Política

Oposição sindical para coletivos e quer ?negociação paralela? com as empresas

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Milhares de trabalhadores bauruenses foram surpreendidos na manhã de ontem. Entre as 5h e 7h da manhã, os ônibus do transporte coletivo não saíram das garagens, sem qualquer aviso prévio. Uma paralisação foi organizada por motoristas e cobradores, descontentes com a proposta de reajuste salarial das empresas concessionárias do serviço, aprovada ontem em assembleia do sindicato da categoria. No entanto, este foi mais um capítulo da rixa interna que divide a diretoria da entidade e um grupo de trabalhadores que não a reconhece.

Líder do “movimento paralelo”, o cobrador Valter Dutra Pereira informa que não há previsão de mais paralisações ao longo desta semana. Mas, na próxima, novas manifestações podem ocorrer caso não haja melhorias na proposta das empresas do transporte coletivo. “Se ocorrer, vamos publicar edital no jornal e panfletar com o objetivo de avisar a população, mantendo o mínimo de 30% do efetivo nas ruas, como manda a lei”.

O grupo, porém, reivindica a negociação direta com as concessionárias sem o intermédio do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sintran), por meio de uma comissão paralela.

“Provavelmente na sexta-feira, vamos protocolar documento solicitando essa reabertura da discussão com uma comissão formada por nós. Temos o apoio dos trabalhadores, tanto que a paralisação foi de 100% nesta manhã. Não forçamos ninguém a aderir”, argumenta Dutra.

A diretoria do Sindtran, no entanto, frisa sua legitimidade em atuar e alega que, em assembleias realizadas em três turnos na última terça-feira, 133 trabalhadores votaram favoravelmente à proposta do dissídio 125 se manifestaram contrários. Ao todo, são 580 motoristas e cobradores contratados das três empresas que prestam o serviço.

Presidente do sindicato, José Rodrigues da Silva classifica a paralisação de ontem como ato de desrespeito à população e ressalta que a entidade não tinha conhecimento da mobilização. “Não podem tumultuar porque perderam. A assembleia foi democrática. Nós só levamos a proposta e colocamos em votação. Agora, vamos trabalhar para tivo”.

Contestação

Valter Dutra, líder da paralisação de ontem, afirma que, dos 258 votantes, cerca de 58 atuam em outras funções dentro das empresas e não pertencem à categoria que o sindicato representa. Ele diz ainda que muitos trabalhadores que deram o nome não votaram.  “O sindicato não contabilizou todos os votos. Pediram para que os contrários levantassem a mão, mas não contavam os favoráveis, apenas deduziam pelo número de assinaturas”, alega.

O presidente da entidade, porém, rebate a informação e garante que o processo se deu de forma legítima.

“É mentira que estavam funcionários de outras categorias. Nós nos empenhamos na negociação e, se houvesse uma negativa dos trabalhadores à proposta, nós reabriríamos o debate. Agora, se tem alguém querendo ganhar R$ 3 mil por mês, tem que procurar outro lugar”, diz José Rodrigues.

Rixa antiga

Líder da mobilização de ontem, Valter Dutra era vice-presidente do sindicato até o ano passado. No entanto, antes do fim da gestão, rompeu com o restante da diretoria e, durante o período eleitoral para o pleito municipal, organizou paralisação sem aviso prévio e sem anuência do Sindtran.

Em fevereiro deste ano, houve eleição para a diretoria da entidade. Valter montou sua chapa de oposição, mas a atual diretoria foi reeleita por esmagadora maioria. Havia ainda outras duas chapas concorrentes. O clima da disputa foi tão acirrado, que o começo da votação foi marcado pelo vandalismo, inclusive com bombas.


Prefeito: ‘Uma grande sacanagem’

O prefeito Rodrigo Agostinho passou a quarta-feira na capital do Estado, cumprindo agenda junto ao Palácio dos Bandeirantes. Ele só viajou após a normalização dos serviços. “Achei uma grande sacanagem. Pessoas esperaram das 5h às 7h30, no frio. Pegaram todo mundo de surpresa”. Ele lembra o fato de as assembleias realizadas no dia anterior terem aprovado a proposta das empresas concessionárias. “Prevalece a vontade de uma minoria que faz oposição ao sindicato. Manifestações são legítimas, mas até para greves há regras”.

O presidente da Emdurb, Nico Mondelli, frisou que existe uma entidade com representatividade legal.

“Como esse grupo pretende fazer algum tipo de negociação paralela?”.


Transurb nega negociação alternativa

Consultada pelo JC, a Associação das Empresas do Transporte Coletivo de Bauru (Transurb), que representa as três concessionárias do serviço, enfatizou que só negocia com a entidade representante legal da categoria, no caso o Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran).

Em nota, o grupo disse que estão sendo avaliadas por seu departamento jurídico quais providências serão tomadas diante da paralisação desta quarta-feira. Além disso, a Transurb endossou que manterá a proposta de reajuste apresentada e já aprovada em assembleias dos motoristas e cobradores. A associação oferece 8,52% de reajuste salarial e vale alimentação de R$ 360, diante dos R$ 330 pagos hoje. Consta ainda na proposta pagamento de 21% na Participação de Lucros e Resultados (PLR).

Os manifestantes reivindicam aumento de 12% no salário. Para o vale alimentação, o pedido é de R$ 400,00. Além disso, querem também aumento na comissão de catraca, que ganham a partir do que arrecadam as linhas. Hoje, ela é de 1% para as tarifas pagas por cartão e 1,5% por dinheiro.

“Queremos pelo menos 2%. Alguns motoristas conseguem ganhar R$ 180,00 ou R$ 200,00. Varia bastante”. Em relação a este item, o Sindtran diz que propôs negociar um valor fixo, mas a proposta não foi aceita pela própria categoria.

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