Tribuna do Leitor

Ao agora Beto Daniel


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Depois do anúncio do agora ex-padre Beto, sobre seu afastamento da igreja, muitos me enviaram e-mails dizendo: "E agora? Não vai falar nada? Calou a boca?" e por aí vai, tudo por causa do texto anterior que escrevi sobre este caso. Pois bem, meus caros, agora vou escrever, esperei apenas a Diocese se manifestar oficialmente porque sabia que iriam proceder desta forma, com a excomunhão e abertura de processo para demissão do padre, tinha certeza que seria assim, o que levanta pontos que a maioria das pessoas, dentro de suas alienações e fanatismos estão incapazes de enxergar e fazer a crítica como deve ser feita. Assisti à entrevista coletiva do Beto e vou dizer uma coisa, ao contrário do que muitos possam achar, foi decepcionante, porque perdeu a chance de ele realmente chutar o pau da barraca e assumir as boas ideias que tem em sua cabeça, mas preferiu anunciar apenas o desligamento, mas com certeza sabendo que a igreja iria excomungá-lo na segunda-feira.

Me irrita essa mesmice de sempre em discursos pseudo-rebeldes, que "deus disse isso", "deus falou assim", "Jesus pregou aquilo", já encheu o saco esse negócio de desviar da realidade e colocar um inexistente deus em tudo, ele disse que a igreja finge uma coisa e os fiéis fingem que cumprem, é verdade, mas você, Beto, também fingiu todo esse tempo cumprir algo que não era compatível com suas ideias, pelo que conheço de você pelo tempo que tivemos de convívio. Chamou de hipocrisia da igreja, mas todos são hipócritas, a igreja, os fiéis e você também tem sido, infelizmente, pois concorda com Marx sobre a "religião ser o ópio do povo", mas foi a sua ponte para os estudos, oportunidades de empregos, estabilizou sua vida por esse meio (igreja), fingindo uma revolução apenas na sua cabeça e nada na postura cotidiana. Parece que agora, querendo mudar de ares, forçou uma situação que poderia ter feito tempos atrás e chutando pra valer a igreja, não o fez.

O chamam de inovador na igreja, mas quando defende reformas, adaptações e não o fim dela em favor da ciência, da realidade, no fundo não quer que nada mude, porque reformas é como querer reformar uma casa que apresenta alguns problemas, manda uma pintura nova, um puxadinho ali, mas a casa continua a mesma, com as mesmas bases e estruturas, e assim fazem as religiões, se reformam, se adaptam para uma época para continuar a mesma coisa, um fator de alienação e controle da sociedade caminhando com o estado opressor. Tanto é que ela age assim que você, numa entrevista, dia desses, disse que em outros tempos seria jogado na fogueira. Hoje corpos não são queimados mais, mas os cérebros continuam sendo queimados pela real função das igrejas, alienar, controlar.

Certa vez, numa entrevista ao JC, você, ao ser questionado para quem daria nota 10, respondeu que seria o Che Guevara, pelo idealismo e coerência, logo você, que possui boas ideias, mas não as assume publicamente, o que o faz incoerente até como admirador do grande Che, este sim idealizou um mundo e morreu por ele, jamais ele iria aceitar adentrar o sistema eleitoral burguês como você já fez, pedindo votos ao neoliberal Caio Coube, quando pediu também votos ao candidato a vereador na mesma época, o Jorge Moura, sendo que um batia no outro pelas costas e ainda pedindo a outro que usa uma religião como trampolim político e até hoje não veio a público explicar as acusações e seu afastamento do instituto do qual participava, o Ricardo Barreira. Agora cobra da igreja um envolvimento contra as mazelas do país, mas onde estava quando um cara inteligente como você é não se apresentava publicamente para criticar com acidez essas mazelas e se posicionar ao lado dos famélicos, dos sem-terra, sem-teto? Como vê, essa postura eleitoreira, conservadora, de se colocar ao lado de políticos que só querem seu lugar ao sol e manter esse status quo na da sociedade é o mais do mesmo, manter como tudo está, exatamente como as igrejas fazem.

Ser moderno não é usar um brinco, camiseta de roqueiro e tomar chopp, isso é adaptação de marketing, para ser revolucionário o buraco é mais embaixo, é ser em primeiro lugar um conscientizador com ácida crítica, ter convicção profunda dos ideais e se expor a briga. Lhe digo mais, Beto, eu adoraria ter tido a oportunidade de estudar no exterior num ambiente marxista como você mesmo já me relatou, mas jamais montaria em ninguém ou usar algo de ponte para me beneficiar, queimar com meu ideal e coerência, fingir que está tudo bem e depois dar uma de "armless John".

Não pense que estou pegando no pé, gostaria e te receberia de braços abertos se realmente mudasse de postura assumindo seus ideais, mas não é o que estou vendo, e se fizer o que muitos estão falando, em entrar de vez para o mundo da política e/ou levantar mais um grupo de fé, estará a jogar a última pá de cal nas suas ideias de um sólido e coerente guevarismo. O mundo precisa retomar urgente uma visão da realidade, ácida e crítica, postura sem medo de guerrilhar.

Marcos Casalechi Rezende

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