Os dois se formaram na mesma turma! Os sonhos fervilhavam: vamos mudar o mundo! Frequentaram a mesma residência, os mesmos estágios. Só faltava trabalharem na mesma cidade, mas eram apenas amigos e não gêmeos siameses: a vida impôs uma separação. Cada um foi para cidades distintas.
As cidades escolhidas eram semelhantes com população pequena e mesmo nível social e econômico. A mortalidade infantil era alta, especialmente nos primeiros seis meses de vida. O governo estava interessado em esclarecer e resolver este problema, mas não havia jeito de reduzir estas mortes de recém-nascidos.
Leonardo se instalou-se no hotel e logo começou seu trabalho no posto de atendimento médico. Na primeira semana preocupou-se em arrumar a casa, entender a logística e funcionamento da cidade. Jovem bonito, os comentários eram os esperados: partidão e as meninas esperançosas deixavam os garotos nativos ciumentos.
Logos nos primeiros dias, Leonardo percebeu porque muitos bebes morriam: havia um hábito nocivo na população de mães! O bebes chegavam enfaixados e no local do cordão umbilical cortado se colocava pó de café coado com açúcar logo após o banho, pois se acreditava ser cicatrizante. Foram gerações e gerações que receberam este “ensinamento” e todas as mães faziam, mesmo as mais diferenciadas.
Leonardo se escandalizou! A cada criança com curativo, falava diretamente às mães que estava errado, que na verdade o café coado e o açúcar faziam mal e não bem! Que o café era sujo e o açúcar portador de químicos. Que as bactérias aproveitavam e aí se alojavam no corpinho dos bebês! Enfim, Leonardo indignado passava aquele sermão às mães. Sua voz era imponente e grave, até metia medo e respeito. O tempo foi passando e a novidade do médico recém chegado foi se diluindo, a rotina no posto voltou ao normal. O café e açúcar, continuaram.
A mudança!
Francisco, o outro médico, ao chegar na outra cidade procurou saber qual era a melhor pensão e lá foi muito bem recebido por D. Teresa, suas duas filhas e o marido. Só depois de três meses arrumou uma casa e para lá se mudou com a ajuda de todos. Muitos se lamentaram, poderia ficar por lá indefinidamente, todos gostavam dele.
Nos primeiros dias, Francisco também percebeu porque os bebês morriam: as mães colocavam café coado e açúcar no local do cordão umbilical. Depois que as mães mostravam o que estava debaixo das faixas nas barrigas dos recém nascidos, Francisco perguntava: como vocês fazem isto? Como preparam o café? De onde pegam o açúcar? Como vocês acomodam a faixa? Quantas vezes fazem isto por dia? Depois das respostas, pacientemente Francisco perguntava: vocês me ensinam a fazer isto?
Assim, duas ou três mães todos os dias levavam café e açúcar ao posto médico para ensinar Francisco como fazer os tais curativos. E ele assistia e de tudo participava, preparando o café, passando o açúcar e enfaixando as crianças. Depois de dois meses, quando a prática do novo médico se esparramou por entre as mães da cidade, Francisco as convidava para conhecer uma novidade recém chegada ao posto: uma pomada cicatrizante, a mais simples do mercado nas metrópoles.
Ele pedia permissão às mães para demonstrar uma outra forma de tratar o cordão umbilical cortado dos bebes e que poderia ser útil. Com o maior carinho desenfaixava as crianças e junto com as mães limpava sua pele e aplicava o unguento remédio. Na segunda vez, deixava a mãe fazer o curativo na frente dele! E assim elas foram experimentando e gostando. Seis meses depois ninguém mais usava o café coado e o açúcar, apenas a pomada do Dr. Francisco.
Os dados na secretaria da saúde e ministério em dois anos retrataram duas realidades: em uma das cidades a mortalidade infantil continuava alta, mas na cidade de Francisco caiu assustadoramente, quase a zero. Os técnicos queriam saber porque?
Ele se inseriu na realidade, entrou no âmago do problema, tornou-se parte dele, passou a ser mais um membro da comunidade e assim foi aceito por ela e não encarado como um estranho a ela, um invasor, um violentador da realidade alheia. Ao contrário de Leonardo, Francisco respeitou para ser respeitado. Fez parte da realidade, para depois procurar mudá-la; e conseguiu!
Não adianta gritar, espernear e denunciar uma tal realidade se você não se faz parte dela. Pode ser no hospital, igreja, empresa ou escola. Se quiser mudar e melhorar a realidade, se insira nela, verdadeiramente faça parte dela; aí, conseguirás! Francisco foi mais inteligente.
Reflitamos!