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Entrevista da Semana: Fábio Luiz Rodrigues Mendes (Binho)

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Pegar a estrada em busca da adrenalina promovida por um bom show de rock. Esse é um dos combustíveis que move a vida de Fábio Luiz Rodrigues Mendes, mais conhecido como o tatuador Binho das excursões de rock.


Há 20 anos organizando viagens para os shows das maiores bandas de rock do planeta que desembarcam em palcos brasileiros, Binho tem muitas histórias para contar, afinal, ele já pegou a estrada por 94 excursões. A próxima parada é o Rock in Rio.


“A primeira excursão que eu organizei foi para um show do Metálica, em 1º maio de 1993. Eu não tinha grana para ir e me juntei com alguns amigos. Lembro-me que fizemos essa viagem com o pessoal de uma loja de rock e cada um montou um ônibus que foram apelidados de heaven & hell, porque um levou os pais com seus filhos e o nosso só tinha os doidos”, lembra com bom humor.


A paixão pelo rock divide espaço na vida de Binho com a profissão de tatuador: “Embora ainda haja preconceito, hoje a tatuagem de qualidade é vista com bons olhos pela sociedade”. Confira estas e outras histórias, a seguir.  



Jornal da Cidade – Como é completar duas décadas de estrada em busca de shows de rock?


Fábio Luiz Rodrigues Mendes (Binho) – Eu gosto muito dessa vida. Já fiz 94 excursões para shows de rock, apenas de rock. Inclusive tem um grupo que me acompanha desde a primeira excursão, em 1993, e vai comigo agora para o Rock in Rio. Há caras que tiveram filhos e que hoje viajam com a gente também. Eu já tomei muita chuva nas filas para entrar nos shows, cacetadas da polícia que, há 20 anos, também não tinha muita noção sobre o que é um show de grande porte. Atualmente esse tipo de evento é muito organizado. Se você me perguntar como eu me imagino daqui a 20 anos, direi que é indo para shows de rock com meu filho que hoje tem 3 anos, mas já gosta muito da música. Ele tem até guitarra e imita nossos astros preferidos. Quem sabe ele dê continuidade a esse delicioso trabalho.     


JC – Como nasceu a primeira excursão?


Binho – A primeira excursão que eu organizei foi para um show do Metálica, em 1º maio de 1993.  Eu não tinha grana para ir ao show e me juntei com alguns amigos para a lotação. Colamos cartazes pela cidade toda. Lembro-me que fizemos essa viagem junto com uma loja de rock que havia em Bauru, na época. Cada um montou um ônibus e nós os apelidamos de heaven & hell, porque um levou os pais com seus filhos e, no outro, só foram os “doidos” (risos).   


JC – Histórias inesquecíveis?


Binho – Muitas. No começo eu não tinha experiência em promover essas viagens. Para você ter ideia, essa primeira excursão chegou a São Paulo por volta das 6h e os portões se abririam apenas às 17h. A fila já estava imensa, e ficamos o dia todo sob o sol para não perder o lugar, mas estivemos entre os primeiros a entrar. E no início eu não tinha a organização que tenho hoje, então sempre acontecia alguma coisa que nos fazia rir muito depois, como a vez em que paramos para almoçar e, quando pegamos a estrada novamente, notamos que um rapaz estava correndo atrás do ônibus. Ele estava no banheiro e ninguém notou a sua ausência na partida (risos). Quando comecei com as excursões, o pessoal tinha a mania de jogar as coisas para o alto nos shows, para festejar mesmo, o que era perigoso porque podia machucar alguém. Teve uma vez que passou um frasco de catchup voando perto da gente, depois um pão e, por incrível que pareça, passou uma salsicha também. Só faltou o cara do carrinho (risos).      


JC – Como é organizar jovens em uma excursão de rock?


Binho – Hoje os jovens são muito mais tranquilos que há 20 anos. Eu digo brincando que até parece que levo excursões para Aparecida e não para shows de rock (risos). É até esquisito para quem é “das antigas”. É claro que a gente impõe um certo respeito dentro do ônibus para não virar bagunça. Tomar uma cerveja não tem problema algum, mas não pode fumar dentro do ônibus, por exemplo. Mas eles não dão trabalho algum.


JC – O que mudou no perfil dos jovens nesse tempo todo?


Binho – Tinha gente que chegava ao destino já tombado e até perdia o show. Muitas vezes eu precisei procurar os caras na volta porque eles bebiam muito e não conseguiam encontrar o ônibus. Houve um episódio em que um rapazinho chegou desmaiado ao show e precisamos reanimá-lo. O garoto foi para ver o Iron Maiden, mas perdeu o show. Não sei dizer o que mudou, mas a molecada de hoje é mais tranquila.    


JC – Qual foi o seu show inesquecível?


Binho – Para mim foi o do AC/DC.  Não é só por eu ser fã da banda, mas de todos os shows que eu já assisti até hoje e de tudo o que eu já vi até agora, posso dizer que a apresentação do AC/DC é a melhor. Assisti três vezes e posso dizer que esse é o top do show de rock.


JC – Um show que gostaria de ter visto.


Binho – O único show que eu queria ter visto e que não consegui, infelizmente, foi do Dio, que foi vocalista do Black Sabbath e Heaven & Hell. Ele morreu há três anos e eu até tatuei o rosto dele na minha perna. Foi um cara lendário e que eu gostaria muito de ter visto. Ele veio várias vezes para o Brasil, mas não deu tempo porque em todas as oportunidades eu tive problemas que me impediram de programar a excursão.


JC – Além de ser um apaixonado por rock você também toca alguma coisa?


Binho – Não (risos). Eu até tentei quando moleque, mas não consegui e a minha guitarra virou peça de museu.


JC – Preferiu partir para as tatuagens?


Binho – Tatuagens sempre. Eu conheci o Marcelão, que é bem conhecido em Bauru, em 1994, logo que ele chegou à cidade. Na época, tudo era muito simples e ninguém tinha estúdios bem equipados. Eu comecei a fazer alguns desenhos para ele, fiz amizades e comecei a frequentar a casa dele, onde também era o estúdio. E foi naquela época que ele começou a me incentivar e a me ensinar a tatuar, porque achava que eu tinha talento. Fiquei alguns anos lá com ele até que resolvi montar o meu estúdio.


JC – Você tem quantas tatuagens?


Binho – Nossa, eu até perdi as contas, mas acho que beira as 40. Até eu já fiz tatuagens em mim, mas não é algo muito gostoso, chega a ser masoquismo (risos).


JC – Qual é o perfil de quem opta pela tatuagem, hoje?


Binho – Hoje quem mais tatua é o pessoal com 30 anos ou mais. Primeiro porque não é algo barato e, depois, porque essas pessoas já estão “encaminhadas” na vida, já têm um trabalho e já sabem o que querem. Às vezes chega um menino dizendo que quer uma tatuagem no braço, por exemplo, e eu digo para pensar melhor sobre o lugar do desenho porque isso pode não ser bem visto dependendo do emprego ou da empresa que você pode procurar depois.


JC – Ainda existe preconceito contra pessoas tatuadas?


Binho – Infelizmente, sim. Embora eu não me importe com ele, eu noto o preconceito. Até mesmo quando você entra em uma loja, muitas vezes as pessoas não te dão muita atenção por acharem que você está lá somente por estar, que não vai levar nada... Há quem ainda se apegue naquela velha história de que quem tem tatuagem é bandido. Por outro lado, isso está mudando e já é possível notar essa mudança de mentalidade sobre a tatuagem de qualidade, as pessoas conseguem notar a diferença. Tatuagem é uma arte cara e hoje está muito presente na mídia. Atletas, artistas... Todos aparecem tatuados nas revistas e TV. Inclusive é comum vermos tatuadores famosos tatuando na televisão.


JC – Você também nota essa mudança no cotidiano do seu trabalho?


Binho – Com certeza. Antes só o pessoal mais voltado para o rock ou reggae fazia tatuagens, mas hoje todos querem um desenho bem feito no corpo. Há pouco tempo, por exemplo, eu tatuei um senhor de 85 anos. Ele fez uma fênix tribal no peito para esconder o nome da ex-mulher que ele tinha desde os 17 anos de idade.  

 


 

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