A atriz Angelina Jolie, considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo foi o principal assunto da semana porque teve coragem (eu ia dizer "peito") de se submeter à retirada das mamas. Os médicos geneticistas descobriram que, sem esse tratamento radical Angelina poderia, no futuro, desenvolver câncer nos seios. A probabilidade de aparecer a doença que matou sua mãe aos 52 anos de idade era de 87%. Espantou o mundo saber que ela não tinha nenhuma lesão presente. E por se tratar de uma artista célebre, que vive da sua imagem. Estar com tudo em cima, ter uma pele lisa e os dentes brancos bem alinhados deve ser uma exigência básica para uma estrela de cinema. Os seus seios reconstruídos com as mais avançadas técnicas, certamente serão o alvo preferido dos fotógrafos a qualquer aparição em público. Mesmo com um decote discreto. Marketing como este, embora involuntário, vai aumentar os números financeiros dos seus contratos e também provocar uma reprodução do seu exemplo. A mama, além de um fetiche é símbolo da maternidade. Com o leite industrializado vendido com soda, ureia e água, sem o leite materno as crianças perdem a imunidade necessária para enfrentar o perigo que é viver. Tem quem faça uma forcinha para não amamentar o bebê com medo de o peito cair. Ou viva o pânico de desenvolver estrias na barriga. É o dilema do corpo. Quem sabe Angelina Jolie deixe uma mensagem que inspire as mulheres, nessas situações - saber a fronteira entre cuidado com o corpo e a futilidade. O melhor plano de saúde é viver. Felizmente, na maioria, mães são capazes de arrancar parte do corpo pelos filhos.
Os médicos há muito alertam a população para a estratégia da detecção precoce do câncer, mediante autoexame e mamografias de rotina. A estratégia agora, com o avanço da ciência é antecipar o aparecimento do câncer baseado numa probabilidade estatística. O ponto de partida é o da descrição do genoma humano e das vinculações da carga genética transmitida aos descendentes. Vale lembrar que Darwin montou a teoria da seleção natural sem sequer desconfiar da existência de genes. Na primeira metade do século passado, genética e evolução foram combinadas. O gene passou a ter primazia na luta pela sobrevivência graças a sua habilidade de produzir cópias de si mesmo. Os genes que você carrega em cada uma das suas células já estiveram presentes nos seus antepassados e serão transmitidas aos seus descendentes. Para o bem e para o mal. Somos robôs a serviço dos genes. O biólogo evolucionista inglês Richard Dawkins (O Gene Egoísta, 1976), do qual estou me valendo para estas notas, esclarece que temos poderes para controlar o nosso genoma. Sempre que usamos um método contraceptivo, por exemplo, contrariamos o desígnio único do gene: fazer cópias de si mesmo. A mastectomia é uma tentativa de enganar o gene. Mas o câncer pode aparecer em outro órgão.
O ser humano sempre viveu, conscientemente ou não, condicionado pela lei das probabilidades. Tem muito a ver com a teoria dos jogos que deu o prêmio Nobel a John Nash em 1994 (aquele do filme "Mente Brilhante"). Tanto pode ser utilizado na economia, em jogos de azar ou em qualquer outra ciência. Os biólogos o utilizam, como no caso da atriz, mediante fórmulas matemáticas. Foram elaboradas equações capazes de explicar os mecanismos da possibilidade dos genes que deram origem ao câncer na mãe de Angelina, nela se replicarem no futuro. No mesmo diagnóstico os médicos concluíram que a paciente tem outros 50% de chances de também desenvolver câncer no ovário. Resta saber por que ela não retirou ambos os ovários, já que o raciocínio é o mesmo. A pergunta que poderia ser feita, mais como provocação à reflexão é: "Onde fica Deus nisso tudo?" Estamos por conta do interesse do gene ? e não do indivíduo e muito menos do grupo ? que a seleção natural opera. Dawkins diz que "Deu é um delírio" e que "a fé religiosa é uma ilusão". Do que podemos morrer e o quanto vamos durar nesse mundo, quem sabe é a fração do DNA que carregamos. Nada nos difere, nesse mecanismo, de "insetos sociais", como as formigas. Só nos cabe orar por um gene misericordioso.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC