Com a simpatia acolhedora de uma avó e a disposição de uma menina, Maria Odília Carvalho Simonetti, matriarca de uma família tradicional do rádio bauruense, recebeu a equipe do JC para contar as suas principais histórias e narrar o que viu e viveu durante o nascimento do rádio, em Bauru.
“Tudo começou com o meu sogro, João Simonetti, quando ele colocou no ar a primeira rádio do município, a PRG-8 Bauru Rádio Clube, a segunda emissora do Interior. Mas este é apenas um exemplo do seu pioneirismo. Ele também foi pioneiro da TV no interior da América do Sul”, frisa.
E quando o assunto é rádio, o fascínio que o meio de comunicação exercia nas pessoas e a imaginação que despertava ficaram na memória: “As radionovelas eram sucesso. A gente ficava imaginando os mocinhos e as mocinhas... Cada um pensava à sua maneira. O rádio fazia muito bem porque despertava a imaginação e fazia a gente pensar e sonhar”.
Com Leonidas Simonetti, a entrevistada de hoje teve três filhos: Sílvio Carlos, Paulo Sérgio e João Simonetti Neto, e uma família numerosa que hoje soma oito netos, nove bisnetos e um tataraneto. Confira os principais trechos da entrevista, a seguir.
Jornal da Cidade – Como o rádio entrou na história da família Simonetti?
Maria Odília Carvalho Simonetti – Tudo começou com o meu sogro, João Simonetti. Eu estava noiva quando o meu sogro colocou no ar a primeira rádio da cidade, a PRG-8 Bauru Rádio Clube, que foi a segunda emissora do Interior, isso na década de 1930. A primeira foi em Jaú. Pouco tempo depois, Getúlio Vargas nos deu a concessão de uma FM. Meu sogro era muito amigo de Getúlio, ele entrava em sua sala sem pedir licença e ia direto falar com ele em sua mesa. Eu mesma o recebi em minha casa com uma festa. Bom, mas em Bauru não havia sequer um aparelho de rádio FM e a rádio não foi ao ar. Mais tarde veio a Terra Branca e, depois, compramos a Rádio Auri-Verde e, por fim, a Rádio 94 FM, que permanece com a família, em sociedade agora com Alceu Rodrigues.
JC – A senhora dirigiu as rádios Auri Verde e 94FM. Aprendeu o ofício com o sogro?
Maria Odília – Embora eu tenha presenciado e vivido o início do rádio em Bauru, eu aprendi o ofício com os meus filhos, depois que eles começaram a trabalhar com comunicação. Nessa época, meu marido, que foi juiz de paz, já estava aposentado e se afastou. Eu trabalhava no financeiro da empresa. Meus três filhos nasceram na Bela Vista, onde hoje é a sede da TV Tem. Eles gostavam demais do mundo do rádio, dos auditórios...
JC – A senhora ainda dá os seus “pitacos” na rádio da família?
Maria Odília – Eu ainda vou à rádio, com certeza. Eu me acostumei com o trabalho e sinto falta. Além do mais, dizem que eu levo bons fluidos (risos).
JC – Quais sãs as suas memórias quando o assunto é o passado do rádio?
Maria Odília – Eu acho que o rádio mudou, sim, mas na forma de transmitir as notícias e na programação musical. Em minha opinião, as mudanças não foram tão bruscas assim. Antes havia o auditório, acho que essa é a grande diferença. O rádio fazia o papel que a TV tem hoje. Acho que podemos colocar assim. As radionovelas faziam muito sucesso. A gente imaginava os mocinhos e as mocinhas... Cada um pensava à sua maneira. O rádio fazia muito bem porque despertava a imaginação e fazia a gente pensar e sonhar (risos). A TV de hoje é um escândalo, fazem de tudo pela audiência. O que eu gosto de ver é um jornal bem feito.
JC – A senhora recebia os artistas do rádio em casa?
Maria Odília – Praticamente todos os cantores do rádio passaram por Bauru e a gente recebia, sim, alguns em casa. Conheci muitos deles pessoalmente: Orlando Silva, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Isaurinha Garcia, As Irmãs Batista...
JC – Qual é o poder do rádio?
Maria Odília – O rádio sobreviveu às mudanças tecnológicas e ao surgimento de outros meios de comunicação porque ele é o companheiro para todas as horas e lugares. Você pode ouvir um rádio em qualquer lugar. No carro, por exemplo, ele é fundamental.
JC – O que a senhora mais gosta no rádio?
Maria Odília – Gosto dessa força e dessa facilidade que ele tem em chegar aos mais diversos lugares, sem distinção alguma. Eu, por exemplo, adoro ouvir meus noticiários quando saio de casa. Já minhas músicas preferidas são as regionais, a música caipira, a nossa música. Hoje ela está diferente, eles falam que é universitária. Está graduada (risos).
JC – O senhor João Simonetti se destacou pelo pioneirismo, inclusive na TV.
Maria Odília – Sim, meu sogro tinha uma mente brilhante. Além da estação de rádio na cidade, ele foi pioneiro na TV do interior da América do Sul com a criação da TV Bauru, na década de 1960. Mas ele também foi o primeiro a criar muitas outras coisas no município, como a pasteurização de leite. Também trouxe o cinema falado para a cidade, uma fábrica de móveis, outra de espelho... A única coisa que ele não sabia era mexer com as finanças (risos). O dinheiro para ele não tinha valor, mas essas pessoas muito inteligentes não ligam mesmo para o dinheiro.
JC – O artesanato ocupa, hoje, boa parte do seu tempo?
Maria Odília – Na verdade é um hobby do qual eu gosto muito. Eu faço muitas coisas: caixas de madeira, crochê, crochê endurecido, aplicação, bordados em chinelos, bordados com pedraria... Eu decoro as festas da família com o meu artesanato. E fica tudo muito lindo, os netos adoram. Na Páscoa, por exemplo, eu coloco chocolate dentro de uns coelhos que fiz de crochê duro (risos).
JC – Como foi a sua infância?
Maria Odília – Eu fui criada na fazenda até os 10 anos de idade. Eu pescava, nadava, corria, pulava, andava a cavalo, caçava com o meu pai... Parecia um menino (risos). Quando vim para Bauru, sofri por ficar distante daquela vida, mas um dos meus tios tinha uma fazenda e eu corria para lá nas férias.
JC – Qual é o segredo para tamanha disposição aos 93 anos?
Maria Odília – Eu acho que sou assim por ser filha de espanhola (risos). Minha mãe era espanhola e viveu até os 102 anos, lúcida, como eu estou agora. Ela nunca fez uma cirurgia sequer e morreu sem ficar doente. Ela tinha muita disposição e era vaidosa, herdei isso dela. Mas ela não era tão falante como eu sou. Na aparência eu sou ela, mas o gênio é do meu pai. Adoro política. Fui convidada ao menos duas vezes para ser candidata a vereadora, mas eu não aceitei. Eu gostava mesmo era de trabalhar, de pedir votos de casa em casa, assim era feito antigamente. Eu também puxei a coragem de meu pai, até já enfrentei bandidos (risos).
JC – Enfrentou bandidos?
Maria Odília – Dois assaltantes entraram em casa, meu marido estava no início do Alzheimer, ele ficou seis anos doente e o meu filho, Sílvio Carlos, está também. Bom, eles entraram em casa e levaram mais de 20 peças de joias. Minha fé é inabalável, acho até que também é por isso que eu vivo tão bem. Enfim, pedi proteção e entrei na casa, eu não podia deixar o meu marido sozinho. Um deles estava com ele e o outro colocou uma arma na minha cabeça. Com firmeza, eu disse para ele tirar as mãos de mim e parar de apontar aquela porcaria contra a minha cabeça. O que mais me entristeceu foi que eles levaram um revólver 38, com cabo de marfim, que o meu pai deixou para mim. Era uma joia para mim, inclusive estava guardado sem balas. Foram-se as joias, mas os meus dedos ficaram, graças a Deus.