As lágrimas de Neymar durante a execução do Hino Nacional antes de seu último jogo com a camisa do Santos, neste domingo, em Brasília, estamparam os jornais de todo Brasil na manhã dessa segunda-feira. Mas o jogo realizado no Estádio Nacional Mané Garrincha também entrou na história do futebol nacional ao bater o recorde de maior renda da história do esporte em terras tupiniquins. Os 63.501 torcedores geraram quase R$ 7 milhões, superando em mais de R$ 2 milhões o recorde anterior, pertencente ao jogo São Paulo e Internacional, na semifinal da Libertadores de 2010. A diferença poderia ser bem maior, caso as outras 5.699 cadeiras vazias tivessem sido ocupadas por torcedores dispostos a pagar entre R$ 160,00 e R$ 400,00.
Um número que faz jus ao segundo estádio mais caro da Copa do Mundo de Futebol de 2014 (ele seria o primeiro, se as obras do Maracanã não tivessem elevado o custo da sede carioca), mas que não pode ser subtraído diretamente dos mais de R$ 1 bilhão gastos em sua construção. A maior parte dos milhões gerados pela partida entre Flamengo e Santos vai ficar nas mãos da Federação Brasiliense de Futebol (FBF) e as dividas da "arena", nas mãos do governo do Distrito Federal.
Por isso, é cedo para fazer como alguns torcedores e apontar o resultado como prova de que o estádio brasiliense não é um elefante branco ? ou o maior dos elefantes brancos ? da copa, como já fizeram alguns torcedores. Pelo contrário, os primeiros testes mostraram que o Mané Garrincha é um grande elefante no Planalto Central, que com o passar dos dias ? e das copas ? vai ficar cada vez mais branco.
Uma semana antes de receber o grande jogo da primeira rodada do Brasileirão, o Mané Garrincha teve seu primeiro jogo oficial: a segunda partida da final do Campeonato Brasiliense de Futebol com um público muito menor, limitado pela Fifa à 22 mil torcedores, sendo que 10 mil ingressos foram distribuídos aos operários que construíram o estádio.
O futuro do Estádio Nacional, como a Fifa quer que o Mané Garrincha seja chamado, não é muito promissor. Neste ano, o único evento programado é a abertura da Copa das Confederações, entre Brasil e Japão, no próximo dia 15. O Brasiliense e o Gama, os dois clubes mais conhecidos do futebol do Distrito Federal, já afirmaram que não pretendem usar o novo estádio.
Esse problema se repete em outros estádios construídos para a Copa de 2014. A Arena Castelão, em Fortaleza, foi entregue em dezembro de 2012 e, no começo desse ano, o Ceará e o Fortaleza relutavam em assinar um contrato para mandar seus jogos lá, alegando que os custos para a realização de uma partida são inviáveis.
A situação do Estádio Nacional Mané Garrincha, assim como da Arena Fortaleza, Itaquerão e de parte significativa dos 12 estádios construídos para receberem o segundo maior evento esportivo do mundo, mostra não só a ânsia dos responsáveis pela Copa do Mundo do Brasil em fazer o evento a qualquer custo, mas também a falta de preocupação deste grupo (que inclui não só a Fifa e a CBF, mas também o Governo Federal, governos estaduais e municipais, empresas e investidores que vão lucrar milhões nos próximos anos) em gerar dividendos para o povo brasileiro.
No artigo "2014, a Copa que o Brasil já perdeu", o jornalista Thiago Arantes definiu bem a importância da copa para o país-sede: "Um evento como a Copa é a chance de um país mudar, se redescobrir, sanar problemas e construir soluções, mesmo que seja sob a fajutíssima desculpa de ?o que o mundo vai pensar da gente se não estiver tudo dando certo??. Que seja, dane-se a pequenez da desculpa, desde que sejam construídas estradas, linhas de metrô, corredores de ônibus, elevadores, hotéis, e, vá lá, até um ou outro estádio". Mas tenho que discordar do jornalista. O Brasil ainda não perdeu a Copa, ele ainda pode aprender com ela (e com a Olimpíadas) a não ser enganado pela promessa de um grande festa pública, onde alguns se empanturram com alegria e a maioria limpa as lágrimas de derrota.
O autor, Fernando Strongren, é jornalista