Pedro França/Agência Senado |
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Senadores aprovam MP 595 (dos Portos), que estabelece novo marco regulatório para o setor; oposição vai ao STF |
Depois de mais de 48 horas de discussões e embates no Congresso, o governo conseguiu aprovar ontem a medida provisória que amplia a abertura dos portos à iniciativa privada e aumenta a competição no setor.
A votação final no Senado ocorreu menos de cinco horas antes do prazo em que a MP perderia a validade caso não fosse aprovada.
No processo de negociação com os congressistas que resistiam projeto - notadamente deputados do PMDB -, o governo acertou a liberação R$ 1 bilhão para atender as emendas parlamentares, prometeu cargos federais e pediu que sua tropa de choque atropelasse os prazos normais de discussão e votação.
Além disso, o governo teve que ceder e aceitar alterações do PMDB, que é o principal aliado da presidente Dilma Rousseff no Congresso.
A medida gerou uma disputa entre operadores de portos públicos, como Santos Brasil e Libra, e grupos empresariais interessados em portos privados, como o de Eike Batista e o da Odebrecht.
O governo alega que a medida é necessária para reduzir custos portuários e aumentar os investimentos no setor. A previsão oficial é que a MP irá gerar R$ 54 bilhões de investimentos até 2017.
Ontem mesmo a oposição ingressou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação da votação. A decisão será tomada pelo ministro Celso de Mello.
2º tempo
Após a medida ter sido aprovada pela Câmara em uma sessão que durou 23 horas - a mais longa desde pelo menos 91 - e só terminou na manhã de ontem, o Senado começou a votá-la. Depois de oito horas, a MP passou por 53 votos contra sete.
Senadores de partidos da oposição, como Jayme Campos (DEM-MT) e Paulo Bauer (PSDB-SC), votaram a favor da MP. Aécio Neves (PSDB-MG), potencial candidato tucano à Presidência, fez críticas ao processo de votação, mas deixou o plenário sem registrar seu voto. O PSDB defende a privatização dos portos no Brasil.
Para aprovar a medida antes que ela caducasse, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que faria “de tudo” para atender à vontade do Planalto. Há alguns dias, Dilma fez um apelo público para que o Congresso votasse a proposta.
Durante a sessão, Renan chegou a pedir desculpas e anunciou que essa será a última vez que os senadores vão votar MPs sem o intervalo de sete dias entre a aprovação na Câmara. “O Senado não vai concordar mais com a continuidade dessa aberração institucional. Isso apequena o Senado”, afirmou.
Mesmo assim, foi duramente criticado por parlamentares, que classificaram a votação de “estupro” das funções da Casa.
“Isto aqui não pode ser uma fábrica de salsichas, que é acionada por um botão instalado no gabinete não sei de quem”, disse o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).
Por várias vezes Renan impediu que opositores tivessem a palavra e derrubou os pedidos de mudanças.
Aécio pediu para Renan “honrar sua biografia”. “Fomos eleitos não para dizer amém à presidente. Não tive temor com o ex-presidente FHC. Que temor é esse que a presidente impõe aos seus pares, à base aliada? O absolutismo nos deixou há muito tempo”, disse Aécio.
Principais efeitos
PORTOS PÚBLICOS
Atualmente: Os portos administrados pelo governo federal e pelos Estados são operados por empresas privadas. Elas pagam aluguel pelo uso dos terminais que operam e podem movimentar cargas de qualquer empresa
O que muda: Os contratos em vigor poderão ser renovados por 25 anos se as empresas fizerem investimentos. Nas licitações para novos terminais, serão escolhidos os operadores que oferecerem menores tarifas e maior capacidade de movimentação de carga
PORTOS PRIVADOS
Atualmente:Muitas empresas são autorizadas pelo governo a operar terminais próprios fora dos portos públicos. Em geral, só podem movimentar carga própria. Em alguns casos, podem transportar carga de outras empresas
O que muda:O projeto aprovado pela Câmara acaba com essa distinção. Os operadores desses terminais ficaram livres para movimentar carga de qualquer empresa, o que poderá atrair negócios hoje feitos nos portos públicos
REGIME DE TRABALHO
Atualmente:Terminais em portos públicos são obrigados a contratar trabalhadores de um órgão público chamado Ogmo (Órgão Gestor de Mão de Obra), o que aumenta seus custos. Portos privados podem contratar quem eles quiserem
O que muda:A Câmara ampliou o número de categorias de trabalhadores que têm sua contratação administrada pelo Ogmo nos portos públicos. Portos privados continuarão livres para contratar fora desse sistema
CONTRATOS ANTIGOS
Atualmente: Muitos terminais em portos públicos são operados por empresas contratadas antes da atual Lei dos Portos, que é de 1993. Esses contratos nunca foram enquadrados nas novas regras, mas continuam em vigor
O que muda:A proposta original do governo era contratar novas empresas para operar esses terminais, mas o projeto aprovado pela Câmara permite que esses contratos sejam renovados por mais 20 anos
PAPEL DOS ESTADOS
Atualmente:Empresas controladas por governos estaduais administram vários portos públicos e são responsáveis pelas licitações que escolhem as empresas encarregadas da operação de seus terminais
O que muda:O governo federal queria assumir o controle dessas licitações, mas recuou. Empresas estaduais poderão continuar à frente da escolha dos operadores, se forem autorizadas pelo governo
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