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Espera por UTI vira drama e desafio

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos/Quioshi Goto

Sandra Viana só conseguiu uma vaga para a sobrinha Gisele Viana após mandado judicial

A operadora de caixa Gisele Valdenice Viana, 22 anos, trabalhava normalmente na segunda-feira quando começou a passar mal. Quatro dias depois, em coma e com H1N1, seu quadro é considerado muito grave. A rapidez da doença, porém, não foi a mesma com que o sistema SUS, gerido pelo Ministério da Saúde, tinha uma vaga a ela na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O drama de Gisele é apenas mais um em meio à falta de vagas de tratamento intensivo.

Segundo o JC apurou, Bauru conta com 47 vagas atualmente, divididas entre 26 no Hospital de Base (HB) e 21 no Hospital Estadual (HE). “Estimamos que, entre Bauru e região, atendemos uma população de 700 mil pessoas. Então, essas vagas realmente não dão conta. Dificilmente, as UTIs não estão lotadas”, confirma o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de

Além de H1N1, Gisele entrou em coma diabético

Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag.

O diretor cita que o ideal seriam mais 50 vagas de UTI disponíveis nos hospitais da cidade. Outras autoridades falam que um acréscimo de 20 vagas já amenizaria o problema. Sem o ideal e nem o paliativo, o que se vê é uma espera limite entre a vida e a morte.

Espera que cria dramas como o de Gisele. Após passar mal na segunda-feira, ela foi para o Pronto-Socorro do Hospital de Base (HB) na madrugada de quarta, onde teve diagnóstico confirmado de H1N1.

“Ela não conseguia fazer nada. Não parava em pé. Começou a não reconhecer as pessoas”, disse Sandra Domingos Viana, 37 anos, tia de Gisele.

Além da H1N1, a jovem entrou em coma diabético. A situação era clara: precisava urgentemente de uma vaga em UTI. Após insistência, foi conseguido um leito em Promissão, cidade localizada a 120 quilômetros de Bauru.

Exatamente pela distância, os médicos disseram que Gisele Viana não poderia ser transferida. Foi quando a família entrou na Justiça e, finalmente, conseguiu ontem uma vaga para ela na UTI do HE.

“No hospital, foi descoberto que ela estava grávida. Hoje (ontem), ela teve uma parada cardíaca e disseram que o rim não está funcionando”, desabafa Sandra Viana.

Sem vagas

Conforme apurado pelo JC, anteontem, a fila de espera por uma vaga de UTI em Bauru era de, no mínimo, nove pessoas. O problema é confirmado por todas as autoridades da área de saúde.

“A medicina vai evoluindo e incrementa as tecnologias de suporte à vida. Por isso, há mais pessoas sendo mantidas vivas e indo para as UTIs. Desde que o Hospital Estadual abriu, Bauru não teve acréscimo de mais vagas. Mas, estamos estudando aumentar o número de vagas no HB”, aponta o secretário da Saúde, Fernando Monti.

Em fevereiro deste ano, o JC noticiou o caso de Lúcia da Silva Francisco, de 72 anos, que, com vários problemas cardíacos, não conseguia uma vaga na UTI. Após esperar dias, a família da pensionista registrou um boletim de ocorrência (BO) denunciando o fato.

A diretora da Divisão Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira, também confirma que o número de vagas é insuficiente. “Sabemos que o que é ofertado, em geral, é pouco”. Porém, complementa que, em três reuniões, já solicitou ao Ministério da Saúde mais vagas de UTI para Bauru, Jaú, Avaré e Botucatu.

Por meio da assessoria de comunicação, o órgão federal explicou que analisa qualquer projeto solicitando aumento de vagas em UTIs que venha tanto do município quanto do Estado. Contudo, por conta do adiantado da hora, não foi possível checar o andamento das solicitações de Bauru.


Particular

E a necessidade de vagas em UTI não tange apenas a saúde pública. No sistema particular, a situação é bem menos crítica, porém, já dá sinais de lotação. No Hospital Unimed de Bauru, a capacidade da UTI adulta é de 15 leitos. Ontem, por exemplo, todas essas vagas estavam ocupadas, com um leito extra em funcionamento.

De acordo com a assessoria de comunicação, dois casos aguardavam vaga na sala de Emergência do Pronto-Atendimento Adulto, “que é equipada como uma UTI”.

Ainda por meio da assessoria, a Unimed garante que já planeja uma obra de expansão da UTI adulto do hospital de Bauru, aumentando a capacidade para 20 leitos até o final deste ano.


Salas de emergência

Sem leitos de UTI, uma estratégia comumente adotada pelos hospitais é usar as chamadas salas de emergência com tal finalidade. É o procedimento que é realizado, por exemplo, em casos de mandados judiciais.

“Se a Justiça manda internar na UTI e não há essa vaga, coloca-se o paciente nessa sala de emergência. Ela é equipada como se fosse uma UTI. A pessoa espera ali até liberar a vaga”, explica Luiz Sabbag.


H1N1: Bauru tem somente três vagas de UTI com isolamento

Se a falta de vagas em UTI já é um problema rotineiro em Bauru, o risco de H1N1 tornou a situação ainda mais crítica. Há somente três leitos com isolamento – algo imprescindível no tratamento - na cidade.

“É realmente uma quantidade pequena de vagas de UTI com isolamento”, confirma o diretor do DUE, Luiz Antônio Bertozo Sabbag.

Ainda de acordo com ele, a situação de falta de vagas piora por conta dos problemas respiratórios desta época do ano. “Muitos quadros graves respiratórios precisam de UTI. Então, a falta de vagas fica ainda maior”, completa.


‘É algo triste’, lamenta Luiz Sabbag

Com 30 anos de formação, o diretor do DUE, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, também é médico intensivista. Ele já presenciou vários casos de pacientes que tinham possibilidade de recuperação, contudo, morreram esperando uma vaga em UTI.

“É algo triste. É difícil ver uma pessoa que tinha toda chance de se recuperar morrer por conta de uma vaga. Chega a ser frustrante”, lamenta.

No ano passado, o JC noticiou vários casos de pessoas que morreram em meio à essa espera dramática. Em uma das mais emblemáticas, a estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, aguardou, em julho, por três dias em uma maca instalada improvisadamente no corredor do Pronto-Socorro Central (PSC). Quando a vaga veio, ela morreu de uma parada cardíaca durante a transferência.

No mesmo mês, o aposentado Antônio Toledo, 76 anos, aguardou quatro dias por uma vaga.  Com quadro respiratório grave, foi entubado no PSC e permaneceu na Unidade de Pacientes Graves, espécie de mini UTI. Ele precisava de um leito isolado, que não estava disponível no HE. Ficou sendo monitorado no PS, porém, morreu.

Já Aparecido Nelson Pinto, 43, estava na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Núcleo Mary Dota quando sofreu um infarto e não resistiu. O lavrador também esperava uma vaga de UTI.

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