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Mastectomia preventiva gera polêmica

Da Redação com Agências
| Tempo de leitura: 7 min

A atriz norte-americana Angelina Jolie, de 37 anos, realizou uma mastectomia dupla, que consiste na retirada total das duas glândulas mamárias com preservação da pele. Mas se engana quem pensa que a atriz está com câncer de mama. A cirurgia foi uma forma de prevenção, já que sua mãe lutou contra a doença por uma década, mas morreu aos 56 anos. Jolie descobriu que seu risco de desenvolver a doença era alto (87%) através de um exame e resolveu cortar o mal pela raiz.

O mastologista do Instituto de Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Marcos Desidério Ricci, explica que antes desse exame feito pela atriz, que indica com precisão o risco da paciente, é necessário preencher uma espécie de questionário inicial.

Se o risco for alto, aí a paciente é submetida ao mesmo exame que Angelina. “No Brasil não existe esta política pública que permite fazer o exame caso o resultado do questionário inicial aponte risco elevado, igual existe no exterior. Aqui o exame feito pela Angelina Jolie é caro, podendo chegar à faixa dos R$ 15 mil”.

O mastologista ainda ressalta que todo o câncer de mama parte de uma mutação do gene, mas que nem sempre isso é um fator hereditário. Além disso, existem mulheres que não nascem com a mutação genética, mas a desenvolvem por conta de fatores externos. “Cerca de 10% dos casos de câncer de mama são de mulheres que possuem a mutação, e os outros 90 são as que a desenvolvem ao longo da vida”, conta o médico.

Ainda segundo o mastologista, hoje em dia, no Brasil, a maioria dos médicos só realiza a mastectomia em quem está com câncer de mama e possui a mutação genética. Nos casos em que não há mutação genética, mas um risco elevado, o tratamento pode ser feito através de remédios que diminuem este risco. “Mesmo realizando a mastectomia, o risco de desenvolver o câncer de mama ainda existe, de 10% a 15%”, finaliza.

Radical

Uma mulher de 72 anos que vive em São Paulo e tem parentes em Bauru foi tão corajosa quanto a atriz Angelina Jolie e também se submeteu a uma dupla mastectomia, há cerca de cinco anos.

Na ocasião, ela (que pediu para ter o nome preservado) acabara de tratar um câncer numa das mamas que, por sorte, estava encapsulado. Por essa razão, além de retirar o tumor, foi submetida à radioterapia. Posteriormente, durante o acompanhamento, foram diagnosticadas calcificações no outro seio, que preocuparam o mastologista.

Diante do quadro e do histórico familiar – mãe e pai acometidos pela doença –, ela própria sugeriu ao médico a retirada das mamas, procedimento realizado na Capital. Inicialmente, ele ficou receoso, mas depois concordou.

“A cirurgia foi grande e o pós-operatório, dolorido”, comenta. Após aproximadamente quatro meses, as próteses foram colocadas. No caso dela, os mamilos também foram preservados. Atualmente, ela está bem, embora ainda fale com dificuldade sobre o período.

SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) realiza a mastectomia para quem está com câncer de mama, e não a caráter preventivo como fez Angelina Jolie.

Segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, no ano passado foram realizadas 112 mastectomias pelo SUS na região de Bauru e quase 3 mil no Estado de São Paulo.


Mamografia deve ser feita a cada dois anos

Retirar as mamas, como fez Angelina Jolie, é apenas uma das formas de se lidar com o fato de ter um risco aumentado para desenvolver tumores de mama e de ovário. Mulheres nessa situação podem optar pelo rastreamento mais frequente para o câncer de mama, intercalando a cada seis meses exames de mamografia e ressonância magnética.

Podem ainda começar os exames preventivos mais cedo do que o habitual - a partir dos 25 anos, por exemplo. Para a população feminina em geral, a recomendação é de mamografia a cada dois anos, a partir dos 50 anos. Também é possível optar pela quimioterapia preventiva, com a droga tamoxifeno.

Cada caso é um caso, dizem os médicos. “É importante que as mulheres tenham pleno conhecimento de todas as opções que estão disponíveis. A mastectomia preventiva foi a escolha de Angelina Jolie, mas pode não ser o caso de uma outra mulher em situação similar”, afirma o médico Richard Francis, chefe de pesquisa do instituto inglês Breakthrough Breast Cancer.

Segundo a médica Maria Isabel Achatz, diretora de oncogenética do Hospital AC Camargo, para as mulheres portadoras de mutação dos genes BRCA1 e BRCA2, a retirada dos ovários e das trompas é ainda mais prioritária do que a das mamas. Isso porque não há exames preventivos eficazes para diagnosticar precocemente tumores nessa região. “Em geral, os tumores de ovário são descobertos em estágios avançados e o desfecho é ruim”, diz ela.

A médica afirma que, nos casos de mulheres que já tiveram lesões malignas nas mamas e que carregam a mutação, a mastectomia preventiva é claramente indicada.

A cirurgia, porém, não é isenta de riscos e os resultados podem não ser tão bons porque a retirada de tecido mamário e de gordura é muito maior do que numa colocação de próteses de silicone só para fins estéticos.

Quando se deixa a aréola, o mamilo e algum tecido (é sempre impossível remover tudo) também sobra um risco residual (de 5%) de o tumor se desenvolver. Mulheres com essa mutação genética também têm risco aumentado para outros tipos de câncer. Para o tumor de pâncreas, por exemplo, o risco é de 10%.

“Homens também carregam essas mutações, podem desenvolver câncer de pâncreas e de próstata e passar genes mutantes para os filhos, assim como as mulheres”, reforça Richard Francis.


Inspiração

A atriz Angelina Jolie, 37, se submeteu a uma dupla mastectomia para reduzir os riscos de desenvolver câncer de mama e espera que seu caso inspire outras mulheres que enfrentam a doença. Nove semanas depois, uma cirurgia final reconstruiu os seios da atriz com um implante. De acordo com Jolie, o resultado foi “belo”.

Em artigo publicado ontem pelo “The New York Times”, Jolie disse que a operação lhe permite afirmar com mais certeza aos seus seis filhos que ela não irá morrer jovem por causa da doença, como aconteceu com sua mãe, vitimada por um câncer aos 56 anos.

“Sempre falamos da ‘mamãe da mamãe’, e eu me vejo tentando explicar a doença que a levou de nós. Eles perguntaram se o mesmo pode me acontecer”, escreveu Jolie. “Eu sempre disse a eles para não se preocuparem, mas a verdade é que carrego um gene ‘defeituoso’.”

A premiada atriz disse que seus médicos estimaram em 87% o risco de ela desenvolver câncer de mama, e em 50% o risco de câncer de ovário.

“Quando soube que essa era a minha realidade, decidi ser proativa e minimizar o risco o tanto quanto eu pudesse. Tomei a decisão de fazer uma dupla mastectomia preventiva”, afirmou.

Seu companheiro, o também ator Brad Pitt, ficou ao lado de Jolie durante os três meses de tratamento, encerrados no final de abril, disse ela. O casal ficou noivo no ano passado.

Jolie disse que, agora que o tratamento terminou, resolveu vir a público para conscientizar outras mulheres que possam “estar vivendo à sombra do câncer”.”É minha esperança de que elas também possam ter seus genes examinados”, disse Jolie, conhecida por seu engajamento em causas humanitárias.


Mais de 450 mil mortes/ano

O câncer de mama mata cerca de 458 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que 1 em cada 300 a 500 mulheres porte uma mutação genética BRCA 1 ou BRCA 2, como Jolie. A decisão dela foi elogiada por pacientes de câncer de mama e entidades que lidam com o assunto.

Richard Francis, diretor de pesquisas da ONG britânica Breakthrough Breast Cancer, disse que o fato demonstra a importância de educar mulheres com o gene defeituoso. “Para mulheres como Angelina, é importante que elas sejam plenamente conscientizadas de todas as opções disponíveis, incluindo a cirurgia para a redução de riscos e exames mamários adicionais”, disse Francis.

 

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