Polícia

Vai um ?trago? aí?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Antigamente, os usuários de crack precisavam ter, no mínimo, R$ 5,00 para obter uma pedra da droga. Aqueles que não tinham esse dinheiro eram “chutados” das biqueiras. Os traficantes em Bauru, porém, perceberam que podiam continuar lucrando com essas pessoas desesperadas. Começaram, então, a vender tragadas.

Divulgação/ABr

Traficantes de Bauru comercializam tragadas de crack 

A comercialização nas biqueiras é o que a polícia chama de “varejo” – termo econômico que indica bem o caráter comercial do tráfico. “No varejo, a pedra de crack de 1 grama é vendida a R$ 10,00. Havia pedras menores também vendidas por R$ 5,00”, explica o tenente Bruno Mandaliti Scarp, comandante do 1º Pelotão da Força Tática da Polícia Militar (PM).

Contudo, isso mudou. “Os traficantes perceberam que estavam perdendo, pois nem sempre os ‘nóias’ conseguiam juntar esse dinheiro”. Assim, começaram a vender, por preços menores, apenas tragadas da droga.

“O ‘nóia’ chega lá e tem apenas R$ 1,00 no bolso, por exemplo. Esse valor dá direito a apenas uma ou duas tragadas”, explica o tenente. E os usuários também conseguem comprar a droga com menos dinheiro ainda. “Até com centavos”, complementa.

Essa realidade impulsiona ainda mais os chamados pequenos crimes em Bauru. Para obter dinheiro e comprar o crack, os usuários furtam de tudo e pedem esmola. “Qualquer coisa para eles vira pedra”, afirma o tenente.

O titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), Ricardo Dias, diz que ainda não ouviu relatos dessa nova maneira de vender o crack. “Mas não duvido”, aponta, justamente por conhecer o contexto da droga.

Casas de passagem

Além do trabalho policial, é mais do que sabido que o combate ao crack se faz por ampla rede articulada. Desde o fim do ano passado, Bauru conta com importante instrumento na recuperação dos usuários: as casas de passagem.

Inicialmente idealizadas para operar no bairro Higienópolis, as casas de passagem, que foram noticiadas com exclusividade pelo JC, precisaram ser deslocadas para pontos distintos da cidade. “Houve um temor dos moradores do bairro. Então, ali (no Higienópolis), ficou só a recepção dos usuários mesmo. E está dando bastante certo”, afirma a titular da Sebes, Darlene Tendolo.

São três casas de passagem, com 20 vagas cada, instituídas em parceria com o Esquadrão da Vida, a Comunidade Bom Pastor e o Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac).

Visto como a “ponte” entre o abandono na rua e a recuperação dos usuários, o local não é um albergue, mas sim um “passo anterior” ao Centro de Apoio Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD). Na casa, atuam psicólogos, assistentes sociais, curadores, cozinheiros e terapeutas ocupacionais.


Funcionários de casa de passagem relatam as dificuldades da batalha

Na Ceac, funciona a casa de passagem e também o albergue. São 20 vagas para a primeira e 50 para o segundo. Hoje, a casa de passagem tem 13 pessoas, que recebem o atendimento inicial para uma vida nova. Inicial, contudo, importante e bastante árduo.

“Nossa missão é resgatar alguns valores. Precisamos fazer com que eles tenham a responsabilidade sobre a própria vida”, explica a psicóloga do local, Karine Fonseca.

Ela relata que um dos maiores desafios é lidar com a abstinência dos usuários. “Temos que acreditar em todos”, responde, quando questionada se há casos impossíveis.

O terapeuta ocupacional da instituição, Evandro Caversan de Godoy, tem o mesmo pensamento. Ele, contudo, relata que a maior dificuldade se dá exatamente pelo potencial do crack. “Ele destrói tudo. Destrói a consciência da pessoa. A dependência que causa é muito forte”, complementa.


‘Cheguei a usar 40 pedras por dia’

Com duas filhas pequenas, uma mulher de 33 anos transformou totalmente sua casa. O imóvel deixou de ser um lar. “Minha casa é onde todos iam usar droga. E, além do que eu comprava, eu usava o que eles levavam. Cheguei a usar 40 pedras por dia”, conta.

Em recuperação na Comunidade Terapêutica Bom Pastor, ela conta que começou a usar o crack com seu segundo esposo. “Comecei há três anos. Meu esposo era usuário há 17 anos”.

Ambos estão tentando recomeçar. “Ele também está em uma clínica e nós nos vemos somente aos fins de semana”, conta a mulher, que não tem contato com a droga há cinco meses. “Eu perdi praticamente minha vida toda. Cheguei a morar na rua. Esta é minha sexta internação. Mas, desta vez, percebi que meu vício é realmente uma doença”.

Justamente por entender como uma doença, a ex-usuária recebeu com alegria a notícia do Bolsa Crack. “Tem muita gente que quer sair dessa vida, mas não tem condições. Vai ajudar a muitos nessa luta”, finaliza.

Parece clichê, mas a verdade é que o crack realmente tem poder destrutivo imensurável. Quem experimentou a droga sabe as dificuldades de conseguir sair dela. “Cheguei a vender até o meu chinelo”, conta um jovem, de 21 anos.

Ele começou a usar a droga aos 16, por influência de um primo e, hoje, está ‘limpo’ há dois meses. “Fiquei internado um ano. Saí, tive uma desilusão amorosa e voltei a usar. Agora, decidi que precisava mudar de vida. Percebi isso quando minha mãe me colocou para fora de casa”, conta.

Ele está em recuperação na casa de passagem que funciona no Ceac e garante que o crack é a “pior droga que já viu”. “É muito difícil. Na fissura, eu ficava comendo minhas unhas. Vendi tudo que tinha na minha casa”. O jovem, porém, garante que, dessa vez, a história de sua recuperação será diferente. Tanto que ele não quer mostrar seu rosto. Vergonha? Não. Ele e tantos outros querem fazer uma surpresa para a mãe quando, recuperados, voltarem para casa.


Crescimento de 41%

Quando o crack estende seus tentáculos e até suas maneiras de venda, aumentam também as ocorrências de tráfico. Prova disso são os números da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP).

Os dados mais recentes mostram que houve um crescimento de 41% entre o primeiro trimestre de 2013 e o mesmo período do ano anterior em Bauru. As estatísticas apontam que foram 85 casos nos três primeiros meses de 2012, enquanto, neste ano, foram 122 ocorrências.

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