Tribuna do Leitor

Dona Neguita - 106 anos de luta - "in memoriam"


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Nascida Maria Aparecida Vicente, em 20.12.1906. Natural de Pedra Branca, atual Pedra Bonita ? MG. Ainda menina, veio carregada dentro de um cesto no lombo de um cavalo, conduzido pelo seu pai, Arlindo Vicente, aportando em Gália, no começo do século XX. Casou-se e teve onze filhos. Foi mãe de leite de alguns filhos da família Marangão. Foi uma das maiores, senão a maior cozinheira da região: completa culinária, começando pelos doces e salgados, até o prato mais exótico. Foi dona de bares e pequenas propriedades.

Ao coronel Galdino Ribeiro, um dos fundadores da cidade, ela referia-se: "Meu cumpadre". Nas festas da cidade e recepções a políticos como os deputados Emílio Carlos, Dr. Leônidas Pacheco Ferreira, Manolo Fernandes, o senador Lino de Mattos, os governadores Lucas Nogueira Garcez, Adhemar Pereira de Barros, entre outros, Dona Neguita, renomada "chef", era sempre solicitada para comandar a sofisticada gastronomia.

Sentiremos a falta da mais longeva galiense, e creio, também, dos seus tabuleiros de pirulitos, canudinhos, recheados de doce de abóbora ou de coco, cabecinha de negro, paçoca, quebra-queixo, curau, pamonha e do mais gostoso quentão que já provei. Pouco antes, semana passada, lúcida e disposta, preparou pamonhas a pedido do seminarista Camilo, porém, o quentão, a pedido do padre Márcio, ficou para a próxima...

Gostava de festas e de dançar. Dirigia-me a ela simplesmente por Neguita. Árdua trabalhadora, alegre e divertida, sorriso espontâneo no rosto redondo. Parece-me que ela quis impor-me um castigo: ir embora, em plena festa junina ? não mais terei o seu curau de milho verde, a pamonha, e o melhor: o meu quentão! Com a sua partida, Gália perde um pedaço de sua história e referência.

Minha galiense favorita, Neguita partiu no dia sete último, para continuar o seu trabalho, agora no Céu. Ofereço-lhe esta singela homenagem: se, "No Tabuleiro da Baiana (tem)...", no tabuleiro da mineira-paulista-galiense tem muito mais... Adeus! PS: "No Tabuleiro da Baiana", compositor Ary Barroso, 1936, interpretações de Carmem Miranda e Gal Costa.

Laerte Mazetto

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