Depois do vexame do escoamento da nossa safra de soja de 2013 (que se repetirá por muitos anos, infelizmente) para os países compradores, parece que o país começa a acordar e a se preocupar com outros modais (tipos) de transportes além do rodoviário que há anos vem dando mostras de esgotamento e inadequação. A atual concessionária da exploração na malha férrea que passa pela nossa cidade, a ALL (América Latina Logística), tem feito investimentos enormes, de milhões de reais e geração de centenas de empregos ferroviários na vizinha cidade de Araraquara por conta da exploração da cana de açúcar e seus derivados e do suco de laranja. Nós não temos esses produtos, mas temos a ferrovia, as locomotivas e os vagões de carga que poderiam estar transportando a cana de açúcar, o álcool e os subprodutos do setor sucroalcoleiro de Jaú, Lençóis Paulista, Pederneiras e região. As cifras são impressionantes, beiram aos RS 20 milhões com a geração de mais de 200 empregos, além dos já 600 já existentes na cidade. A Coca-Cola Brasil e a JBF Industries da Índia vão investir na cidade R$ 1 bilhão de reais para explorar a cana como matéria prima na confecção de embalagens recicláveis gerando 1.650 empregos diretos e indiretos no setor industrial.
Enquanto isso, em Bauru, a ALL discute retirar parte dos trilhos do centro da cidade para escoar minério de ferro para o porto de Santos, pois a passagem do minério pelo centro de Bauru poderia causar problemas relacionados à poluição ambiental e acidentes. É um investimento de vulto com a compra de 200 locomotivas novas, mas sem repercussão para a cidade. O que ganhamos com a retirada das linhas da cidade? Nada, pois como foi dito em reportagem do Jornal da Cidade (ALL estuda anel ferroviário para Bauru ? Política ? página 03 ? dia 07 de maio de 2013), esse anel seria feito para retirar os trens do seu curso natural e Bauru continuaria a ser só passagem de trens ao invés de ter investimentos que possibilitassem a geração de empregos e pagamento de impostos por parte da concessionária. Essas novas 200 locomotivas deveriam gerar para nós 200 novos empregos de maquinistas. As perguntas que ficam são: Por que Bauru com toda uma infra-estrutura ferroviária, a maior do interior do Brasil, não recebe esses investimentos no sentido de geração de empregos e impostos? Por que os nossos vereadores, em uma Câmara com outro perfil e renovada, não se preocupa em preservar esse patrimônio que não é só histórico, mas real, concreto, viável e operante? Por que não estabelecemos contatos políticos com as cidades vizinhas para explorar a cana-de-açucar, os seus subprodutos e riquezas através da ferrovia e indústrias?
Além das questões econômicas aqui levantadas, existe também a questão histórica, de Patrimônio Cultural, pois com a retirada de parte dos trilhos do centro, poderá engrossar o volume daqueles que não aceitam esse patrimônio e querem vê-lo retirado da cidade como se não tivesse utilidade ou não fossem a causa do nosso sucesso como cidade. Na mesma reportagem, do dia 7 de maio, o prefeito municipal afirma textualmente que: "... Além disso, a malha que corta a cidade... poder ser disponibilizada para o transporte de passageiros" dando um alento para a questão histórica como que se lembrando que existe um projeto cultural, baseado em lei chamado Projeto Ferrovia Para Todos, que não poderia ser mais realizado se os trilhos fossem retirados do centro. As nossas estações ferroviárias seriam apenas um recado às futuras gerações, que nós, possuidores de um tesouro valioso em tempos de engarrafamentos e poluição, fizemos questão de jogá-lo fora.
A questão histórica não está separada da econômica e devem ser tratadas com seriedade e criatividade. A economia gera os recursos necessários para a sobrevivência material, mas a cultura e a história nos dão força espiritual e forjam a nossa identidade para o futuro. O futuro é agora não devemos ficar de costas para ele, vamos tratar a questão econômica e histórica cultural ligada à ferrovia e ao seu patrimônio remanescente com mais vontade, seriedade, criatividade e coragem.
O autor, Fábio Paride Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião