimo delito de heresia e cisma...", justo ele que era capaz de fazer crescer o rebanho da Igreja e que transpirava espiritualidade. Ignorar o amor dos gays e lésbicas, a infidelidade conjugal e suas nuances nos dias de hoje é tapar o sol com a peneira. Pior cego é aquele que não quer ver. Ainda há esperança de que o Papa possa reverter este ato, e então nem tudo estará perdido. Num exercício puramente cristão, se Jesus voltasse a Terra e passasse pela comunidade de Bauru para ver como vai indo, em que Templo ele entraria? Na Igreja do bispo Caetano Ferrari com seus dogmas e doutrinas, padres pedófilos e assaltantes aos cofres do Vaticano, ou então na Igreja do padre Beto, com seus pecadores gays, lésbicas e infiéis conjugais? A resposta fica por conta de cada um.
Engenheiro agrônomo Christopher Davies