Política

?O povo quer além do acesso ao consumo?, dizem especialistas

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Arquivo JC

O professor de antropologia da Unesp-Bauru, Cláudio Bertolli, fala que o sentimento de cidadania impulsionou os jovens 

Violência urbana, desrespeito à coisa pública pelos agentes políticos, corrupção e outras mazelas do cotidiano. De acordo com o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Bertolli, todos esses fatores impulsionaram as mobilizações que tomaram conta do País nos últimos dias. Segundo ele, para a formação deste cenário, corroborou o sentimento de cidadania que brotou em parte da população após as melhorias na economia brasileira e avanços nos últimos 20 anos.

“As pessoas conquistaram o acesso ao consumo, houve a ampliação da classe média. Mas agora, estão se perguntando: será que não merecemos mais? O povo, em geral, já conquistou esse direito e o consumo de mercadorias leva também a pensarmos que somos cidadãos. Queremos mais respeito pelos gastos, mesmo que seja por R$ 0,20 a mais na passagem do ônibus. Precisamos mesmo gastar bilhões como uma Copa do Mundo? Já que estamos ascendendo, queremos mais participação política”, explica.

Bertolli destaca ainda a espontaneidade dos movimentos, o que garante também a sua heterogeneidade. Há ainda a percepção de existências de “ideologias particulares”, característica da Pós-Modernidade.

“Não há um líder nem mesmo demandas específicas. São defendidas várias causas. Isso implica, inclusive, na dificuldade que o poder público enfrente em dialogar, sem contar a tradição autoritária da nossa sociedade. Os políticos estão acostumados a dialogar apenas com aqueles setores específicos: partidos, entidades. Como fazer isso com toda a sociedade?”, pontua o professor.

Cláudio diz ainda que, por trás da espontaneidade, existe forte emotividade. Ele lembra que o último grande movimento popular no País foi o das Diretas Já, há quase 30 anos. “Já muito emoção em participar de algo assim por parte da molecada de 15, 18 anos, que nunca viu algo do tipo. Nem eu vi tanta gente se juntando. Mil e duzentas pessoas é um número muito significativo para Bauru”.

Segundo o professor, a repressão policial nos primeiros atos em São Paulo também catalisou as manifestações. Outro fator crucial é a internet. “É a nossa praça da Grécia Antiga, onde ocorrem os debates e onde os atos são organizados”.

Bertolli ressalta que a perfil pacífico das manifestações também garantiu legitimidade ao movimento. “Se partissem para o quebra-quebra, perderiam a credibilidade”.

‘Reivindicações existem e devem ser acolhidas pelo poder público’

Arquivo/Neide Carlos

O professor de história política da Unesp-Bauru, Maximiliano Martin Vicente, enxerga com otimismo as mobilizações no País

Professor de história política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin Vicente enxerga com otimismo as mobilizações que tomaram as ruas do País. Ele entende que as reivindicações da população estão claras, implicam em decisões políticas e devem ser acolhidas pelo poder público nas esferas municipal, estadual e federal.

“É possível o que eles querem: qualidade no serviço público; e isso é, sim, de responsabilidade dos políticos. Mas eles não estão entendo. Os manifestantes não querem apenas a redução do preço da passagem de ônibus. Querem um serviço melhor, que a população seja bem atendida nos postos de saúde. Se isso não é pauta, o que é então?”, questiona.

Max entende que, após a dimensão e força conquistadas pelas manifestações, setores do poder público já estão recuando e admitem o diálogo, conquistado justamente pela pressão.

“Eles (políticos) não estão acostumados. Até porque esse movimento não segue padrões clássicos, pois não está associado a partidos políticos, categorias ou instituições tradicionais”.

Em relação a supostos equívocos das reivindicações e confusões entre responsabilidades das esferas do poder público, o professor argumenta que, para a juventude, os protestos são processos de aprendizagem. “Se estão enxergando que devem participar agora, isso deve ser resgatado. O sistema é muito complexo, mas isso não deve servir de subterfúgio para os políticos. Na questão municipal, por exemplo, a cobrança do IPTU, o transporte público e os serviços de saúde básica, cabem ao prefeito resolver”.


‘É complicado dialogar’, diz prefeito sobre a quantidade de temas

A expectativa é de que o Palácio das Cerejeiras seja o palco para novas e grandes manifestações amanhã, em Bauru. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) afirma que está disposto a conversar, mas pondera que haverá dificuldade no diálogo. “Não há líderes nem uma pauta de reivindicações específicas. Não faz sentido”.

Apesar dos argumentos do chefe do Poder Executivo, os manifestantes locais falam explicitamente na redução da tarifa do transporte coletivo.

No mais, Rodrigo ressalta a importância dos atos e ressalta o perfil pacífico das mobilizações que ocorreram na cidade, embora chame de exagero o isolamento ao prédio da Câmara Municipal, na última segunda-feira, que impediu a saída de vereadores até as 23h.

“Mas é muito legal para a formação política da juventude. Eu fiz muitos protestos e tudo é válido quando não há violência, depredação ou vandalismo”, diz.

O prefeito acredita que uma série de descontentamentos, principalmente o aumento do custo de vida, impulsionou a onda de manifestações no País.

“A população só não pode se deixar ser usada como massa de manobra por partidos ou questões políticas que estão tentando pautar esses jovens. Eles precisam de autonomia para esse primeiro grito que estão dando”.

Estela: movimento precisa de demandas localizadas

A vice-prefeita Estela Almagro (PT) classifica as manifestações em todo o País como um marco histórico. “Acho fantástico, apesar de pouco politizados”. Ela acredita que os atos nos municípios devem levantar bandeiras locais e criar uma agenda de reivindicações junto ao poder público.

A vice-prefeita cita que os atos contra a Copa do Mundo podem resultar em bons frutos. “É fundamental que se discuta o legado dessas obras, mesmo no município, onde temos o exemplo da pista de atletismo dos Jogos Abertos do Interior”.

Da mesma forma que Rodrigo Agostinho, a petista teme, porém, que a juventude seja utilizada como massa de manobra. “Isso não pode acontecer seja o sentimento que for beneficiar: o de esquerda, ou de direita. O importante é que são jovens de todas as classes, reivindicando por direitos, em geral de forma pacífica”.

O PT de São Paulo reuniu seu diretório esta semana e emitiu nota em que aponta os avanços, principalmente sociais, durante os últimos anos em que o partido governou o País. Apesar disso, Estela, que participou do encontro, nega o receio de que as mobilizações respinguem na imagem da presidente Dilma Rousseff (PT), que tentará se reeleger no ano que vem.

‘Povo brasileiro recuperou esperança’, acredita Tobias

O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) comemorou as manifestações da juventude e acredita que simbolizam a retomada da esperança do povo brasileiro. “O povo reagiu e os políticos não podem se esconder. Precisam dialogar com essa juventude”, afirma.

O tucano conta que as cenas do País nos últimos dias remetem ao movimento que tomou a França em 1968. “Eu participei e é como se estivesse vivenciando a mesma coisa de 35 anos atrás”.

Para Tobias, a paciência da população chegou ao limite e o poder público deve atender às reivindicações, principalmente no que tange à precariedade dos serviços de transporte coletivo em todo o Brasil. “Cobram caro e a qualidade é péssima”.

O deputado conversou ontem com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e sugeriu um ato liderado pelo Estado junto a todos os prefeitos paulistas. “É a oportunidade para rediscutirmos o transporte público. Deveriam revogar todos os aumentos de tarifa até atender as reivindicações”.

Tobias defende ainda que, nos municípios, sejam montadas comissões para avaliar se as tarifas aplicadas são justas ou não.

O País

“Era um país muito engraçado, 

Faltava escola, sobrava estádio! 

Governo vinha com enrolação,

Quem discordava, “ó o camburão!”...

Cada pessoa tinha que ser burra 

Pois do contrário, levava surra! 

Ninguém podia protestar não, 

Porque a PM sentava a mão!

Um belo dia tudo mudou, 

Esse país, enfim acordou! 

O povo disse: “Chega, não mais!”

Enfrentou balas, suportou gás!

Não é apenas por 20 centavos, 

Pois do sistema, somos escravos! 

Lutemos pois, pela verdade

E conquistemos, a liberdade!

Seguindo vamos, todos unidos 

Sem depender de podres partidos! 

E o resultado é que essa união, 

Pode acabar em Revolução!”

(Paródia feita com a letra e música A Casa, de Vinicius de Moraes, por manifestantes sobre os atuais acontecimentos nas ruas do País)

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