João Rosan |
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Priscila Alferes: “Hoje os idosos estão muito ativos e se tornaram vítimas em potencial” |
A terceira idade está sem estatística, ao menos contabilizada oficialmente e de forma específica, com relação à criminalidade à qual está exposta.
Pessoas com mais de 60 anos, diferentemente de outros grupos vulneráveis, como as mulheres – que em Bauru possuem delegacia específica para queixas –, os idosos engrossam as estatísticas da criminalidade geral.
Na falta de um distrito policial especializado na região, os crimes contra a terceira idade são de incumbência da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Nem mesmo a Secretaria da Segurança Pública do Estado, contatada pela reportagem, disponibilizou números específicos sobre ocorrências em que as vítimas qualificadas são idosas.
Hoje é comemorado o Dia Internacional de Combate à Violência contra Idosos. A médica Zally Vasconcellos de Queiroz, coordenadora do curso de gerontologia do Centro Universitário São Camilo (São Paulo-SP), fará palestra no Sesc/Bauru no dia 20, às 14h.
Para a especialista, o receio de situações ainda piores após agressões físicas ou verbais impede as vítimas de formalizar as queixas. Quando as ocorrências são registradas, por outro lado, muitas vezes o fato não é relatado integralmente, afirma a médica. “O registro de denúncias é frágil pelo próprio sistema”, considera.
Polícia, conselhos municipais ou estaduais e Ministério Público recebem as denúncias. Porém, salienta, alguns dos principais casos de violência contra idosos acontecem dentro de casa. E é do interior das residências que o registro das agressões leva maior dificuldade em atravessar. “Existe também muito constrangimento. Muitas vezes a agressão é por parte da família”, acentua.
Tapa na carteira
A violência econômica também aflige esta parcela da população. “É comum idosos terem cartões de benefício em poder de filhos ou outros familiares e não receberem nada”, exemplifica.
Apenas entre quarta e quinta-feira desta semana, quatro idosos registraram boletim de ocorrência, no Plantão Policial, dando conta de sumiço de cartões ou de dinheiro da conta.
De fato, além da violência, estelionatários rondam os bolsos dos mais velhos, confirma a delegada Priscila Alferes, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) em Bauru, que recebe denúncias e investiga crimes praticados contra idosos na cidade. “Hoje as pessoas idosas estão muito ativas e se tornaram vítimas em potencial”, avalia.
Embora não haja dados estatísticos, ela afirma que os crimes contra idosos mantêm uma constância na cidade, sem grandes picos de ocorrência, contudo, sempre presentes em meio aos registros.
No Conselho Municipal do Idoso (Comupi), órgão que também não possui contagem estatística, as denúncias são quase que diárias, revela o presidente da entidade, Ubaldo Benjamin. “É praticamente todo o dia e às vezes com os familiares acusados”, completa o chefe da instituição, integrante também do Conselho Estadual do Idoso.
Futuro nebuloso
Para a gerontologista Zally Vasconcellos de Queiroz, as futuras gerações de idosos podem enfrentar problemas ainda maiores. Segundo ela, a maior expectativa de vida do brasileiro – segundo o IBGE, de 74 anos – não acompanha a qualidade de vida, cada vez menor.
Além de maior convivência com doenças crônicas típicas da faixa etária, a população da terceira idade enfrenta a falta de políticas públicas específicas, bem como é mais vulnerável a ser vítima da criminalidade.
“O idoso tende a se tornar dependente física e mentalmente, à mercê de quem está com ele”, exemplifica. “A população idosa aumenta. Quanto maior o número, maior a probabilidade desse cenário acontecer”, lamenta.
Um dos fatores desta “dependência crônica” e progressiva dos idosos em relação aos mais novos, afirma a médica, é a falta de um projeto de velhice ainda na juventude. “Só se pensa na terceira idade quando se chega até ela. Planejar a velhice faz com que a pessoa postergue essa situação de dependência o máximo possível”, recomenda.
Enquanto dependentes, os idosos estão mais imunes a abusos, inclusive crimes e, consequentemente, não denunciam. “Estimulamos que os idosos ponham a boca no trombone”, conclui.
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