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Entrevista da semana: José Carlos Tosi

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Éder Azevedo

O médico já soma quatro décadas de trabalho com a oftalmologia

Ele é conhecido na cidade por seu trabalho com a oftalmologia - já são quatro décadas de experiência - e por sua paixão por carros antigos. “Construímos sonhos”, diz o personagem da Entrevista da Semana de hoje, José Carlos Tosi, sobre o hobby que já virou estilo de vida: colecionar carros antigos.

A medicina entrou na vida de Tosi com um empurrãozinho do pai, que foi caixeiro viajante e realizou o sonho de formar três filhos médicos. Foi no Rio de Janeiro que o oftalmologista buscou o sonho compartilhado com ele: “Enquanto meus amigos iam para a praia, eu vendia os sapatos que o meu pai mandava para ajudar nas despesas. Mas foi uma época maravilhosa. O Rio era uma cidade fantástica. Não havia drogas e a gente se sentia seguro por lá”, lembra.

A paixão por carros antigos começou também com a admiração pelo pai. “Eu queria apenas ter um Ford Baratinha, igual ao do meu pai, mas com o motor mais potente. Consegui. Depois veio o sonho de ter um Ford 1940. Precisei comprar três exemplares para fazer um. Este é o meu xodó. E os outros vieram aos poucos”, revela.

Casado com Maria de Lourdes (Lu Tosi), Tosi tem duas filhas (Mariângela e Mariluci) e quatro netos. Confira estas e outras histórias, a seguir.


Jornal da Cidade - Quando o senhor se encontrou com a medicina?

José Carlos Tosi - O meu pai foi um homem muito inteligente e ousado para a época. A medicina era e ainda é uma das melhores profissões. E ele, como um homem que pensava no futuro, fazia uma coisa muito interessante, ele estimulava a gente. Como era caixeiro viajante, ele conhecia muitas cidades e, quando a gente viajava com ele, ele passava em frente às casas bonitas e nos dizia: olha que casa bonita, meus filhos, é casa de médico. E ele nos estimulava dessa forma. Como eu já gostava da profissão, sempre me dei bem com a biologia, vi que a medicina realmente era o melhor caminho a ser seguido. Nunca tive dúvidas. Somos quatro irmãos e meu pai teve a ousadia de formar três médicos, sendo caixeiro viajante. Realmente foi difícil, mas ele foi um homem incrível e um pai maravilhoso.   

JC - Quais momentos marcaram a sua infância?

Tosi - Minha infância foi um pouco difícil por causa das condições econômicas. Meu pai viajava muito e a gente ficava com nossa mãe. O meu aniversário é 14 de julho, uma data sem comemoração alguma por perto, e um dos meus irmãos comemora o nascimento no começo de novembro, data de Finados. Sendo assim, em todos os seus aniversários o nosso pai estava em casa e nos meus, não. Custou até eu entender essa questão de feriados (risos). Outra lembrança muito forte diz respeito à “Baratinha 1929”, um carrinho fraco que o meu pai teve. Eu sentava nele e dizia que um dia teria um carro daqueles, mas com o motor forte. E hoje eu tenho, inclusive tive a felicidade de ver o meu pai andando nele. Quando melhorou de vida, ele teve um Ford 1940, e eu comprei três carros para fazer um igual, com peças originais. Ele também andou nesse meu carro. 

JC - Imagino que a faculdade de medicina também tenha rendido momentos inesquecíveis.

Tosi - Eu fiz medicina no Rio de Janeiro, Praia Vermelha. Eu não tinha dinheiro e a cidade era cara. Mas a gente se virava. Meu pai mexia com sapatos e eu vendia por lá, enquanto meus amigos iam para a praia. A gente dava plantões em Petrópolis nos últimos anos da faculdade e conseguia ganhar algum dinheiro. O Rio era lindo e agradável. Um compadre meu tocava violão e a gente saía para tocar na praia. Tudo sem perigo. O Rio de Janeiro era uma maravilha. A gente morava perto de uma favela e ninguém mexia com a gente. O pessoal da comunidade nos protegia, porque a gente ajudava como médicos, nos plantões... Mas a cidade era diferente, não havia drogas. 

JC - Em algum momento você pensou em viver por lá?

Tosi - Não, eu queria voltar para o Interior. Eu tinha a minha noiva em Jaú e gostava de cidades menores. Depois da formatura eu vim direto para Bauru, uma cidade que eu sabia que cresceria, que acolhe todo mundo e ajuda as pessoas que mostram o seu valor. Mas, antes disso, cheguei a pensar em me casar e me aventurar pelo Mato Grosso. Contei para o meu tio médico e, passando por uma estrada de terra entre Jaú e Itirapina, no meio de um barro danado e chuva, à noite, ele me pediu para parar e olhar para o lado. Havia um bar com uma única lâmpada acesa e uns três ou quatro homens bebendo. Ele me perguntou se era aquilo que eu queria. Eu entendi. Aquele poderia ser o meu futuro no interior do Mato Grosso. Eu ganharia dinheiro, mas não teria onde gastar ou o que fazer no dia a dia. Olhei para ele e disse: vou fazer oftalmologia e ficar por aqui. 

JC - Por que a oftalmologia como especialidade?

Tosi - Desde criança eu tenho muita destreza nas mãos. Sou míope, e o míope enxerga muito bem de perto, o que sempre me ajudou a fazer cirurgia de catarata, principalmente quando não existia microscópio para isso. Começou por aí, aliado ao fato de eu não gostar de dar plantões e por influência de um tio, que era um bom anestesista em Petrópolis. Eu queria seguir a especialidade dele, comecei a estudar com ele, aprendi muito. Mas ele me aconselhou a fazer oftalmologia, eu segui os seus conselhos e sou muito grato por isso. Eu sempre gostei muito de ouvir os mais velhos, como o meu pai e tios. Graças a Deus. Hoje, eu e meus irmãos somos oftalmologistas. E minha filha, também (risos). Assim como eu fiz com meu pai e meu tio, ela me disse para iluminar os caminhos que ela seguiria. 

JC - O que é ser médico?

Tosi - Saber que você tem o poder da cura nas mãos é algo fantástico. Tenho uma história sobre o pai de um médico que foi ficando cego por causa da catarata. Ele gostava muito de ler, passava as mãos sobre os livros da estante e não via nada. Eu o operei e ele remoçou, reviveu. Voltou a ser ativo. Saber que as minhas mãos podem operar essa dádiva, tirar pessoas de dificuldades grandes, é uma sensação muito boa. 

JC - Voltando à “Baratinha” do seu pai, ela foi o pontapé inicial para a sua atual coleção?

Tosi - Sim. No início, eu queria apenas ter um Ford Baratinha. Consegui. Depois veio o sonho de ter um Ford 1940. Custou para eu conseguir, tanto que precisei comprar três exemplares para fazer um. E os outros vieram aos poucos. Mas o Ford 1940 é o mais especial porque ficou igualzinho ao que o meu pai teve. Meu neto está com 17 anos e já adotou essa minha paixão, tanto que viaja comigo para as exposições.

JC - O senhor também constrói alguns modelos, certo?

Tosi - Eu gosto de dizer que construímos sonhos. A história do Pelé muita gente já conhece, teoricamente o carro que foi dele está comigo, agora. E eu tenho um funcionário que me disse: vamos fazer um carrinho desse? Bom, ele fez. Depois produzimos alguns deles. Os amigos pedem e a gente faz. É uma delícia você entrar em um carro que você mesmo fez.

JC - O senhor também promove eventos de aeromodelismo.

Tosi - Atualmente eu sou presidente do Clube de Carros Antigos, sou presidente do Lions e estou começando no aeromodelismo. Estou gostando tanto que tenho uma pista em casa, o Tosi Airmodel Club, que já promoveu eventos até com a Esquadrilha da Fumaça. Tem um pessoal que voa que é uma maravilha.

JC - Ainda há um sonho para realizar?

Tosi - Honestamente, não. Ou melhor, o que eu quero é ver os meus netos crescerem e para curtir a vida como eu curti. O meu neto mais velho, por exemplo, está querendo fazer medicina, também oftalmologia. Uma filha trabalha comigo e a outra, que é nutricionista, está com a mãe no spa. Eu já tive problemas de saúde, mas me curei. Então só tenho a agradecer. Eu estou engajado em alguns movimentos da cidade, como uma atual ação para conseguir uma casa para um paraplégico, ao lado de motociclistas da cidade. Vamos preparar algumas ações para isso. Eu acho que você precisa ter boa vontade e trabalhar para ajudar. Você não pode simplesmente ficar sentado.

 

Perfil

Nome: José Carlos Tosi

Cidade: Jaú/SP

Signo: Câncer

Esposa: Maria de Lourdes

Filhos: Mariângela e Mariluci

Hobby: Carros antigos

Livro de cabeceira: Obras de Jorge Amado

Filme preferido: Gosto de documentários

Estilo musical predileto: Samba

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: Para a minha família

Para quem dá nota 0: Para a maldade humana

E-mail: jctosi@uol.com.br

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