Esportes

Jogos Abertos: legado desafia prefeitura

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

Em tempos pré-Copa e Olimpíadas, muito se fala sobre a real utilização de estádios e demais dispositivos construídos para as grandes competições internacionais. E essa discussão também abrange a nossa realidade, guardadas as devidas proporções. Seis meses se passaram e o uso pleno do legado dos Jogos Abertos do Interior, realizados no final do ano passado em Bauru, é o grande desafio.


Após investimento milionário para que a cidade recebesse a principal competição poliesportiva do Estado, a alegada herança do evento, principalmente as praças esportivas construídas ou reformadas, já carece seja de um trato ou de melhorias.


Visto como uma das principais heranças pós-competição, o trabalho com a formação de atletas de base é dividido entre alguns dos equipamentos erguidos ou reformados para os Abertos, demais praças esportivas que já existiam e novos dispositivos entregues depois do evento, entre eles uma moderna e ampla pista de atletismo no Jardim Petrópolis, no começo deste ano.


Nesta modalidade, especificamente, foram realizados os maiores investimentos. Apenas na pista construída no antigo estádio distrital Antônio Milagre Filho, o “Milagrão”, na Vila Nova Esperança, o agora Centro de Atletismo Alcides dos Santos Gonçalves, o “Cabo Alcides”, foram empregados em torno de R$ 5 milhões.  


O complexo, que homenageia um dos principais nomes do atletismo na cidade e condutor de projeto social que utilizaria o mesmo, entretanto, necessita de melhorias para se tornar centro de referência em alto rendimento, além de abrigar importantes competições do cenário nacional, conforme foi proposto pela prefeitura e Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel).



Desproporcional


No entanto, para organizar algo do porte de um Troféu Brasil de atletismo, como até foi cogitado na época dos Abertos, falta muito chão a ser percorrido.  Ano passado, durante a competição estadual, uma das principais queixas dos atletas era a falta de sombra e até mesmo água.


Durante as disputas, foram disponibilizados pontos de hidratação por conta do Departamento de Água e Esgoto (DAE), além de líquido trazido pelas delegações. Teve atleta que pediu guarda-sol da equipe de reportagem do Jornal da Cidade, durante escaldante tarde de provas do complexo de atletismo do Milagrão, lembra o repórter fotográfico Malavolta Jr.


Com material sintético importado da Alemanha, a pista reúne o que há de ponta em termos de condições de prova, apta a abrigar as principais competições nacionais e até mesmo eventos internacionais de menor porte,  conforme rege a própria Federação Internacional de Atletismo (IAAF).


No entorno, falta sombra, arquibancada, vestiários e alojamento para material. “Na parte de infraestrutura ainda há a desejar. Mas temos a garantia de que tudo será providenciado. Não se pode jogar fora algo tão bom para Bauru”, confia Cabo Alcides que, além de dar nome ao complexo, é um dos principais usuários do principal legado físico dos Jogos.



Pós-jogos


Coordenador do projeto Atletas do Futuro e do segmento de atletismo da própria Semel, Alcides considera a pista do Milagrão ideal para o treinamento de esportistas em vista ao alto rendimento. A primeira fase de preparação de novos valores, frisa, ocorre no recém-inaugurado complexo do Jardim Petrópolis, no campo do Oriente.


A praça esportiva, concluída em janeiro deste ano, mediante parceria entre a prefeitura (Semel), Zopone Incorporações, Associação Bauruense de Atletismo (ABA) e Instituição Acaê, abriga a maior parte das atividades do projeto coordenado por Cabo Alcides, que também abrange pais de crianças e jovens assistidos, além de programas voltados à terceira idade.


Contudo, para encaminhar os jovens atletas aos trabalhos específicos de alto rendimento, é necessária implentação de infraestrutura no Milagrão, ressalva. “São equipamentos caros e que precisam de local adequado para acondicionamento”, observa. “Mas fazemos reuniões constantes com a Seplan (Secretaria Municipal de Planejamento) e sei que as melhorias vão acontecer”, acredita.


Atuais condições


Durante a semana, a equipe do JC percorreu as principais praças esportivas entregues para a realização dos Jogos Abertos do Interior. A pista de atletismo no Nova Esperança ainda tem cheiro de borracha nova. Exceto a linha na primeira raia à esquerda um pouco apagada, o dispositivo aparenta perfeito estado.


Nesta semana, funcionários de uma empresa terceirizada faziam estudo de solo para futura implantação de arquibancada no antigo estádio distrital. No entanto, segundo o secretário municipal de esportes, Roger Barude, as obras devem ocorrer apenas no final do ano ou início de 2014, pois as melhorias ainda não foram licitadas.


O complexo receberá melhorias orçadas em R$ 2 milhões, antecipa o titular da pasta. Segundo Barude, os recursos já estão liberados pelo Ministério do Esporte. Além de arquibancada, com capacidade para duas mil pessoas, ainda há previsão de instalação de pista de aquecimento e vestiários. “Ainda tentaremos encaixar iluminação”, acentua Roger.


Atualmente, enfatiza, a pista está aberta também à população, para caminhadas. Segundo ele, não há risco de danos no dispositivo de piso sintético, cuja utilização é regulada mediante revezamento de raias, alega. O complexo é mantido por um caseiro, que reside ao lado das instalações.

 

Arredores descuidados

Há seis meses, o Milagrão recebia atletas de ponta, como a campeã mundial no salto com vara, Fabiana Murer, ou Jadel Gregório, campeão pan-americano no salto em distância. Logo após sediar etapa dos Jogos Escolares, o Milagrão exibe, logo na entrada, buraco no muro, que é “tapado” por placa de madeira.


Contudo, o visual mais prejudicado nos arredores das principais praças esportivas entregues para os Jogos do ano passado é constatado ao lado do estádio municipal Edmundo Coube e do ginásio de esportes Guilherme Dal Colleto, que sediou as competições de ginástica artística durante os Abertos.


No estádio, utilizado pelo futebol amador, com campo e arquibancadas elogiados por times e torcedores, principalmente pelas dimensões, grandes em comparação aos demais campos da cidade, os maiores “vilões” da aparência são a pichação no portão principal e lixo abandonado na praça em frente ao campo, utilizada por ambulantes em dias de jogo.


Mas é no centro de ginástica olímpica que a sujeira, do lado de fora, está mais evidente. Lixo é encontrado amontoado na calçada da praça esportiva que, há seis meses, recebeu o campeão olímpico nas argolas, Artur Zanetti.


No local, existe placa evidenciando a proibição sobre despejo de lixo ou entulho. A determinação não parece respeitada por parte da população. Dentro do recinto, dois professores iniciam jovens na modalidade, utilizando o mesmo equipamento empregado nos Abertos.


Na época, o material foi criticado pela equipe de São Caetano, principal expoente da competição.

 

No limite

Apesar de reformado, o ginásio Panela de Pressão já se mostra obsoleto, em relação a outras cidades com centros mais modernos para grandes disputas de basquete ou voleibol.


Atualmente dividido entre os treinamentos e partidas do Paschoalotto/Bauru, que integra a elite paulista e nacional de basquete masculino, e do time feminino do Preve/Concilig/Semel, atual campeão da divisão especial dos Abertos, em preparação final para estrear na primeira divisão do Estadual, nesta semana, o ginásio acomoda público máximo de 3 mil pessoas.


Caso o time de Bauru avançasse  à final do Novo Basquete Brasil (NBB) , a equipe comandada pelo técnico Guerrinha não poderia, mesmo com eventual melhor campanha, exercer mando de quadra em eventual decisão pelo título.


Com exigência mínima de um poliesportivo com quatro mil pessoas para o jogo decisivo pelo título, a final do nacional de basquete passaria longe de Bauru, mesmo com o time da cidade na disputa. “Em caso de finais não poderíamos sediar”, lamenta o secretário de esportes, que sonha com um novo ginásio. “Visitamos algumas cidades e conhecemos projetos”, adianta.


O ideal, considera Roger, seria mesmo a construção de um novo ginásio em Bauru. “Um ginásio maior, na região da Nações Norte, seria perfeito”, imagina.


Enquanto o novo ginásio não sai do campo dos sonhos, as equipes dividem a mesma Panela, construída nos longínquos anos 1950. “Não há problemas, seja com o basquete ou Semel. Nos entendemos perfeitamente no ajuste da programação”, afirma Adriano Pucinelli, diretor da equipe de vôlei feminino. “É claro que, quanto mais ginásios, melhor”, pondera.

 

Bola dentro

O diretor da equipe de vôlei da cidade enfatiza o legado positivo, ao menos na modalidade. Segundo ele, além das melhorias no Panela de Pressão e complexos esportivos dos jardins Bela Vista e Santa Luzia, vasto material esportivo foi herdado para treinamentos e jogos. “Redes, antenas, cadeiras, bolas oficiais são aproveitadas e durarão por muitos anos”, enaltece.

Comentários

Comentários