Qual o modelo da maternidade atual? É uma boa reflexão para um dia especial como hoje, quando se comemora o Dia das Mães. A psicóloga infantil Marly Bighetti, de Bauru, vivencia diariamente dezenas de conflitos dessa nova geração. Entre outras coisas, ela ressalta que o maior problema na educação, hoje, é conciliar tantas tarefas com a educação dos filhos. Mas tranquiliza as mamães ressaltando que a qualidade da relação é o mais importante, e isso pode ser conseguido com afeto e dedicação.
Leia os principais trechos da entrevista:
Ser - A mulher de hoje se prepara para assumir grandes cargos, ter o controle sobre a sua vida, mas como ela tem se preparado para o papel de mãe?
Marly Bighetti - Acredito que a mulher que se prepara para sua vida profissional também é aquela que quando decide ter um filho, já pensou muito no que pode significar a maternidade. A maturidade também é um fator a ser considerado.
Ser - Em qual posição ela encaixa o filho?
Marly - Creio que o filho tem uma posição de destaque em sua vida. As mulheres mais maduras e que têm uma estabilidade profissional, quando decidem ter um filho, o fazem geralmente com preparo.
Ser - Qual o maior problema das mães de hoje?
Marly - O maior problema parece ser o tempo. É difícil dividir o carinho, a atenção maternal com dedicação ao trabalho. Mas, aquelas que se preparam para este momento, administram tranquilamente.
Ser - E a maior virtude?
Marly - A virtude é a realização da maternidade, a tranquilidade com que consegue administrar tudo isto.
Ser - Do que uma criança precisa para se desenvolver de forma saudável, tanto física quanto psicologicamente?
Marly - Para um bom desenvolvimento, uma criança precisa de carinho, atenção, afeto, amor e firmeza.
Ser - Como a mulher de hoje pode ser uma boa mãe estando ausente de casa durante todo o dia?
Marly - Se a mulher consegue cumprir com dedicação seu trabalho fora de casa, ela também é capaz de oferecer um tempo que, embora seja pequeno, tenha qualidade. É possível transformar alguns minutos em tempo intenso de atenção. Todos nós precisamos de um espaço para exercitar nossa independência e eu posso perfeitamente me fazer presente mesmo quando estou ausente fisicamente. O que conta é a intensidade com que eu vivo minha relação com o outro, e este outro no caso é meu filho.
Ser - Essa ausência é muito sentida pelos filhos?
Marly - Com certeza, a ausência física é sentida pelo filho, principalmente quando está na primeira infância, onde o concreto conta muito. Mas, na medida em que a criança vai crescendo, ela entende a ausência física, quando isto é tratado de maneira natural. Como afirmei anteriormente, a intensidade com que vivemos a relação mãe/filho é que vai deixar a criança mais confortável para passar pela ausência física da mãe. O importante é a criança ter a certeza que pode contar com a mãe em qualquer situação, esteja ela onde estiver. Ela passa a compreender que não é porque a mãe está no trabalho que não gosta dela ou que não se lembra dela. Mas, o entendimento tem que ser recíproco.
Ser - Como você define "qualidade de tempo"?
Marly - A qualidade do tempo pode ser vista nos momentos de acompanhamento das tarefas (nem sempre é necessário que a mãe esteja presente quando o filho a realiza), na tranquilidade ao conduzi-lo para a higiene bucal e corporal, no hábito de estabelecer um horário para contar estórias ou conversas sobre os acontecimentos do dia (pode ser na hora de dormir), sentir o quanto é importante e gostoso estar junto com filho e, por último, vivenciar sem "culpa" esses momentos. Também é possível aproveitar os finais de semana para fazer programas de lazer, ir ao cinema, ao zoológico, participar efetivamente desses programas. Isso faz toda a diferença.
Ser - Existem estudos comprovando que a ausência dos pais traz prejuízo para o desenvolvimento da criança?
Marly - Sim, existem pesquisas atuais que tratam deste tema: tempo de convivência com filho, qualidade x quantidade. Mas o que percebemos, na maioria delas, é que a convivência é importante. Tanto o tempo grande quanto o pequeno são importantes quando se leva em conta a intensidade e qualidade da relação.
Ser - Em alguns casos, percebemos que os pais têm deixado para a escola a função de socialização primária e educação (em sua forma mais ampla). O que isso acarreta de problemas para a criança?
Marly - É valioso que os pais tenham claro seu papel na formação do filho. Se os pais realizam aquilo que é o seu dever, a escola com certeza poderá desenvolver cada vez melhor seu verdadeiro papel que é a formação acadêmica do ser humano (criança ou não). Cabe aos pais educar e à escola formar o indivíduo em sua vida acadêmica (prepará-lo para a vida e mercado profissional). A socialização primária, noção básica de cidadania e os princípios básicos de desenvolvimento são de responsabilidade dos pais. Já o aprendizado acadêmico e as relações sociais cabem à escola. A criança tem muito a perder quando se cobra da escola aquilo que inicialmente seria papel dos pais. Porém, quando cada um desempenha bem seu papel, a criança se torna mais segura e tranquila.
Ser - Você acredita que essa geração criada dentro desse ambiente de pressa e falta de tempo tende a ser mais ansiosa?
Marly - A ansiedade que observamos na criança pode ter origem na pressa, na falta de tempo dos adultos e também nos diversos estímulos que temos hoje graças à tecnologia avançada, que traz tudo imediatamente, sem que se gaste tempo com pesquisa.
Ser - Por que os pais têm tanta dificuldade em colocar limites?
Marly - Muitas vezes, a colocação de limite está diretamente ligada à falta de conhecimento dos papéis que os pais desenvolvem na relação com os filhos, para se colocar limites, temos que ser firmes e práticos.
Ser - Palmadas e chineladas ainda são meios utilizados na educação dos filhos hoje em dia?
Marly - O uso das chineladas e dos tapas já passou, mas ainda temos pais que utilizam essa forma de correção. Creio que, na maioria das vezes, é por falta de controle de suas próprias emoções, bem como modelos anteriores de correção a que foram submetidos. O que posso afirmar é que temos outros meios para resolver problemas. O tapa e a chinelada só interrompem a ação mas, geralmente não resolvem o problema.
Ser - Qual o impacto disso na criança?
Marly - A criança pode repetir com os colegas aquilo que recebeu, mas creio que a firmeza é muito melhor como recurso educacional.
Ser - Você acredita que exista um conflito de autoridade generalizado - não só dentro de casa, como na sociedade como um todo?
Marly - Parece que o respeito a si mesmo e a hierarquia familiar está desaparecendo em todos os setores e, assim, fica cada vez mais difícil os adultos entenderem os limites. Eles acham que colocar limites na criança não é o mais importante e é aí que o caos se instala.