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Bolinho de feijoada

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Estou no Rio no cumprimento de um roteiro nostálgico. Foi aqui que tudo começou. Ou melhor, se consolidou com a minha Eliane. Bons tempos aqueles... Como se ganhava pouco! A quinta massa fria vinda do Sul foi desmoralizada pelos cariocas. Céu azul e sol intenso. Um chope gelado em Copacabana e andar pela praia até o Leblon. Estranha e bela a confraria dos caminhantes. Em poucos anos, esta onda avassaladora invadiu o calçadão da praia. Uma multidão de andadores, cultores da boa forma, ou simplesmente de estoicos cumpridores de ordens médicas em benefício das coronárias. Tudo muito democrático: moços e velhos; gente de todas as etnias que falam inglês, russo, francês, espanhol, italiano. Gatinhas esculpidas e gordotas esbaforidas. Homens de meia idade, com a evidente protuberância que denúncia anos e anos de muita cerveja. Na camiseta de um deles leio: "o homem que não tem barriga, não tem história". Ilustra a frase o desenho de um barrigudo cercado de meninas. Vejo rapazes saradões, de mãos dadas. Artistas globais passam anônimos. Zeca Camargo, pelo jeito continua na luta contra o peso. Ser carioca é não ligar para os famosos. Pedir autógrafo ou uma foto é o máximo da breguice. Muito mais intelectualizado é fazer um flagrante ao lado da estátua de Carlos Drummond de Andrade, a segunda mais visitada depois do Cristo. Parece estar ali para conversar com as pessoas. Despertou o afeto do povo. Hoje ninguém mais rouba os seus óculos ? substituído oito vezes ? ou faz pichações. Na orla o turista topa com homenagens a Ari Barroso, no Leme, Ibrahim Sued, em bronze saindo do Golden Room do Copacabana Palace e, a mais recente, a do Millôr Fernandes com seu perfil vazado em concreto, sentado em um banco onde se vê o pôr do sol de Ipanema.

O Rio está preparado para uma série de eventos. A Copa das Confederações neste mês. Jornada Mundial da Juventude, com a presença do Papa Chico, na irreverência carioca, em julho. Depois o Rock in Rio com cem atrações em setembro e a Copa do Mundo de Futebol, no ano que vem. Todos os prestadores de serviços aprenderam inglês nas aulas gratuitas da Rio Tur. Pão de Açúcar, agora é Sugar Loaf. No trânsito, o taxista xinga o porra louca de crazy sperm. Nos restaurantes os cardápios foram vertidos para o inglês à moda da casa: bife à cavalo virou steak to the horse (algo como bife para o cavalo).Meu preferido, o filé à Oswaldo Aranha sofisticou para steak to Osvald Spider. E o escondidinho, coitado, transformado em sun meat litle secret. Na Lapa, revivida como centro da boemia a gente vê tanta polícia que fica sem o mínimo de garantia. Prefiro ir um pouco mais longe, lá perto do Maracanã, no Aconchego Carioca. Kátia, a dona é a inventora do hoje célebre bolinho de feijoada. Tem couve, bacon, feijão preto, evidentemente, e acompanha uns torresminhos mais uma mini-capirinha. Bastam dois e você sai de lá como se tivesse enfrentado um prato completo. Segundo o Claude Troigros, "uma marravilha". Há variações como o bolinho de rabada com feijão branco e o bolinho de moqueca de camarão. A Kátia ficou rica com suas invenções. Já abriu até filial nos Jardins, em São Paulo, onde lançou o bolinho de virado à paulista.

O Alto do Corcovado merece ser revisitado. A vista é única no mundo e, em dias de céu claro o brilho é intenso. A fila para embarcar no trenzinho é desorganizada. Inventaram de fazer venda de ingresso antecipada, pela internet, para diminuir as filas. Não deu certo. Nem aqui e nem para subir na Torre Eiffel ou na Estátua a Liberdade. Em todos esses lugares há filas quilométricas e os estrangeiros aguardam com paciência. Só o brasileiro sente aquela sensação de estar sendo passado para trás. Fila faz emergir um conflito crônico na sociedade brasileira que é o conflito entre a hierarquia e a igualdade. Quem tem status não quer se misturar com a patuleia. Como essa veia hierarquizada é forte aqui, as pessoas sentem um desconforto quando encontram uma situação de igualdade. A despeito da explicação sociológica a fila já é psicologicamente desconfortável. É preciso enfrentá-la, sem perder a compostura. Há momentos adoráveis que é o papo com o vizinho da frente ou de trás. Uma turista italiana me achou parecido com o Peppino Di Capri. Cantei um trecho de "Champagne" e fui aplaudido. Valeu a espera. O Cristo é visto por 2 milhões de pessoas, anualmente. Não é páreo para a torre de Paris (7 milhões), para a Estátua da Liberdade (4 milhões) e a London Eye, aquela super roda-gigante (3,5 milhões). Todas com filas enormes com a obrigação de passar pelos detectores de metais. Este temor, pelo menos, ainda não chegou aqui.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista articulista do JC

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