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Rede social esconde a perversidade

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 8 min

Menina, estudante do ensino fundamental, 13 anos, um notebook nas mãos e uma conta no Facebook. Via chat a garota acabou pousando nua para entreter o instinto perverso de um usuário. Inicialmente, pessoas com pouca experiência de vida são alvos do ardil de gente inescrupulosa escondida nas redes sociais com perfil falso, assim como pode ocorrer na vida real. Se valendo de uma boa lábia, o indivíduo se aproximou da menina bauruense que o adicionou à lista de amigos no Facebook. Ao mesmo tempo, conta a mãe dela, ele se passou por outra pessoa, que também constava da lista de amizades virtuais da filha.

Quem está de frente ao computador nem sempre tem noção do impacto de sua presença nas redes sociais. Somente o Facebook vive no Brasil uma expansão significativa saltando de 12 milhões de usuários em 2011 para mais de 67 milhões, número com viés de crescimento – em dois anos o aumento foi de 458%.  Uma parte desses usuários é falsa e serve para brincadeiras, homenagear personalidades e cometer crimes.

 

Coação

A mãe da adolescente revelou a história ao JC com o intuito de alertar outras pessoas que possam ser vítimas dessa situação nas redes sociais. Quando a menina percebeu o problema, já estava enredada numa relação de coação por intermédio de ameaças à sua segurança e de seus familiares.

Em pânico, a adolescente cedeu aos caprichos do interlocutor no chat. De acordo com a mãe da menina, os homens se apresentaram como moradores em municípios do Estado de São Paulo, um próximo a Bauru e outro nas imediações da Capital. O que se apresentava como residente na região de Bauru fazia o personagem bonzinho, amigo, conselheiro e falava para a menina fazer tudo o que outro mandasse, porque dizia conhecê-lo e que se tratava de pessoa perigosa, inclusive com parentes em Bauru, que supostamente poderiam cumprir suas ameaças. O personagem que fazia ameaças à adolescente se apresentava como go-go boy.

“Você não tem noção do que esse homem falava para minha filha”, descreve a mãe. Ela relata que a filha só abriu a história para familiares depois de se sentir coagida e amedrontada. Até chegar a esse estágio, o sofrimento psicológico foi intenso com a adolescente parando de se alimentar como o habitual. A mãe passou a desconfiar do comportamento diferente da menina. “Ela explodiu. Porque ele (o amigo) falava para ela que conhecia o outro, que o pai dele (morador em Bauru) era traficante e do PCC”, conta.

Há algumas semanas, mãe e filha assistiam à TV juntas, ao mesmo tempo em que a menina teclava com o go-go boy em seu notebook. A mãe descreve que o sujeito pediu para que ela mostrasse o corpo. Diante da negativa da adolescente, veio a ameaça. “Então eu quebro as duas pernas do seu irmão”, relata a mãe.

A menina começou a chorar e foi para a sala. De acordo com a mãe, a filha foi ao banheiro e recebeu a instrução do go-go boy para colocar o notebook no chão e ligar a webcam. “Ela fez tudo isso de medo porque ele começou a coagir. Diz que sabia onde ela morava e que viria aqui pegar eu e o irmão dela”, descreve a mãe. Ela acrescenta que o interlocutor da filha na rede social não se satisfez: “Ele perguntava pra ela: ‘você já sentiu tesão?’ Mandava ela por o dedo na perereca. Não tem noção o que ele falava”, salienta.

Com receio de decepcionar sua mãe, a adolescente aguardou a chegada do irmão para contar a violência psicológica. “Ela falava ‘desculpa, perdão. Eu não queria fazer isso. Fala para a mãe não me bater. Eu fiquei com medo’”, conta a mãe.

Com a intervenção providencial dos familiares, a farsa dos dois supostos amigos na rede social foi desmascarada e cessou a coação. Conforme a mãe, ficou evidente se tratar da mesma pessoa utilizando perfis diferentes. Em uma das comunicações, aquele que agia como amigo tratou a menina como se fosse o go-go boy, em um sinal de que eram a mesma pessoa.

A adolescente não abandonou as redes sociais. O que mudou foi a relação com seus familiares que, agora, acompanham seus passos pelo mundo virtual. O caso já foi registrado em boletim de ocorrência como constrangimento ilegal e ameaça.

 

Mulher pressionada

Fausi Santos mostra que a mulher ainda é muito pressionada para ter um relacionamento afetivo e direcionar sua vida para formar família e vivenciar a maternidade. “A mulher frente à sua idade começa a se questionar muito sobre maternidade e até a questão familiar. De estar com alguém e de se sentir sozinha. Mulher sente mais do que o homem. As mulheres se sentem muito angustiadas por estarem solteiras, não terem um parceiro e terem sofrido frustrações”, explica.

O que foi feito com a liberação sexual, bandeira de luta nas ruas nos anos 60? Santos esclarece que vigora ainda uma sociedade patriarcal, com estereótipos machistas, que marcam de maneira negativa a mulher solteira com idade de aproximadamente 28 anos. “Há uma pressão social maior sobre a mulher solteira”, pontua. 

O pesquisador cita que a mulher também se cobra a questão de sua virilidade e sua capacidade de gerar filhos. Para Santos, esses fatores explicam parte do fato de predominar mulheres com idade acima de 35 anos buscando parceiros em sites de relacionamento amoroso. Não que o homem não sofra pressão. Santos acrescenta que para um homem não há pressão social em se casar entre 35 e 45 anos.

O indicativo é que o estudo dos três sites de relacionamento amoroso mostra a prevalência (58%) de mulheres cadastradas com idade acima de 35 anos.  Santos localizou que há uma base grande de pessoas do sexo feminino com idade entre 26 e 27 anos. Conforme aponta a pesquisa, dificilmente se encontrará mulheres com menos de 20 anos.  Os números mostram uma inversão de perfil quando se trata dos homens em busca de uma relação amorosa nos sites: há 42% acima de 35 anos e 58% com idade menor do que 35 anos.

Santos relaciona a prevalência de mulheres com idade mais avançada em busca de uma relação pela necessidade social e biológica – reprodução. Ele lembra que quando a mulher atinge 30 anos de idade sem um parceiro ou mesmo casada, instala-se um processo de questionamento sobre sua maternidade e seu futuro. 

 

As armadilhas

As redes sociais, e principalmente o sites de relacionamento amoroso, são um bom esconderijo para pessoas com dificuldades de interagir com o outro cara a cara. No estudo, o pesquisador e filósofo Fausi Santos encontrou indivíduos que se escondem na frente da tela do computador. Santos define que são as pessoas com dificuldade de relacionamento. Caracterizam-se pela timidez e insegurança quanto à sua aparência estética – se imaginam feias e tem dificuldade de aceitação do corpo. “Atrás do computador, ela tem um escudo. Usa o teclado como um meio para se transformar naquilo que na vida real ela não é”, explica.

O pesquisador conta que esse tipo de indivíduo se vale da astúcia e inteligência obtendo parceiros para sexo virtual de uma forma rápida. “Ele compensa pela inteligência aquilo que ele não tem fisicamente”, revela.

Conforme Santos, no momento do cadastro, o interessado cria uma vitrine ao preencher seu perfil que ficará à disposição para visualização. Para o pesquisador, o momento de acrescentar uma foto, que nem sempre condiz com a pessoa real, há uma amplificação do corpo. Ele explica que o corpo é ampliado porque ninguém irá colocar uma foto que passe uma imagem negativa. E a foto diz muito porque serve como chamariz para que a pessoa inicie a primeira interação com a pessoa que se apresenta com aquele perfil.

 

Vitrine eletrônica expande corpo

O pesquisador Fausi Santos comenta que a imagem da pessoa publicada “se torna realmente uma vitrine do corpo”.  Santos discute a controvérsia daquilo que é público e do que é privado.

“As barreiras que se tinha antes do proibido e do não proibido, do privado e do público com as redes sociais praticamente foram anuladas. As pessoas não se preocupam muito com isso”, pontua.

Ele não nega que as pessoas com idade mais elevada – denominada geração baby boomers – mantenha alguma resistência em explicitar a vida particular no Facebook. Santos lembra que, há muito pouco tempo, imagens somente vistas em um círculo muito restrito de acesso a álbuns de família, agora estão disponibilizadas sem o menor constrangimento no mundo virtual. O pesquisador vê com reservas a abertura devido ao efeito de superdimensionar a vida, ainda que o perfil esteja fechado somente para um grupo de amigos. Um dos pontos verificados é a elevada exteriorização do corpo nas redes sociais.

De acordo com Santos, com o corpo a pessoa se posiciona com seus ideais políticos, ideais estéticos, situação bastante explícita quando as pessoas são clicadas em poses para a câmera quase que já editando aspectos que desejam realçar, mostrando músculos, membros anabolizados e siliconizados. “Quebra os paradigmas que vigoravam antes do corpo privado no álbum de família”, comenta.

 

O estudo

O estudo “Sexualidade e Corpo nas Redes Sociais” optou por sites especificamente de relacionamentos amorosos com foco na busca por um parceiro. O pesquisador Fausi Santos se cadastrou no Chirpme, no Facebook; Relacionamento Sério; e Be 2.

Ele se apresentou como pesquisador e, com a permissão do interlocutor, manteve conversa. Desde fevereiro de 2012, desenvolve o projeto para obtenção de título de pós-graduação.

Há um ano e meio, o pesquisador se debruça na pesquisa no mestrado na área de linguística, na Universidade de Franca (UniFran), no Observatório da Educação. Para desenvolver a pesquisa acadêmica “Sexualidade e Corpo nas Redes Sociais”, Fausi se vale da linha de pesquisa da análise do discurso.  O projeto tem financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), instituições ligadas ao Ministério da Educação (MEC), e Observatório da Educação.

A pesquisa terá desdobramentos para a área de educação. Santos comenta que pretende encaminhar a continuidade do estudo da sexualidade do corpo, mas agora na educação. Ele entende que ainda se fala de uma maneira velada de sexualidade na escola. O pesquisador avalia que é preciso tratar do assunto e há formas didáticas. 

 

 

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