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Um brinde ao futuro

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

O início de 2004 testemunhou um acordo pouco noticiado entre a Turquia e Israel que vai direto ao cerne do que virá a ser para a humanidade um problema bem mais imediato, grave e ameaçador do que o aquecimento global. O acordo entre os dois países estabelece que Israel envie armas para a Turquia em troca de água doce, a ser entregue por barco em portos israelitas no leste do Mediterrâneo. Sem que o mundo se aperceba, a Turquia já entregou água em grande quantidade a Chipre e tem planos para vender a Malta, a Creta e a Jordânia.

Israel tem hoje capacidade para reutilizar 75% da água residual coletada, muito à frente do país que aparece em segundo lugar, a Espanha, com 12% de reaproveitamento. Uma das raras iniciativas brasileiras de reuso da água acontece em São Caetano do Sul. Lá todo o serviço de rega de jardins, lavagens de ruas e calçadas, desentupimento de bueiros, entre outros, é feito com água não potável liberada pelo esgoto tratado. No Rio de Janeiro, uma parceria entre a Petrobras e a Companhia de Águas e Esgotos (Cedae) prevê o transporte de todo o esgoto tratado para o novo complexo petroquímico em Itaboraí. Pelas contas da Petrobras, é muito mais econômico comprar a água de reuso - para o resfriamento de máquinas e equipamentos ? do que água potável. A irrigação por gotejamento, ainda insipiente no Brasil, nasceu em Israel e não para de evoluir. Ao contrário da irrigação por inundação que desperdiça muita água e da aspersão que consome muita energia, o gotejamento é eficiente e utiliza a água estritamente requerida pela planta.

Em toda Europa, principalmente na Alemanha, Inglaterra, França e Itália, toda a antiga infraestrutura de distribuição de água em metal, está sendo retirada para a colocação de dutos e dispositivos de controle em polietileno. O motivo para o uso do polietileno é sua capacidade em evitar perdas por vazamentos causados por corrosão ou erosão. O programa ambiental das Nações Unidas fez projeções sobre a escassez de água no mundo a partir de 2025. Segundo esses estudos cerca de dois bilhões de pessoas não terão água suficiente para manter a lavoura irrigada e, ao mesmo tempo, não poderão contar com ela para as necessidades domésticas. Para suprir estas necessidades, a água terá de ser tirada da agricultura, o que, por sua vez, conduz a outra necessidade: a importação de alimentos. A história sobre a disponibilidade de água doce nas próximas décadas, caso as atuais estimativas sobre o crescimento populacional se mantenham, é realmente muito sinistra.

Uma boa forma de tornar compreensível esta questão do consumo é examinar a chamada água virtual contida em praticamente todos os alimentos que ingerimos. Esse conceito foi introduzido em 1993 pelo pesquisador inglês Tony Allan (1949 ? 2004) para medir a água inserida na produção e comercialização de comida e bens de consumo. Allan defendeu que as pessoas não consomem água apenas quando saciam sua sede ou quando tomam banho. Segundo esse pesquisador, uma tonelada de trigo contém 1200 metros cúbicos de água virtual, enquanto uma tonelada de arroz tem 2700 metros cúbicos, mais que o dobro. No setor siderúrgico, por exemplo, para cada tonelada de aço produzida são necessários 15 mil litros de água. Allan ainda demonstrou que há cerca de 140 litros de água por detrás da xícara de café que bebemos toda manhã; que 2400 litros de água são consumidos na produção de um hambúrguer e que colossais 22 mil litros estão escondidos naquele quilo de bife grelhado que colocamos na mesa num almoço de domingo. A carne bovina é verdadeira assassina da água; ela contém quase três vezes mais água virtual por volume do que a carne de porco e quase cinco vezes mais do que a de frango. É essa água virtual que garante o bom desempenho do Brasil na balança comercial. Nenhum recorde nas exportações de grãos, de carne e de aço seria possível sem que houvesse muita disponibilidade de água no país.

Mas a disponibilidade de água fresca e potável está sendo comprometida pela poluição e pela falta de saneamento. Neste quesito ostentamos indicadores medievais e isto custo caro ao Brasil: faz crescer absurdamente a quantidade de produtos usados no tratamento da água; gera prejuízos para a indústria, o turismo, a pesca e consome enormes recursos da saúde pública.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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