Tribuna do Leitor

Mulher, mãe, amor sem fim


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No início, não havia necessidade da divisão de trabalho. As tribos eram nômades e iam se adaptando de acordo com as necessidades. Porém, a prole foi crescendo e ficando difícil a mulher acompanhar as caminhadas. Fixam-se num lugar e, enquanto esperam o homem trazer os víveres da caça e pesca, criam os filhos, arrumam o local e, aos poucos, há uma divisão natural das tarefas. A sociedade se desenvolve dentro de uma dimensão matriarcal. Na sociedade primitiva, em que não havia o matrimônio institucionalizado, só se sabia que era "filho da mãe", tudo girando em torno da figura feminina. Também, por isso, muita divindade primitiva tinha a caracterização da mulher; malignas ou benfeitoras. Nas histórias infantis, as mulheres foram divididas entre fadas e bruxas.

Na religião hebraica, berço da religião cristã, a mulher exerceu um papel significativo. O autor bíblico quando a colocou como causa do pecado de Adão, não a desamparou. Ela é formada do lado do marido. O osso não foi tirado da cabeça, para que ela não mandasse nele. Também não foi tirado do pé para não ser esmagada pelo companheiro. Foi tirada da costela. O lado do coração.

A Sagrada Escritura, narra, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, em que ela foi causa, não somente do pecado ou de queda, mas também e principalmente de salvação. Várias figuras femininas constam do cânone como exemplos nas virtudes e no testemunho. No entanto, nada poderia dignificar mais a mulher do que ser a Mãe do Filho de Deus. Maria, que ainda assuntou aos céus triunfalmente com seu corpo imaculado. Isso lhe deu vários títulos carinhosos, que engrandecem sempre mais o ser mulher.

Sem dúvida, a Mãe Maria fez a diferença nesse título, que ainda hoje é um dos mais festejados, sendo a segunda data civil ou religiosa comemorada. Ao longo da história universal, a mulher teve papéis diferenciados. A mulher que passou de Amélia para a tigresa nunca, em qualquer qualificação, positiva ou negativa, significou tanto quanto a dimensão mãe. Ainda hoje, supõe-se que parte dos problemas familiares é decorrente do trabalho exaustivo da mulher, dentro e fora do lar, deixando, mesmo sem querer, a tarefa materna para planos inferiores.

Principalmente nesta modernidade em que ela saiu para a luta, inclusive algumas se tornaram arrimo de família, o papel materno é exercido também pela doméstica do lar, pela "tia" da escola, pela TV ou mesmo pela rua. Algumas crianças ainda recebem educação de avós ou parentes mais próximos, é o amor de mãe em várias necessidades. Muitos adultos crescem, não se lembrando do colo, do carinho e do afago do anjo divino e humano. Alguns se tornam até rebeldes ou revoltados por não "terem mamado suficientemente". A mulher, em busca da libertação, para ter a sua independência ou ajudar as necessidades da família, acabou perdendo o contato com os filhos. Muitas se surpreendem que seus rebentos crescem e elas não os conhece. Muitos sofrem na sociedade e, por não terem mais o colinho materno, tornam-se violentos. Não tiveram quem lhes assoprassem os machucadinhos.

A mãe aos poucos perde seu valor. Já cantada erroneamente como a "suja e a megera", com o "avental todo sujo de ovo e o chinelo na mão". Não se faz mais poesias e músicas para as mães. As mulheres frutas dominam o cenário com seus corpos esculturados para vender. O símbolo da mãe, com a barriga grande para dar a luz ou amamentando, está sendo substituído por figuras anoréxicas ou postiças. A mulher, cujo desejo essencial era a maternidade, hoje é uma das últimas opções. Algumas até, quando não fazem produção independente, usam sua barriga para aluguel. Hoje, o amor de mãe deixa de ser tão significativo que algumas descartam sua cria por diversos motivos, principalmente pelo medo de se assumirem como mãe.

O gerar não mudou. A mãe não mudou. O que mudou foi o valor. Se quisermos uma sociedade mais justa e fraterna, uma sociedade de homens e mulheres mais felizes, devemos colocar as mães no seu devido lugar: no coração, onde gera o amor. E o amor de mãe é como o amor de Deus, é um amor incondicional, que ama sem fim. Há esperanças! E "a esperança não decepciona" (Rm 5,5).

Diácono José Rafael Mazzoni - professor e mestre da Universidade Sagrado Coração

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