Articulistas

Escolas e igrejas

Wellington Anselmo Martins
| Tempo de leitura: 2 min

No ensino médio, em escolas públicas, eu aprendi mais sobre como ficar com garotas, como fumar maconha, como é importante andar em grupo por causa das brigas, como ser "esperto": furar fila, colar nos trabalhos e provas, emprestar material da escola e dos colegas e não devolver mais, ser popular entre os amigos de sala por fazer piada com a cara dos professores; aprendi a passar de série faltando muito mais que o limite etc. Esses foram os tópicos que, sinceramente, eu mais aprendi em minha vivência escolar no ensino médio público.

Entretanto eu, de família um pouco religiosa, tive um pai que me incentivou a frequentar a Igreja (quase obrigava, algumas vezes). E, na Igreja, aprendi outros tópicos dos meus 15 aos 18 anos. Foi nas aulinhas de catequese e também de crisma que aprendi a debater sobre ética, moral, cidadania; aprendi a diferenciar virtude e vício; também nessas aulas, discuti, pela primeira vez com seriedade, sobre filosofia, sociologia, psicologia e, claro, muita teologia. Na Igreja, nos grupos de jovens, aprendi sobre o valor das artes e da estética; aprendi o que é e para que serve o teatro, o que é e como se faz música, e até poesia eu via nesses encontros de jovens.

Na Igreja, já nos grupos de oração, foi onde aprendi a ler! A ler, interpretar e escrever! Nesses grupos de oração, a Bíblia era muito valorizada, tanto em seu aspecto religioso quanto histórico e literário. E porque valorizavam tanto a Bíblia, eu acabei por lê-la inteira diversas vezes; e a Bíblia, por si só, é uma biblioteca riquíssima, uma coleção de livros muito bem traduzidos, em ótimo Português, possuindo todos os grandes estilos literários: livros históricos, livros poéticos, romanceados, trágicos; narrativas de toda ordem: contos, fábulas, crônicas; ao ler a Bíblia deparei-me com dezenas de autores diferentes, de culturas diferentes, tentando explicar o mundo, a política, a vida e Deus por meios diversos: ora mais racionais, ora mais míticos. E dessa mesma Bíblia, fui estimulado muitas vezes a fazer resumos e resenhas em panfletos e mini-jornais a serem distribuídos aos outros fieis. Na Igreja, na liturgia das missas, aprendi o valor da liderança e da oratória; a importância e as técnicas da exposição oral, da retórica, da postura, da etiqueta, da disciplina etc.

Só não aprendi muito sobre química, matemática e física na Igreja. Mas, pudera, também estas disciplinas eu jamais vi de modo aprofundado na educação que tive em escolas públicas. E, depois de tudo isso, claro, fica a grande questão sociológica: como pode a educação pública no Brasil ser tão frágil a ponto de uma comunidade religiosa simples ser infinitamente mais rica em formação educativa, cultural e humana?!

O autor, Wellington Anselmo Martins, é professor, mestrando em Filosofia (PUC), graduado em Filosofia (USC) / am.wellington@hotmail.com

Comentários

Comentários