Política

Descentralização é sonho urbanista

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Uma Bauru com bairros independentes do Centro e qualificados do ponto de vista de planejamento urbano para desafogar a região central, asfixiada durante o dia e esvaziada à noite. Estas propostas foram discutidas durante a última semana na Oficina de Capacitação sobre o Estatuto da Cidade, preparatória para a 5ª Conferência da Cidade de Bauru, promovida nesta sexta-feira e sábado.

Alguns bairros já possuem lugares com características de região central, com comércio e serviços bastante efervescentes e referências para os moradores. Contudo, aspectos como mobilidade urbana, aparelhos públicos creche, escola, unidades de saúde, bibliotecas estão aquém e desqualificam o bairro.

O esgotamento do fluxo de pessoas convergindo todas necessariamente para o Centro da cidade, seja para usufruir dos equipamentos ou passando pela região central, fez coro entre os participantes da Oficina de Capacitação, promovida pelo Centro de Pesquisa sobre Cidades da Unesp de Bauru (CP-Cidades).

O coordenador do CP-Cidades o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Unesp-Bauru José Xaides de Sampaio Alves provocou a discussão, já na terça-feira passada, ao fazer um balanço crítico das condições de desenvolvimento urbano do município após uma década do Bauru+10 Construindo o Futuro. Em 2003, o Bauru+10 apresentou uma radiografia profunda e apontou metas para o desenvolvimento da cidade em diversas áreas, inclusive no planejamento urbano. Bauru possuía cerca de 315 mil habitantes. Pouca coisa mudou passados 10 anos e com acréscimo de 44.429 mil pessoas a população atual é estimada em 359.429 habitantes, conforme dado divulgado no site da prefeitura com base no estudo do IBGE de 2009.

Na apresentação do balanço crítico do Bauru+10, o tema da descentralização recebeu a seguinte avaliação há 10 anos: Cidade sem Planejamento de novas centralidades. O crescimento especulativo prioritário através da venda de lotes para habitação, sem propostas de áreas geradoras de emprego, de indústria, de comércios, de serviços, de equipamentos públicos, de áreas de lazer etc, tem desqualificado a vida das pessoas que ficam muito dependentes da zona central e sul da cidade, apesar das grandes distâncias e problemas econômicos e sociais derivados. Tendência de acirramento dos problemas sociais e econômicos. Necessidade de clareza e mudança dos conceitos urbanísticos, valorizando a formação de novas centralidades que qualifiquem a vida das pessoas nos bairros.

 

Novas centralidades

Xaides coordenou o grupo de Planejamento Urbano do Bauru+10 junto com o arquiteto Ricardo de Angelis, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Regional Bauru. Ele defende, em entrevista ao JC, novas centralidades para Bauru.

O arquiteto entende que a cidade precisa criar a descentralização por meio de operações urbanas que incentivem o comércio, serviços, a verticalização, a habitação social prevendo-se condições de mobilidade urbana, equipamentos públicos, áreas verdes e proteção ambiental, dentro de um sistema integrando bairro a bairro. 

Para a integração interbairros, o arquiteto prevê a implementação de anéis viários ou multianéis viários para que o trânsito não passe pelo centro de Bauru, como ocorre atualmente. Xaides acrescenta que essa intervenção urbana tem a perspectiva de longo prazo e também a partir de uma revisão do Plano Diretor Participativo.

O arquiteto salienta que esse novo arranjo urbano vai na contramão da situação urbana atual em que a lógica do transporte urbano é retirar as pessoas da periferia para o centro e para a região do Altos da Cidade ao invés de desenvolver os bairros. Xaides cita que as pessoas são muito dependentes desse sistema de transporte público, o que gera conflito de trânsito para o Centro. 

 

 

Minimizar transporte

 

Xaides entende que o sistema de transporte precisa ser pensado para ser minimizado. Como exemplo ele aponta a região da Nações Norte com características das novas centralidades. O arquiteto propõe que o mesmo processo deva ocorrer no Mary Dota, e nas regiões do Córrego da Grama, Água do Sobrado e no Água Cumprida (região sul).

Ele vê as áreas de novas centralidades como geradoras de novos empregos com o desenvolvimento dos setores de comércio, serviços e indústria e moradia popular. Criadas com acessos facilitados para locomoção a pé, de bicicleta (ciclovias) e ambientes agradáveis com parques, praças e áreas de lazer e aparelhos de saúde e educação. Para que as pessoas tenham um cotidiano sem muita dependência do transporte de carro ou mesmo de ônibus, frisa.

Nesta perspectiva de planejamento urbano, as pessoas acessariam a região central e equipamentos mais globais aos finais de semana. Sem perder a vitalidade que já tem, acrescenta.

Os representantes da Seplan, Emdurb, vereadores Paulo Eduardo e Natalino da Pousada, do Sindicato dos Engenheiros, da Assenag e representantes de organizações sociais delegados na na 5ª Conferência, estudantes, professores, representante do Instituto Vidágua, deliberaram o encaminhamento das propostas debatidas durante os dois dias para a 5ª Conferência da Cidade de Bauru, realizada anteontem e ontem. 

 

 

Morte noturna do Centro

 

O coordenador do CP-Cidades Bauru professor e arquiteto José Xaides de Sampaio Alves ressalta que se configura um processo denominado pelos arquitetos e urbanistas como morte noturna do centro na região do Centro de Bauru avançando para o centro expandido, com abrangência de Altos da Cidade e Higienópolis.

Xaides entende que ao invés da Câmara Municipal de Bauru aprovar novos corredores comerciais, deveria se incentivar o uso misto. O arquiteto sugere como desenho arquitetônico imóveis com prédios mais verticalizados, contando nos dois primeiros pavimentos com comércio e serviços e com moradias no restante. Xaides entende que esse processo de uso do espaço garantiria vitalidade à região central com pessoas residindo no Centro de Bauru. Ao contrário da expulsão do morador dessas regiões, pontua. 

 

 

 

 

 

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