Tribuna do Leitor

O avião


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Isso se deu por volta de 1914, quando os primeiros aviões começaram a sobrevoar os céus do interior do nosso Estado. Um velho tabaréu que habitava um eito de cerrado, entre Bauru e Lençóis Paulista, vivia com sua família numa choupana de barrote e coberta de sapé, onde gozava a fama de ser curador, benzedor e feiticeiro. Vivia de doações e pequenos pagamentos que recebia pelas rezas e benzimentos realizados na região, em todo tipo de dificuldades que apareciam as pessoas do lugar recorriam àquele misto de bruxo e benfeitor. Seu serviço e poder se revelavam em varias atividades que iam de um simples benzimento de uma criança até trabalho para desmanchar casamento, passando por benzer pessoas e animais ofendido de cobra, e muitas outras atividades ligadas ao misticismo, alimentado pela necessidade e ignorância da população rural e dos arrabaldes das pequenas vilas. Tudo isso lhe dava uma certa respeitabilidade.

Na choupana onde morava, em meio ao cerrado, conservava na porta do rancho umas árvores de angico que serviam para amarrar os cavalos dos vizinhos que o procuravam para as mais diferentes tarefas. A mais recorrente era benzer bois infestados de berne, pois diziam que o tal benzedor era levado até o sítio do freguês e lá mesmo no pasto era mostrado o boi que estava doente e ele, de posse de seu inseparável rosário, ia fazendo orações em volta da rês infectada e, ao término das orações, os bernes caiam como mágica. Outra especialidade daquela figura mística que habitava o cerrado na região de Bauru era o domínio sobre as cobras, diziam que em sítio que ele benzia as cobras não picavam as criações, por isso ele era constantemente chamado a fazer suas rezas nas divisas das fazendas, onde ia desfiando seu rosário que ele mesmo fazia com sementes de árvores do cerrado.

Uma frondosa paineira próxima do rancho servia como sombra para as intermináveis conversas com os caipiras da região que gostavam de ouvir suas bravatas de benzedor onde, nas quais sempre realizava verdadeiros milagres. Dizia ele que suas rezas tinham o poder de modificar o destino das coisas, e reconhecia que somente uma vez suas orações não surtiram os efeitos desejados; e, incorporando um personagem de extrema humildade, narrava a seguinte estória: "- Um dia desses, já tava quase escurecendo, eu tinha acabado de chegar dum trabalho que fui fazer num sítio a respeito de um boi picado de cobra, soltei o cavalo e sentei aqui na sombra da paineira e comecei a fazer um cigarro e quando tava picando o fumo eu escutei umas buias que vinham lá dos altos do espigão. Fiquei assustado porque era um estrondo muito grande, como num tava de chuva eu pensei: não pode ser trovão.

Num demorou nada já uma coisa esquisita que parecia um gavião muito grande que vinha no rumo da minha casa e veio vindo tentiando por baixo das nuvens, eu corri, peguei o rosário, botei os joelhos na grama e comecei rezar e fui rezando. O trem veio vindo e quando eu vi que não tinha jeito deu desviá aquela coisa desconhecida, eu só pedi pra deus não dexá aquilo assenta na minha painerona. Aí, sim, fui atendido."

Lázaro Carneiro

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