Fotos: João Rosan |
|
|
Cavalo Vuco-Vuco é preparado para um passeio com charrete |
Houve um tempo em que os carroceiros prestavam um trabalho imprescindível nas cidades. Grande parte dos serviços era efetuada nos veículos puxados pelos cavalos e a paisagem urbana estava indissoluvelmente ligada às charretes e carroças, uma frota à disposição para o lazer e trabalho, contribuindo com o avanço da cidade. Porém, o próprio progresso engoliu esta época e de motrizes propulsoras as carroças tornaram-se um símbolo do obsoleto e, muitas vezes, estorvo na correria dos atuais tempos. A violência do trânsito, o aumento das oportunidades para aquisição de veículos motorizados e as alternativas para serviços antes prestados estão acabando com as carroças nas vias urbanas e os carroceiros estão em extinção.
Não existem estimativas do número de veículos de tração animal que trafegam pelas ruas de Bauru, mas é visível a sensível e rápida diminuição de carroças. Os próprios carroceiros entendem que é inevitável que as outrora dominantes carroças desapareçam. “Do jeito que está indo, acho que é uma questão de tempo. Vivo da carroça e está ruim”, constata Antônio Assis, que trabalha como carroceiro há 35 anos e, neste período, constituiu e sustentou sua família com a ocupação. Assis revela que a demanda por seus serviços cai continuamente e a balança, muitas vezes, pende para o prejuízo. “Tem semana que não dá nada. E tem que tratar do animal, é só gasto. Tem semana que só gasta e não repõe nada”, lamenta.
Assis trabalha principalmente com o transporte de entulho, mas encontrou recentemente um adversário difícil de ser batido no seu nicho de mercado. “As caçambas atrapalharam nosso trabalho. E os lugares para jogarmos os entulhos estão ficando muito longe, o que maltrata muito o animal porque tem que ir muito longe”, aponta. A solução para abrandar o impacto das caçambas no orçamento familiar foi diversificar os serviços. “Hoje mexo com tudo, poda de árvores, limpo terreno, o que aparecer”, comenta. A carroça é usada para carregar o material proveniente das podas e das limpezas. “A sorte é que não estou mexendo só com entulho. Se não fosse isso, estaria quebrado, não teria (dinheiro) nem para comer”, admite.
O carroceiro relembra que, antes, as demanda para serviços era diversificada e a carroça não parava. O veículo era usado para o transporte de uma vasta gama de produtos e as mudanças de residências das famílias muitas vezes eram efetuadas com a ajuda do cavalo. Agora, a realidade é outra. “Hoje em dia está difícil. É mais um guarda-roupinha, uma geladeira. Como era antes, não tem mais”, lastima.
Há 40 anos lidando com carroça e cavalos, Athaíde Mariano da Silva diagnostica com precisão a “sentença de morte” das carroças. “Antes tinha um ponto de carroças na (avenida) Pedro de Toledo. Hoje, não se pode ir nem ir à cidade com a carroça na realidade. Quem pega papelão está parando, é muito custo para pouco dinheiro e maltrata muito animal. Não tem lugar certo para estacionar a carroça. Quem faz carreto está diminuindo porque a caçamba é mais prática. Quem faz uma viagem com entulho tem que jogar muito longe. Se cobrar muito barato, não compensa e, se cobra caro, o pessoal prefere arrumar a caçamba. Fora a fiscalização que vai em cima. Se você jogar em qualquer lugar é multado e fica no prejuízo”, explica.
Por amor
Silva começou a lidar com carroça e cavalos com oito anos e hoje deixou a ocupação. O ex-carroceiro relembra, saudoso, do “tempo das carroças”, quando a própria cidade estava estruturada para os veículos. “Antigamente, tinha o ponto de carroceiro e havia bebedouros em certos lugares. Você encostava a carroça, dava água para o animal e ia fazer o serviço. Tinha lugar que vendia a cana picada, alfafa picada para os carroceiros. Mas a cidade foi crescendo, o progresso aumentando e foi ficando difícil”, observa.
O tradicional ponto de carroceiros localiza-se na Praça Parteira Bernardina, confluência das ruas Floriano Peixoto, Cussy Júnior e avenida Pedro de Toledo, local que curiosamente faz menção a outra ocupação que perdeu espaço - hoje é bem menos comum crianças nascerem fora de um hospital e longe de cuidados médicos. Atualmente, o ponto está deserto e o bebedouro onde os cavalos saciavam a sede ocupa o espaço central acumulando folhas secas em seu fundo, monumento de uma época que cada vez mais cai no esquecimento.
Os cavalos e as charretes que Silva possui no momento - são cinco equinos e vários veículos - são utilizados estritamente para o lazer. “Hoje não tem nem mais jeito de trabalhar com carroça. Crio cavalos como hobby porque está no coração da gente. Se Deus me permitir viver 90 anos, se eu não tiver um cavalo na minha frente, eu morro antes. Gosto de ir a cavalgadas e não tem dinheiro que paga um gosto pelo animal”, finaliza.
Da carroça para a carreta
Foram mais de 30 anos trabalhando com carroça, uma herança que veio do pai. Milton Caetano Ferreira, desde menino já lidava com cavalos, ocupação que garantiu o sustento de sua família por décadas. Até que há um ano e meio percebeu que era o momento de parar. Na verdade, de mudar. Vendeu todos os animais que possuía e trocou a carroça por uma carreta, puxada não por um cavalo, mas pelos cavalos do motor de uma picape. “É uma vida com carroça, mas vendi tudo e passei para o carro, que é mais rápido. Mas ajudei muita gente fazendo carretinho, jardinagem. Muita gente procurava a carrocinha”, relembra com carinho.
As recordações atingem um tom de nostalgia, quando Ferreira recorda com saudade de uma época em que o cavalo era indispensável na rotina da cidade. “Teve uma época que padeiro, verdureiro, bucheiro usavam carroça, passavam de carroça. Eu sou desta época. O cavalo sempre foi de muita utilidade em Bauru”, comenta. Ferreira afirma que as mudanças nos costumes e a urbanização dificultaram a continuidade do trabalho com a carroça. “A gente mexia com criação, comprava tropa. De um tempo para cá, ficou mais difícil o trânsito, a cidade cresceu muito. E é difícil lugar para por o cavalo também. Para deixar no sítio e buscar para a gente trabalhar fica complicado. Diminuiu uns 90% dos carroceiros, só tem um ou outro”, constata.
Outro motivo da mudança da tração animal para o veículo motorizado e a insegurança para animais e carroceiros na cidade. “O cavalo é muito visado. Muitas vezes, roubam o cavalo e vão dois, três dias, uma semana para achar. E maltratam um pouco. Roubaram muitos cavalos em Bauru para matar. Isso também foi um motivo para o pessoal parar”, conclui.
Leia também