Matéria "Lutas Marciais: Uso de técnicas para violência é covardia, dizem mestres" (JC, 05/05/2013: capa, p. 4-5). É relevante a reflexão proposta pela matéria do JC; as diferentes opiniões de professores, praticantes de lutas, das pessoas, familiares e profissionais caracterizam a complexidade do problema da violência. Faço alguns comentários a esse debate desafiador, conforme seguem:
1) É oportuno um breve resgate sobre a origem das lutas da atualidade. Falando das artes marciais japonesas, elas foram criadas para a guerra e o combate real. Matar ou morrer era um dilema cotidiano que justificava a criação, o refinamento e o treinamento das técnicas de luta. Quando as guerras terminaram, percebeu-se que o exercício daquelas técnicas transcendia o matar ou morrer literal, trazendo uma série de outros benefícios aos praticantes além da sobrevivência. O aprimoramento do caráter, o respeito, a disciplina e o condicionamento físico, entre outros aspectos, passaram a justificar a prática das lutas com o foco em educação e saúde. Assim, hoje há uma prática semelhante, mas com finalidades muito distintas. Esta transição de contextos e de justificativas para a prática atual, de modo geral, é válida para todas as lutas contemporâneas. A clareza sobre este ponto é fundamental para professores e praticantes.
2) Do ponto de vista técnico, as lutas buscam o controle refinado dos movimentos em situações realistas. Assim, o contato físico descontrolado durante os exercícios de luta é sinônimo de fracasso da técnica. O desafio técnico na atualidade, a meu ver, é manter a importância da acurácia da técnica, tanto temporal quanto espacialmente, em um ambiente altamente realista de combate, sem descaracterizar a busca pelos princípios de educação e saúde mencionados acima. Vale apontar que as lutas que aceitam o princípio de "nocaute", como o boxe e MMA, compõem uma exceção neste debate; os limites da intensidade do contato é um aspecto polêmico e problemático, que pode estar associado à violência. Em suma, não é a busca pela eficiência das técnicas, nem a agressividade natural presente no comportamento humano que geram violência, mas a falha ao respeito às normas do convívio em sociedade. Não é preciso ser altamente competente em técnicas de luta para ser violento. Neste sentido, a aplicação rigorosa de nossas leis deveriaser suficiente para desestimular os atos violentos; caso contrário, as leis é que carecem de melhoria.
3) O problema da violência em nossa sociedade atual, infelizmente, não se limita às circunstâncias bem caracterizadas pela matéria do JC. Compreendo os motivos dos familiares que propõem soluções para os problemas que vivenciaram de perto, como a avaliação psicológica dos ingressantes nas práticas de luta. No entanto, imagino que tal avaliação seria ineficaz na ampla maioria dos casos. Veja, se nossa sociedade instituísse uma avaliação psicológica rigorosa aos candidatos ao matrimônio, os alarmantes índices de violência doméstica em nosso país provavelmente não se reduziriam. Não por incompetência ou inadequação das técnicas de avaliação psicológica, mas pela multifatorialidade das questões acerca da violência. Muitas vezes a violência é desencadeada quando a decisão pessoal de praticar violência está escondida sob a máscara da coletividade, como nos casos das verdadeiras batalhas entre torcidas nos estádios de futebol do país e do mundo. Outras vezes, a violência é disparada quando há adição de substâncias que afetam os níveis de consciência, como o álcool e as drogas ilícitas. A violência reportada pela matéria do JC parece ter ocorrido em ambientes nos quais esses dois fatores podem ter contribuído conjuntamente para o problema.
4) O esforço para minimizar os problemas de violência em nossa sociedade deve ter a responsabilidade compartilhada pelos vários segmentos envolvidos de algum modo com estas situações; não há soluções mágicas. Como a matéria bem alerta, pais, professores, famílias, federações de modalidades de lutas, polícia, enfim, todos nós devemos refletir e dialogar muito para oferecermos estratégias melhores do que as disponíveis atualmente para evoluirmos individualmente e coletivamente. Talvez, pudéssemos começar pelos questionamentos acerca do papel da mídia na venda de espetáculos de luta. Insisto, todavia, que a prática das lutas tem as condições e os elementos necessários de contribuir significativamente nessa batalha contra a violência.
O autor, Sérgio Tosi Rodrigues, Ph.D. em Psicologia (Percepção e Cognição), docente da Unesp ? câmpus de Bauru, Departamento de Educação Física, responsável pela disciplina "Karatê na Escola", Faixa Preta de Karatê-dô pela Federação Paulista Karatê Tradicional