Bairros

Parcela de idosos ignora vírus HIV

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Josefa (nome fictício): “Os homens dizem que a camisinha tira o tesão”

O avanço da medicina e o advento de remédios que combatem a impotência sexual deixaram os vovôs e vovós sexualmente ativos. Com a retomada da virilidade, o grupo tem aberto cada vez mais espaço para viver novas experiências e frequentar bailes e festas em busca de diversão e de novos parceiros.

A realidade é confirmada por órgãos vinculados à Secretaria Municipal de Saúde, como o Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai) e o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que alertam para uma situação ainda considerada desafiadora: a prevenção do vírus HIV na terceira idade.

“Eles namoram, frequentam festas e possuem uma vida sexual ativa, mas muitos acreditam estarem distantes da Aids e ignoram o preservativo”, ressalta a coordenadora do Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)/Aids do CTA, Eliane Monteiro. “Notamos em alguns um certo preconceito de que a Aids está concentrada somente nos jovens, prostitutas ou gays, o que não é verdade”, completa.

Além disso, ela explica que a dificuldade também está na associação, feita por parte do grupo, de que o preservativo deve ser encarado apenas como um método contraceptivo. Como grande parte das mulheres já não está mais em idade reprodutiva, a camisinha acaba em segundo plano.

“Muitos não levam em conta o histórico do parceiro e, geralmente, há vergonha de se conversar sobre o assunto”, acrescenta.

Negativa

Outro ponto elencado como problemático pela responsável pelo Promai, Márcia Cristina Campos, é a dificuldade da família em aceitar o comportamento do idoso.

“Atendemos vários idosos com vergonha do assunto que buscam orientação e comentam sobre a dificuldade que passam por causa da negativa dos filhos em aceitar que eles sejam ativos”, reforça.

O Promai atende cerca de 3 mil idosos ao mês com equipe formada por médicos, psicólogos e assistentes sociais que realizam palestras constantes de prevenção da Aids.

Aos 73 anos e com uma vida sexualmente ativa, Josefa (nome fictício) representa a parcela de pessoas acima dos 60 anos que vive às escondidas com receio dos julgamentos da família.

Viúva há pouco mais de 10 anos, ela se tornou frequentadora assídua de bailes e festas em clubes para a terceira idade em Bauru, trocando a vida pacata em casa, o vestido de algodão e os cabelos brancos pela tintura marcante, a saia curta, o decote e as noites de dança e diversão.

“É gostoso não me sentir idosa e ver que a vida continua, mesmo com o chegar da idade e das dores. Gosto de namorar e de ser paquerada, isso me faz sentir mais valorizada, livre e feliz”, afirma a mulher, lembrando-se das vezes que precisou mentir para os filhos para conseguir sair de casa à noite.

“Uma vez até tentei tocar no assunto (sexo), mas eles (filhos) me cortaram e acabei desistindo de falar. É tudo por debaixo do pano”, completa.

Questionada quanto à prevenção do HIV, a idosa revela que não anda com camisinhas na bolsa e dificilmente usa preservativos nas relações sexuais com os namorados que conhece nos clubes. “Os homens dizem que a camisinha tira o tesão. É complicado, a maior parte não gosta. Além disso, percebo que o pessoal tem vergonha de falar em doença”, completa.


Incidência e subnotificação

Embora o número de casos notificados seja pequeno em comparação com outras faixas etárias, o ritmo da doença em Bauru é preocupante, uma vez que a média de casos, segundo Eliane, se mantém em uma constante.

“Os casos não representam um boom, mas a média anual vem se mantendo, desde 2010, em oito registros para cada cem mil habitantes”, aponta.

De fato, os números apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde não parecem assustadores, mas confirmam que a Aids acomete os que não se protegem ainda que seja na terceira idade.

Em 2009, ano em que a secretaria registrou o maior número de infectados acima de 60 anos, foram contabilizados quatro casos novos. Já em 2010 e 2011 houve dois registros.

A contagem, entretanto, conforme explica a coordenadora do Programa DST/Aids, ocorre com atraso de aproximadamente um ano, tempo de espera pela apreciação da notificação entregue pelos hospitais da cidade. Por isso, o fechamento de 2012 ainda não foi realizado e possui apenas um registro.

Além disso, existe a agravante das subnotificações. “Pelo menos 20% dos casos não entram nas estatísticas porque a pessoa morre antes mesmo de saber que possui Aids e o exame para diagnosticar a doença acaba não sendo feito”, revela Eliane.

Atualmente, 1.200 pessoas na cidade estão em tratamento contra o HIV. O perfil dos pacientes, segundo Eliane, é formado por 70% de homens casados ou com parceiras fixas.

A faixa etária de maior incidência do HIV/Aids em Bauru é de 20 a 59 anos, que em 2011 totalizou 53 casos novos, no ano seguinte 37 e em 2013 já acumula seis registros.

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