Geral

Profissão porteiro

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 6 min

Ele é o profissional que monitora a entrada e saída de pessoas e automóveis, zela pela ordem e segurança no local, recebe e distribui correspondências, presta informações e encaminha pessoas. Além disso, dá aquela “forcinha” sempre que solicitado com as compras e objetos pesados e, muitas vezes, é encarregado da ingrata missão de despachar visitantes indesejáveis. O responsável por todas estas ações é o porteiro, que tem seu dia comemorado hoje, 9 de junho. Boa comunicação, “jogo de cintura”, atenção e simpatia são alguns dos atributos necessários para o bom porteiro, de acordo com os próprios profissionais da área.

A relação com eles não raro costuma extrapolar o lado profissional e caminhar para a amizade e intimidade com o comandante da portaria. É o caso de Ismael Ferreira dos Santos, que tem mais de 20 anos na profissão, 17 deles no mesmo edifício, localizado no Centro de Bauru. “Se eu ficar de férias, eu vou ao prédio visitar. Sou realizado e feliz com meu trabalho e amigos que tenho lá”, resume o porteiro o vínculo de confiança e carinho com os moradores desenvolvido no período em que trabalha no local. “Tem moradores que vêm à minha casa jantar comigo”, orgulha-se.

Curiosamente, a relação de Santos com o condomínio onde trabalha atualmente começou antes mesmo do prédio ficar pronto. “Trabalhei na construção, saí, fiquei um ano fora, voltei e estou até hoje. Faz 17 anos que estou lá”, conta. Santos, na época da construção do edifício, atuava como porteiro em um hotel também no Centro da cidade e recebeu do engenheiro responsável pela obra o convite para trabalhar lá.

“Ele estava hospedado no hotel e me chamou. Eu fui, fiz um curso em Ribeirão Preto e comecei a trabalhar. Depois eu fiquei um ano fora para voltar como porteiro e ficar até hoje.”

Santos afirma que a profissão de porteiro surgiu em sua vida por necessidade. Recém-casado, a busca por emprego o levou abraçar a função. Porém, hoje, garante estar realizado em sua carreira e com as relações pessoais que ela proporcionou. “Eu gosto muito desta profissão. O lugar onde trabalho é uma família. Minha filha teve um acidente no trânsito e ficou 40 dias na UTI. Eles (moradores) fizeram uma lista e arrecadaram quase R$ 10 mil. Eu tive dificuldade financeira e todos os produtos que ela precisava foram supridos. Sou muito grato”, relata.

Além disso, Santos afirma que a função passou por valorização em suas mais de duas décadas de profissão com as mudanças sociais no País. “Hoje está muito mais valorizado, até pela violência. É um cargo de extrema confiança, existe uma necessidade. Está valorizadíssimo e até o pagamento da gente melhorou bastante. Antes, a gente trabalhava na portaria e ficava escondidinho. Hoje, não”, avalia.

Ciente da responsabilidade que proporciona a valorização da categoria, Santos lista princípios fundamentais no exercício da profissão porteiro, principalmente na questão da segurança do condomínio.

“O porteiro tem que seguir muitas normas. Basta ver na televisão o que acontece. O porteiro deixa entrar o florista, o entregador de gás e o morador sofre sequestro. Então, tem que ter um jogo de cintura muito grande”, explica. “No meu caso, já conheço parentes e amigos. Quando eu já conheço, deixo entrar e aviso em seguida”, acrescenta.

Além disso, Santos ressalta que é preciso perspicácia e uma boa dose de intuição para conhecer a personalidade de cada morador e seu humor. “O ser humano é diferente um do outro e a gente tem que saber o limite de cada um. O porteiro tem que saber isso, senão ele se expõe e é mandado embora”, conclui.


Desafios da noite

Trabalhando há mais de 20 anos à noite e há 17 no mesmo local, o porteiro Ismael Ferreira dos Santos constata a piora da segurança no Centro da cidade, o que reflete imediatamente em sua atuação na portaria do condomínio. “Há uns dez anos, o jeito de trabalhar era um. Hoje, no Centro, modificou muito por causa dos usuários de crack. Nós temos que trabalhar com atenção redobrada”, observa.

Santos costuma ter noites agitadas e os momentos de tranquilidade no trabalho ficaram no passado, substituídos por uma necessidade de vigilância constante. “Eles levam antena de carro, o que tiver. Andam a noite inteira e vêm oferecer eletrodoméstico, lâmina de barbear, capacete... E a gente não quer comprar, brigam e falam ‘você está achando que eu sou ladrão’. Tentam quebrar o vidro da portaria. Está complicado. Isso estressa. Nesta parte está ruim”, desabafa. Ferreira revela que outro motivo de apreensão é o portão da garagem. “Tem que ficar de olho, senão eles entram mesmo e podem causar algum tipo de problema”, aponta.


Lanche da madrugada

O vínculo de Ismael Ferreira dos Santos com os moradores do condomínio é tão próximo que originou uma curiosa relação: o lanche da madrugada. Durante as horas de trabalho, o porteiro recebe todo tipo de alimento dos empregadores. “A maioria dos moradores é de pessoas de idade e come pouco. O que eles fazem durante o dia, guardam um pouco mandam para o porteiro”, comenta Santos. O aviso do lanche da madrugada vem pelo interfone e a entrega é feita via elevador.

O porteiro revela que recebe verdadeiros banquetes de madrugada com direito a doces, frutas, pães, bolos, suco, café, chá e pratos quentes. “É muita coisa. Eu não consigo comer tudo. Eu ganho tanto lanche que tenho que levar para casa”, admite. Com os banquetes noturnos, o porteiro só precisa ficar atento para manter a boa forma. Para isso não dispensa as caminhadas no final da tarde logo após o dia de sono.

Santos revela que os laços de amizade, que se aprofundaram durante as quase duas décadas de serviço no mesmo condomínio, explicam os mimos da madrugada. “Isso começou com o meu jeito de ser. Eu trato as crianças do prédio como trato os meus filhos. Os moradores eu trato como um amigo, com respeito. Não trabalho com aquele negócio de que o porteiro tem que ser só profissional, levo também um pouco para o lado pessoal, da amizade, da camaradagem. E o pessoal gosta disso, não gosta daquela frieza”, acredita. O porteiro afirma que os cuidados e atenção se estendem aos idosos do prédio, dos quais ajuda a cuidar.


O invasor noturno

Tantos anos tralhando à noite renderam ao porteiro Ismael Ferreira dos Santos algumas boas histórias para contar. Uma delas ocorreu em uma madrugada quando ouviu barulhos nos fundos do prédio, flagrou um invasor e teve que agir. “Tenho um simulacro de arma de fogo, que ganhei dos meninos do prédio e guardo na gaveta. Ouvimos o barulho, mas tem muito gato naquele lugar Mesmo assim, fui ver.”

Santos se deparou com o invasor. “Chegando lá, tinha um cara igual uma lagartixa, grudado no canto da parede com uma faca na mão e um monte de cartões de crédito. Eu corri na portaria e peguei o simulacro. Eu coloquei o cara próximo à portaria e fiquei olhando até a polícia chegar”, narra o porteiro, que fez as funções de segurança.

Em outra ocasião, Santos efetuou um trabalho investigativo. “Um carro parava todo dia no portão da garagem com os vidros escuros fechados e buzinava para eu abrir o portão. E eu não abria. Eu consegui com o celular de longe fotografar a placa e localizaram. Não era morador e estava tentando entrar no prédio por algum motivo”, conclui. 

Comentários

Comentários