A epidemia de dengue em Bauru, que já contabiliza mais de 4 mil pessoas infectadas, provocou grande aumento na demanda por atendimento nas unidades de urgência e emergência da cidade. Em apenas três meses, a procura cresceu 27%, como reflexo direto e indireto da explosão de casos da doença.
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Quioshi Goto |
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Com febre e dores, Cléber Galeli foi levado à UPA da Vila Ipiranga pela irmã Cristiane, ontem à tarde |
Diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag explica que, além do aumento concreto do número de pessoas contaminadas, a maior demanda foi gerada pelo temor da população diante da epidemia. “Em épocas normais, a pessoa contrai uma gripe e resolve o problema sozinha, em casa. Mas, numa situação de surto de dengue, ela corre para o pronto-socorro, porque está alarmada”, frisa.
De acordo com ele, em 2013, as cinco unidades de urgência e emergência de Bauru - Pronto-Socorro Central (PSC), Pronto Atendimento Infantil (PAI) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Mary Dota, Ipiranga e Bela Vista – foram responsáveis por cerca de 37 mil consultas em janeiro. Já em março, este número cresceu para 43 mil e, em abril, para 47 mil pacientes assistidos.
Do início do ano até agora, o acréscimo foi de mais de 330 atendimentos diários e Sabbag salienta que, com a inauguração das novas UPAs, não foi necessário ampliar o número de funcionários para dar conta de toda a demanda.
Segundo apurou o JC, o inchaço nos atendimentos também foi sentido pela rede privada de saúde.
Muitos pacientes apresentavam febre alta, dores musculares e dor de cabeça, sintomas comuns da dengue e da gripe. É o caso do autônomo Cléber Luiz Galeli, 32 anos, que ontem procurou ajuda na UPA do Ipiranga, acompanhado da irmã, a doméstica Cristiane Galeli, 37 anos.
“Desde sábado, ele está com 38 graus de febre, fraqueza e muita dor de cabeça. Como meu filho teve dengue no mês retrasado, ficamos preocupados, porque a gente sabe o quanto a doença pode fazer mal a uma pessoa”, comenta Cristiane, que aguardava a consulta médica quando foi abordada pela reportagem.
Acúmulo
Ainda ontem, a Secretaria Municipal de Saúde, através do Departamento de Saúde Coletiva, confirmou mais 101 casos autóctones de dengue (contraídos na cidade). Com as novas notificações, Bauru já contabiliza 4.073 casos da doença, sendo 4.062 autóctones e 11 importados, com dois óbitos.
O diretor do Departamento de Urgência e Emergência salienta, no entanto, que as notificações recentes são referentes a coletas de material realizadas, em média, há 20 dias, já que, devido ao grande número de casos suspeitos, os laboratórios em todo o Estado sofreram com a falta de kits para fazer os exames. Normalmente, o prazo para entrega dos resultados é de 24 a 48 horas após a coleta do material biológico. “Houve um atraso e, por consequência, acúmulo na confirmação de casos”, frisa Sabbag.
De acordo com ele, a partir de agora, com o fim do período de chuvas e a chegada do frio, a infestação tende a diminuir, já que o mosquito Aedes aegypti precisa de água e calor para se reproduzir.
Época de gripe
Com a aproximação do inverno, os casos de dengue tendem a diminuir, mas, em contrapartida, a gripe passa a acometer a população com maior frequência. A principal diferença sintomática entre gripe e dengue é que a primeira atinge as vias aéreas inferiores (traqueia e pulmões).
Já a segunda, por sua vez, manifesta sintomas pelo corpo todo (febre alta, dor de cabeça, fraqueza, dores musculares, nas juntas, atrás dos olhos, coceira e vermelhidão na pele), sem que haja comprometimento respiratório, como tosse, dor de garganta, coriza e catarro. O resfriado, também comum nesta época mais fria, atinge principalmente as vias aéreas superiores (nariz, faringe e laringe) e raramente dá febre – quando há, é baixa.
Neste ano, até o momento, a Secretaria Municipal de Saúde não registrou nenhum caso de gripe A (H1N1) – ou gripe suína – na cidade.
Entenda como a doença é transmitida
A dengue pode ser transmitida pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, que, durante a fase de acasalamento, precisa de sangue para garantir o desenvolvimento de seus ovos. Eles eclodem em recipientes onde se acumula água parada e, preferencialmente, limpa, mas são extremamente resistentes e podem sobreviver por vários meses em ambiente seco.
Em condições favoráveis, os ovos imersos em água evoluem para mosquitos adultos no período médio de 10 dias. Por este motivo, a eliminação de criadouros deve ser realizada pelo menos uma vez por semana: assim, o ciclo de vida do mosquito é interrompido.
Uma fêmea pode dar origem a 1.500 mosquitos durante a vida. Se ela estiver infectada pelo vírus da dengue quando realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já nascerem com o vírus, no processo chamado de transmissão vertical.
Quando uma fêmea pica uma pessoa infectada pela dengue, mantém o vírus na saliva e o retransmite a pessoas sadias até o fim de sua vida. Não há transmissão humana pelo contato com pessoas doentes ou suas secreções, nem fontes de água ou alimento.
Recorde histórico
Se o ritmo de confirmações de casos de dengue permanecer o mesmo nos próximos dias, a estimativa é de que o recorde histórico da doença em Bauru seja batido ainda nesta semana. A maior marca foi registrada em 2011, quando 4.354 pessoas foram infectadas. Até ontem, a cidade contabilizava 4.073 casos de dengue, com uma média de cerca de 100 novas notificações a cada dia.
Subnotificações
Em matéria recente publicada pelo Jornal da Cidade, o Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde informou que o índice de subnotificações pode chegar a 50% do montante confirmado. O principal motivo é que muitos pacientes que apresentam os sintomas da dengue acabam desistindo de realizar o exame, que só pode ser feito após o quinto dia de manifestação de febre.
Sendo assim, para cada dois casos contabilizados, ao menos um não seria registrado. Se tivessem sido, a quantidade de doentes em Bauru alcançaria 6.109 pessoas.
