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"Um homem pra chamar de seu"

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 8 min

A perspectiva de viver um relacionamento amoroso é muito presente na vida de qualquer pessoa, por mais que se insista com chavões de que “os homens não querem nada”, repetido como mantra por parte das mulheres. Nas rodas masculinas predomina o “estou sossegado”. Esse discurso exteriorizado não define a totalidade dos sentimentos e desejos vivenciados por homens e mulheres, nas diversas fases da vida de um ser humano. É natural a busca de “um parceiro pra chamar de seu”, quase uma paráfrase adaptada para o trecho da música “um homem pra chamar de seu”, composta por Erasmo Carlos.

Mas por que as pessoas procuram relacionamento amoroso nas redes sociais e não na vida real? Quais as verdadeiras intenções de quem está a procura de uma relação? O que o mundo virtual propicia que é impossível de se encarar frente a frente em uma conversa presencial?

Estas questões são enfrentadas pelo pesquisador e professor de filosofia Fausi Santos em um estudo sobre relacionamento amoroso nas redes sociais. O pesquisador se interessou por identificar a quanto anda o complexo jogo da sedução e da busca por parceiro nos sites de relacionamento amoroso, analisando inclusive o comportamento sexual. Para sua trajetória, o pesquisador se cadastrou em três sites desenvolvidos exclusivamente para pessoas quem buscam alguém para relacionamento.

Há um ano e meio, Fausi analisa o perfil dos cadastrados em sites (no Chirpme, do Facebook; Relacionamento Sério; e Be 2) para apontar o que realmente as pessoas buscam, se é somente sexo ou relacionamento sério, e o êxito desta procura via rede social. O trabalho diagnostica o grau de frustração e o tipo de discurso desses atores no mundo virtual.

A frustração do insucesso da relação amorosa na vida real leva a maioria das pessoas a se refugiar nas redes sociais. Santos relaciona o sentimento de frustração causado pela traição e por parceiros que fazem o outro sofrer. “Desilusão amorosa em todos os sentidos”, sugere. Ele acrescenta que são pessoas que geralmente já foram casadas e mães solteiras. Entre os 58% de mulheres com mais de 35 anos cadastradas nos sites pesquisados, ele observa que há um elevado número de pessoas que já são mães – na faixa de 1 a 2 filhos.

A pesquisa encontrou que o homem ideal nos sites de relacionamento precisa oferecer carinho, atenção, afeto, presença, companheirismo e que não olhe a companheira como objeto sexual. O pesquisador frisa que as mulheres em sites de relacionamento pesam muito sua opção de parceiro pela questão sexual. A escolha pelo mundo virtual, dos sites de relacionamento, deve-se ao fato de que os homens de carne e osso frustram porque focam o corpo e o sexo. Pelo perfil apresentado no site, a mulher adequa seu ideal de companheiro perfeito ao cardápio que o mercado virtual disponibiliza.

 

Dados

O estudo aponta uma disparidade entre intenções. Entre as mulheres, 90% declaram que desejam relacionamento sério, enquanto que entre os homens somente 47% procuram um relacionamento sério. Cruzando essa intenção com o perfil etário vem à tona uma possível explicação. Entre as mulheres, 58% têm mais de 35 anos. Quanto aos homens, 42% estão acima dos 35. “As mulheres são muito mais sensíveis principalmente as de 30 a 35 anos. Aqui a questão é existencial. Esses 90% é busca por segurança”, avalia Santos.

Ele detalha que homens mais jovens procuram mais sexo, dado compatível com o percentual (53%) que afirma desejar sexo e curtir. A partir dos 36 anos, em tese, os homens estão mais estabilizados profissionalmente e financeiramente e também possuem nível de instrução maior. Muitos dos cadastrados têm ensino superior e até doutorado, entre homens e mulheres.

De outro lado, Santos identificou que homens com mais de 36 anos apresentam um nível alto de frustração nos relacionamentos. “São pessoas estabilizadas, trabalham. Sentimentalmente elas estão frustradas”, cita. As mulheres em busca de relacionamento sério também apresentam perfil de estabilidade financeira, atuando como profissionais liberais e professoras.

 

Esquizofrenia do sujeito

A solidão também é um traço, segundo Fausi Santos, muito presente nas mulheres. O pesquisador identifica que as pessoas reclamam que mesmo cercadas por uma multidão, impera um sentimento de solidão. Santos define que é um problema da nossa época em que o indivíduo que tem que dar conta da família, trabalho, do relacionamento. De acordo com o pesquisador, a pessoa se afasta gradativamente da sua personalidade porque se ocupa da vida dos outros. Há muitos relatos de estudiosos a respeito da personalidade fragmentada, efeito constatado na sociedade de consumo.

Santos arremata definindo que essa característica de personalidade desloca-se também para os relacionamentos humanos. “Essa relação de descarte que nós temos com os objetos passamos a utilizar nos relacionamentos”, detalha o pesquisador. O comportamento com os objetos transfere-se para as relações que se transformam em campos contraditórios. Santos exemplifica que o indivíduo quer ter alguém, mas não quer perder sua liberdade. Ao mesmo tempo em que a pessoa quer um relacionamento sério – casar ou namorar –, ela não quer vínculos de relacionamento muito apertados, porque se sente sufocada.

Santos identifica aí um conflito psicológico acentuado e que joga a pessoa em um turbilhão de contradições. Antes os papéis eram pré-definidos com um roteiro sabido de ponta a ponta. Atualmente, exemplifica o pesquisador, a mulher quer ser mãe, porém manter os mesmos hábitos de quando era solteira, sem filhos. Deseja frequentar os mesmos lugares, ter o mesmo corpo, a mesma liberdade e manter os mesmos amigos. Ele entende que não é suportável porque cada momento da vida e o papel vivenciado criam novas demandas por responsabilidade e maturidade, obrigando o indivíduo a abrir mão de algumas responsabilidades anteriores.

Nesta perspectiva, a educação familiar está em xeque e para Santos “vivemos em uma sociedade extremamente permissiva”. “Em que pai e mãe acham que para oferecer o melhor para o filho significa dizer sim sempre. Esse sim soberano, típico de uma sociedade em que as pessoas querem prazer e se sentir seguras tem uma consequência negativa. Porque quando você só diz sim para seu filho e não permite que essa criança caia, se frustre, se depare com situações que exijam responsabilidade, você cria um grau de dependência muito grande nesse indivíduo”, alerta.

 

Encontros e desencontros frustrantes

O estudo detecta que buscar um parceiro nos sites de relacionamento é uma possibilidade, conforme o pesquisador e professor de filosofia Fausi Santos. Porém 87% dos inscritos há mais de seis meses, independentemente de ser homem ou mulher, se dizem frustrados com o que encontraram no mundo virtual. “Não conseguem ter suas expectativas iniciais resolvidas. O grau de frustração é muito grande e, por isso, obter sucesso nas redes sociais é muito pequeno”, avalia.

O motivo da frustração no virtual é a existência de uma parcela de perfis falsos – perfil fake – projetando um personagem e a inexistência de empatia no mundo real – a química do relacionamento ficou no mundo virtual. Santos revela que no momento do encontro presencial, a pessoa é completamente outra, fisicamente e de personalidade diferente daquela apresentada no mundo virtual. “Senti em muitas pessoas que o prazer que ela obtinha ao conversar com a pessoa pelo site é muito mais gostoso do que o indivíduo na vida real. Ela se frustra na hora quando vê o individuo”, comenta.

Esmiuçando, há indivíduos ótimos roteiristas no mundo virtual criando personagens-isca para  fisgar as pessoas. Santos avalia que a frustração acontece porque na relação mediada pelas redes sociais há empatia. Quando a situação fica tête-à-tête, não há química entre o par. O pesquisador detalha que, muitas vezes, não é que a pessoa não corresponda às fotos postadas para se apresentar nos sites. “Falta empatia. O que seduz as pessoas são as ideias que são afrodisíacas. Um homem ou uma mulher inteligente, muitas vezes, seduz pelas ideias e não somente pela beleza física”, comenta. Empatia está relacionada com a maneira da pessoa falar, seu  gestual, todo o jogo de expressão.

O jeito de se vestir e outros atributos subjetivos também contam. Santos cita que pessoas argumentaram que a maneira de usar as mãos do pretendente a desagradou. Isso sugere ao pesquisador que o relacionamento virtual jamais substituirá o relacionamento presencial. De acordo com Santos, isso se dá porque o ser humano é corpo e o corpo conduz a uma empatia. 

 

Direto e reto: ‘quer transar?’

O pesquisador Fausi Santos considera que os sites de relacionamento são um negócio muito lucrativo pela grande procura dos serviços. Ele descreve que já há um aplicativo chamado “quer transar comigo”, disponibilizado pelo Facebook que manda um convite do interessado direto para a pessoa que ele deseja se relacionar sexualmente.

O pesquisador define que os criadores do aplicativo visaram o nicho que está interessado somente em sexo. Santos explica que o “quer transar comigo” tem boa procura dos usuários, principalmente por homens.

“As pessoas baixam e vão direto ao ponto. O argumento dos caras é ‘não vamos ficar com essa enrolação. No fundo, no fundo, você sabe o que eu quero e eu sei o que você quer’”, sugere. Santos acrescenta que há uma margem de mulheres que aceitam. Ele cita que as pessoas questionadas, principalmente as mulheres, dizem que o sexo é importante. Contudo, conforme o pesquisador, para se chegar a uma situação efetiva é preciso envolvimento e a circunstância muito explícita e muito aberta não excita e não causa desejo. “Assusta receber um convite desses. Mas há uma margem de mulheres que não vê problema algum”, acrescenta. 

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