Tribuna do Leitor

Bangladesh é também aqui, sem tirar nem por


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Quem disse que o ocorrido lá na distante Bangladesh, quando um prédio ruiu e matou quase todos lá dentro, é exclusividade deles? Longe disso, pois a situação lá ocorrida tem suas ramificações mundo afora, inclusive aqui. Não escrevo só da situação da edificação em si, mas de outra, oculta pelas paredes e pouco divulgada pela mídia. A tragédia por si só já é uma excrecência, tal a forma como ocorreu. Um projeto a envolver um grande senhorio, que ali mantinha uma construção sendo ampliada, como se fosse uma simples colcha de retalhos, ao seu bel prazer, contando com a aquiescência do poder público local, para conseguir as liberações. O prédio apresentava sinais evidentes de deterioração estrutural, problemas na sua execução, mas nem foi cogitado de ser lacrado. Deu no que deu. Não suportou o peso de um andar sendo construído em cima de outros cinco e mais outro já estava no prelo. Tudo devidamente autorizado pelas autoridades locais. Já não vimos esse filme? A Boate Kiss aqui para nós é só a ponta de um imenso iceberg.

O prédio não contava somente com investimento local, pois por detrás de tudo algumas marcas mundialmente famosas, todas de certa forma lucrando em cima do que lá ocorria. Cito o Wal Mart, Benetton, C&A, Primark, Joe Fresch, El Corte Ingles e tantas outras. Lá não era um simples shopping center ao estilo conhecido por nós. Essas marcas mundialmente famosas mantinham uma espécie de sociedade com um figurão local, esse contratava mão de obra a preço de banana, costuravam tudo o que seria revendido na Europa e até nos EUA, pagando salários irrisórios e com uns poucos obtendo lucros astronômicos. Algo que hoje não é mais considerado ilegal, nem muito menos antiético, pois a imensa maioria dos comerciantes de todas as partes do mundo faz uso desse procedimento para aumentar sua lucratividade. Foi um excelente negócio para todos os que revendiam os produtos lá fabricados, até o momento em que o prédio ruiu e as mortes foram divulgadas nas TVs de todo o mundo. Daí em diante foi um tal de donos dessas marcas alegarem nada terem a ver com o ocorrido, mas já era tarde, pois o respingo da indecência estava escancarado. Como tapar o sol com a peneira? Tem quem o queira fazer.

Tem mais. Aqui mesmo na nossa Bauru vejo industriais e alguns economistas apregoando como a coisa mais normal desse mundo o procedimento que incidiu na tragédia lá dos cafundós do mundo (forma de designação simplista). Quando a reivindicação salarial e os encargos tributários sobem um pouco, caindo a possibilidade de lucratividade, muitos daqui já se insinuaram com desejo de fechar tudo e ir à busca de lugares onde o lucro ainda é ilimitado. Dizem ser isso normal e hoje, tudo está aí exposto para quem quiser enxergar a imoralidade da prática. Nesses casos, ocorre o desemprego aqui e o descarado incentivo do trabalho praticamente escravo do lado de lá do planeta, praticado em condições sub-humanas, tudo em nome de um tal de deus dinheiro, que suplanta a tudo e a todos.

O ser humano não precisaria viver dessa forma tão degradante, explorando o semelhante até as raias do seu sacrifício, mas o faz sem dó e piedade. As relações comerciais são hoje praticadas com algo assim embutido no seu âmago, sem constrangimentos, pois o que vale mesmo é uns poucos poder continuar tomando o seu bom vinho nas noites, embalado por uma comida que alguns restaurantes já cobram o preço de um resgate de uma pessoa não muito importante.

Prefiro continuar agindo como me foi ensinado pelos meus pais, não vendo nada de sadio e normal nisso tudo. Se a globalização é isso aí, quero mais é me enfurnar de vez na defesa das poucas experiências existentes hoje no planeta de que outro mundo ainda é possível. É nisso que acredito.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História - www.mafuadohpa.blogspot.com

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