Geral

Sai o cavalo, entra o ser humano

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

Enquanto as carroças diminuem, proliferam os carrinhos. O que muda, além do tamanho, é a força motriz. Os equinos saem de cena e cada vez mais a tração tem duas pernas e o veículo é empurrado por dois braços. Catadores de recicláveis, por razões econômicas, também dispensam os cavalos e assumem a responsabilidade não só de conduzir, mas de impulsionar seus carrinhos pelo trânsito bauruense. A rotina geralmente é parecida. Acordam de madrugada e logo cedo estão percorrendo as vias e recolhendo os materiais que comercializarão depois. Misturam-se aos veículos no trânsito, enfrentando o sol e trabalhando até à noite.

É o caso de Maria Aparecida Angelo, 55 anos, que trabalha há sete recolhendo recicláveis. A ex-empregada doméstica e faxineira afirma que está adaptada à ocupação de recolher recicláveis. “Achei este serviço melhor para mim, me acostumei e estou nesta luta até hoje”, explica. A rotina diária é puxada. O dia nem raiou e Angelo já está acordada. Um cafezinho é tudo que vai no estômago antes de iniciar uma jornada que terá mais de 12 horas de marcha pela cidade, somando 20, 30 quilômetros diários, arrastando um carrinho que chega a conter quatro vezes o peso da catadora. O dia de trabalho tem início por volta das 6h e nunca termina antes das 20h, 21h. “O dia que está melhor eu fico até dez da noite”, conta. A maratona diária é percorrida muitas vezes sem uma refeição. “Tem dia que eu almoço, mas tem dia que não dá tempo. É corrido e a gente não pode parar”, declara.

O corpo frágil esconde uma vontade de ferro e com pouco mais de 1,50m e menos de 50 quilos, a catadora arrasta um carrinho que cheio pode chegar aos 150 quilos. “Muitas vezes, o carrinho está muito pesado e preciso de ajuda para baixar a alça para puxá-lo”, relata Angelo. O teste de vitalidade é repetido sete dias por semana sem direito a feriados. “É direto, não paro”, observa. O trajeto do dia a dia é feito aos poucos, com pausas para descanso quando a fadiga chega ao limite e os membros pedem uma trégua.

Além do esforço hercúleo arrastando uma carga muitas vezes superior ao peso do próprio corpo, Angelo aponta outros desafios na vida de catador de recicláveis. A começar pelo violento trânsito da cidade, que boa parte das vezes, nas vias de maior movimento, a faz ter que dar voltas, traçando rotas alte0rnativas para não colocar ainda mais em risco a vida e evitando acidentes. Porém ressalta que é inevitável correr riscos, pois nem todas as vias de trânsito rápido e de movimento intenso podem ser evitadas. Angelo trabalha, por exemplo, diariamente no Centro de Bauru uma das áreas de maior tráfego da cidade.

Além do perigo do trânsito, as alternâncias climáticas trazem diferentes desafios. “No tempo do frio é sofrido. Tenho problema de bronquite, falta de ar, mas tenho que trabalhar. Então, ando um pouco e paro, ando e paro. É para tomar um fôlego, preciso descansar para conseguir continuar”, comenta a catadora. “No calor também a gente sofre muito também, tem que tomar muita água porque sua demais. E não sente vontade de almoçar, comer nada”, expõe.

A reportagem conversou com Angelo já no período noturno, por volta das 20h30. Após a entrevista, a catadora se dirigiu para sua residência onde a aguardavam o serviço doméstico e um curto repouso para reiniciar a batalha antes do nascer do dia seguinte. “Vou dormir por volta de onze e meia, meia-noite”, declara. Depois, seguiu seu caminho, puxando seu instrumento de trabalho e ganha-pão.


Nenhuma carroça regularizada

De acordo com a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), nenhuma das carroças que ainda circulam pela cidade está regularizada. A legislação que trata do assunto e data de abril de 2010 define que carroças e charretes de Bauru devem ser emplacadas e receberem adesivos refletivos como os de veículos de carga, além de serem equipadas com freios de segurança e pneus de, no mínimo, aro 13. Já os animais precisam ser cadastrados no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), quando recebem implante de chip para localização em caso de sumiço ou para identificar o responsável em caso de abandono. Além disso, devem ser examinados a cada seis meses. Todo o processo de regularização é efetuado sem custos para os carroceiros, pois é subsidiado pela Prefeitura.

A regulamentação foi criada para disciplinar o transporte e circulação de veículos com tração animal em Bauru. Mas na prática não houve nenhum interferência ou mudança. O registro do animal é que inviabiliza o cumprimento do decreto municipal. O funcionamento esbarrou em item que exige comprovação através do carnê de IPTU ou declaração de propriedade do terreno onde o animal será abrigado. Sem esta documentação, o CCZ não pode dar início ao cadastramento do animal. Há um ano meio tramita um processo (nº 7.401/2010) objetivando alterar o artigo 22 do decreto municipal 11.213/2010, que criou a legislação regularizando o transporte e circulação de veículos com tração animal em Bauru, adequando a lei para que seja cumprida.


Bicicleta emplacada

Se nenhuma carroça que ainda circula pela cidade está regularizada, existe pelo menos uma bicicleta que está emplacada, tem adesivo refletivo, buzina, farol e lanternas traseiras. O vendedor Daniel Luís de Oliveira incrementou sua “bike”, que usa diariamente para trabalhar, com todos os acessórios, mostrando a criatividade pode ser um bom marketing.

A brincadeira costuma chamar a atenção pelas ruas de Bauru onde Oliveira pedala aproximadamente 100 quilômetros por dia para vender as paçocas que ajudam no orçamento familiar. “Circulo pelas avenidas Duque de Caxias. Castelo Branco e Distrito Industrial. Vou até mesmo a Agudos”, relata o vendedor.

As placas da bicicleta são antigas, ainda com a cor amarela, e das cidades de Franca e Pedregulho, Nordeste do Estado de São Paulo. A engenhosa buzina foi adaptada pelo vendedor em um extintor recarregável e tem uma potência assustadora. “É alto”, alerta, antes de acioná-la. E realmente a intensidade do som é semelhante ao apito de um trem ou buzina de caminhão. O ciclista vendedor destaca que os itens, além da diversão, proporcionam maior segurança no pesado trânsito bauruense.

Comentários

Comentários