Polícia

Sensação de violência é maior do que estatísticas, diz pesquisa

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto

A professora Célia Retz, uma das coordenadoras do trabalho

A percepção de violência em Bauru entre especialistas das áreas de segurança, poder público e líderes de entidades ou da comunidade está muito acima das estatísticas de ocorrências. A informação está entre os dados da “Pesquisa de demandas e perspectivas sobre a violência em Bauru”, divulgados ontem na sede da Fundação para o Desenvolvimento de Bauru (Fundeb) em trabalho coordenado pelas professoras da Unesp, as doutoras Célia Retz e Lucilene Ganzales.

Segundo a amostragem realizada em maio deste ano com profissionais ligados às áreas de segurança pública e representações comunitárias, a percepção para 68,75% dos entrevistados é de que “a violência em Bauru vem crescendo”. Outros 22,50% acham que a sensação não mudou, 6,25% não souberam avaliar e apenas 2,50% acham que a sensação diminuiu.

O diretor do Deinter-4 Bauru, Benedito Valencise, considera que a fotografia dos indicadores reflete sensações diferentes das estatísticas de ocorrências. ”Os números comparativos mostram que os indicadores de violência em Bauru caíram em relação a todas as outras regiões do Estado. Mas acredito que a pesquisa aqui revela a sensação do sentimento pessoal em relação aos sintomas que a violência provoca em cada um em seu ambiente. E o dado aponta dados circunstanciais importantes para a análise como a preocupação maior com estupros, por exemplo, em maio, período em que os noticiários estamparam mais esse tipo de crime, assim como a citação da violência contra animais acima até da violência contra idosos, que também reflete movimentos locais recentes em relação a esse tema”, pondera.

A citação do estupro acima de outros indicadores também pode ser explicada pela amostragem, onde 64,49% das citações desse crime vêm de mulheres, as maiores vítimas, contra apenas 2,8% de menções do gênero por homens.

A violência no dia a dia é “sentida” pelos pesquisados tendo 33,33% das vivências relacionadas a roubos, 14,94% por furtos, 11,49% por presenciar ou saber de brigas no trânsito, 8,05% por mortes e o mesmo percentual para a violência verbal. O estupro recebeu 5,75% das citações e a violência a animais, 3,45%.

Os motivos da violência seriam originários da falta de educação (32,50%), drogas (18,50%), falta de oportunidade (10%) e de dinheiro (10%), entre outros.

Assassinatos, estupro, roubo na rua e furto de carro disparam entre as maiores preocupações, com 68% das citações. As brigas entre familiares e vizinhos entram nas citações de conflitos logo a seguir. O curioso é que o rádio não aparece na fonte de informação dos entrevistados para formar sua percepção de violência. A disseminação de casos em conversas entre amigos e no local de trabalho aparece em primeiro, depois vêm Internet, jornais e revistas e TV.

“O rádio é muito ouvido, sobretudo nos bairros. Acredito que como a pesquisa ouviu especialistas em diferentes áreas de utilização, esse público em específico pode não ouvir o rádio nos horários de informação, mas na prática isso não acontece”, pondera o coronel Airton Martinez, comandante da PM de Bauru.

Para o comandante do 4º Batalhão de Policiamento Militar do Interior (BPMI), Walter Oliveira, o indicativo de que 58,75% não conhecem o serviço de Disque Denúncia 181 revela duas questões. “De um lado a necessidade de massificação do serviço com campanhas de orientação e de outro o reforço positivo da participação popular no apontamento de pistas para o trabalho de segurança, já que o dado também pode revelar que o cidadão ainda participa pouco para contribuir com informações no cotidiano”, avalia.

A professora Célia Retz menciona que a metodologia envolve a técnica de Delfos modificada, com “a legitimidade e experiências entre especialistas sendo levadas em conta na triangulação dos elementos para estabelecer o panorama”. O trabalho do Instituto São Paulo contra a violência chega a 10 regiões administrativas do Estado.


A amostragem

A pesquisa foi realizada com especialistas por meio de 80 entrevistas, com questionário com 26 perguntas via cartão contendo o perfil do entrevistado, a avaliação dos problemas da cidade, causas e consequências da violência, políticas sociais e segurança e o conhecimento sobre organizações que atuam com segurança.

O trabalho de campo ficou a cargo de alunos de relações públicas da Unesp de Bauru. 56,25% das entrevistas foram realizadas com mulheres e 43,75% com homens. 18,75% têm mais de 50 anos, 46,25% de 31 a 50 anos e 35% até 30 anos. Na escolaridade, 2,50% contam apenas com o ensino básico, 17,50% têm nível técnico e 90% têm nível superior.

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