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Disfarce, você está sendo vigiado

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Mais complicados que o aviso em salão de entrada e elevador com câmera ? ?Sorria, você está sendo filmado?, ou a imagem do diretor vigiando o operário no banheiro, celebrada por Chaplin em "Tempos Modernos", mais complicados são os sistemas de espionagem que os governos estão montando para controlar o acesso à Internet. Hoje, a vigilância ou espionagem está sendo feita em casa, na rua, no restaurante, no trabalho, no transporte. Onde quer que você esteja, aqui ou no exterior, usando telefone, computador, smartphone ou tablet, sinais e palavras estarão sendo filtrados, codificados e cadastrados para, conforme o caso, você ser investigado. A lista é dividida em categorias como "segurança interna", "segurança nuclear", "saúde e gripe aviária", "segurança de infraestruturas", "terrorismo" e outras. Compreende também a presença de expressões e palavras-chave, tais como "bomba suja", "reféns", "sarin", "jihad", "Al-Qaeda". E há, ainda, palavras de uso habitual de qualquer usuário pacífico da Internet como nuvem, neve, carne de porco, químico, ponte, vírus etc. A ficção de George Orwell, no livro ?1984?, o Big Brother, virou realidade.

Os Estados Unidos foram levados a isso, a despeito da tradição de defesa da liberdade individual e da privacidade, para defender-se do terrorismo, de quem são o alvo principal. Mas a China, com seu ?Escudo Dourado?, é para a preservação do poder totalitário, com sacrifício da liberdade individual. Para proteger o país ou para a manutenção no poder, 193 países querem que a ONU, através da UIT (União Internacional de Telecomunicações), crie novas regras para a Internet. Isso deixou algumas pessoas e empresas preocupadas, como o Google, que até criou um site para se opor à medida, porque diversos países propõem aumentar a censura na internet, e reduzir a neutralidade da rede. Facebook, Apple e Microsoft afirmaram não autorizar monitoramento. "Não demos acesso a nossos servidores", diz Larry Page, do Google. Aos poucos, contudo, vão admitindo ou tendo que aceitar na marra, como na China.

A ?primavera árabe?, onde as implacáveis ditaduras islâmicas foram incapazes de evitar a infiltração dos internautas, serviu para mostrar a força que essa nova forma de comunicação assumiu. A imprensa, considerada o quarto poder, que adquiriu maior envergadura quando ao jornal se reuniram o rádio e a televisão, formando o que se convencionou chamar de mídia (media em inglês), tem desmascarado e derrubado governos, inclusive aqui no Brasil. O avanço da tecnologia computacional permitiu a formação da rede global de servidores, a Internet, por alguns chamada de ?computação em nuvem?, e aí não há muralha da China que a detenha. O jornal on-line é a nova dimensão da imprensa. Não adianta a Cristina Kirchner querer calar o Clarim, porque milhões de argentinos estarão empunhando smartphones e tablets para denunciar os seus desmandos, através das nuvens, por e-mail, ?face?, ?twitter?, etc. A caçada internacional ao responsável pelo Wikleaks, que divulgou documentos secretos sobre a Guerra do Vietnã, não serviu para intimidar o ex-técnico da CIA, que revelou o plano ultrassecreto de monitoramento americano.

Por mais que os espíritos totalitários esperneiem, essa mudança é irreversível. Jeremy Rifkin, em A Era do Acesso, diz que um novo tipo de ser humano está surgindo. Que os jovens, que formam uma geração ?mutável?, vivem num mundo mais teatral que ideológico. Para eles o acesso já é uma forma de vida, e embora a propriedade seja importante, estar conectado é ainda mais importante. As pessoas do século XXI provavelmente se percebem como nódulos inseridos em redes de interesses compartilhados, à medida que se veem como agentes autônomos em um mundo darwiniano, de sobrevivência competitiva. O sucesso de venda de smartphones e tablets confirma essa mudança comportamental, todos querem estar plugados, mas é bom estar alerta com a espionagem. O monitoramento é um risco que a liberdade individual precisa enfrentar, para sua segurança.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

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