Polícia

Furto deixa bairro sem telefones

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

Dona de ferro-velho, Ana Maria ensina: “Melhor agir dentro da lei. Senão, complica”

Cerca de 150 moradores da Vila São Paulo, em Bauru, ficaram com os telefones fixos desligados após cabos de uma empresa de telecomunicação serem furtados nas imediações do bairro. Um suspeito, com quem a Polícia Militar (PM) apreendeu cerca de 80 metros de fios, foi preso anteontem.

Além de provocar transtornos aos moradores, crimes como este – muitas vezes encabeçados por quadrilhas especializadas – causam enormes prejuízos às empresas de telefonia, energia elétrica e de água e esgoto. Por conta da frequência com que este tipo de ocorrência vem sendo registrado, um projeto de lei foi aprovado na Assembleia Legislativa para criar a Política Estadual de Prevenção e Combate ao Furto e Roubo de Cabos e Fios Metálicos.

O principal objetivo é coibir o comércio ilegal desse tipo de material, a partir da exigência de cadastramento das empresas de ferro-velho, que serão obrigadas a comprovar a origem dos produtos adquiridos. A lei, no entanto, ainda precisa ser sancionada pelo governador Geraldo Alckmin.

Se aplicadas, a esperança é de que as novas regras sejam capazes de coibir a receptação de peças metálicas furtadas. Ao mirar a fiscalização na ponta final da cadeia, a ideia é inibir a demanda por produtos clandestinos e, por consequência, a retirada criminosa de fios pertencentes às empresas concessionárias.

Telefônica Vivo, CPFL Paulista e Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru foram consultadas pela reportagem e revelaram preocupação com o volume de ocorrências, que, de maneira geral, cresceu na cidade entre 2012 e 2013. Em todos os casos, não apenas as empresas são prejudicadas, mas também os moradores, que enfrentam transtornos diante da interrupção no abastecimento de água e energia elétrica e dos serviços de telefonia.

No caso mais recente, registrado na tarde de anteontem, cerca de 130 metros de cabos telefônicos foram furtados de postes localizados na rodovia Cezário José de Castilho (SP-321), a Bauru-Iacanga, nas imediações do trevo de acesso à Vila São Paulo. Cerca de 150 moradores tiveram o serviço de telefonia fixa interrompido.

Queima

Acionada, a PM iniciou buscas pelas imediações e localizou Paulo César de Sousa Alves, 27 anos, que confessou o crime. Ao avistar a viatura, ele ainda tentou fugir, mas foi capturado no quintal de uma residência localizada na rua Juvenal de Souza, onde parte da fiação estava sendo queimada.

“É um procedimento realizado para derreter a capa plástica do cabo e obter o cobre, que fica intacto”, explica o delegado Kleber Granja, da Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Bauru. O acusado revelou que costuma vender o quilo de fios de cobre a R$ 7,00 para dois ferros-velhos da cidade. Com ele, foram apreendidos 80 metros de cabos.

Na última segunda-feira, outros 302 metros de cabeamento telefônico já haviam sido furtados na cidade. Os fios foram retirados de postes da quadra 1 da rua Agenor Martins Vieira e quadra 5 da avenida Pedro de Castro Pereira, no bairro Pousada da Esperança 2. O caso ainda é investigado pela Polícia Civil.

A assessoria de comunicação da Polícia Militar em São Paulo também foi procurada pela reportagem, de acordo com o protocolo estabelecido à imprensa, mas nenhum representante foi destacado para falar sobre o assunto.


Prejuízos a moradores e empresas

Somente em Bauru, a companhia Telefônica Vivo releva que perdeu 10,7 quilômetros de cabos em furtos registrados entre janeiro e maio deste ano. O volume já é maior do que o computado em todo o ano passado, quando foram furtados 7,1 quilômetros.

Neste ano, até o início da semana, a CPFL Paulista já havia contabilizado oito interrupções no fornecimento de energia devido a furtos de cabos da rede elétrica em Bauru. No ano passado, foram 28 registros. Já o Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru sofre com furtos de tampas de ferro fundido instaladas em poços de visita (PVs).

Cada uma delas custa entre R$ 300,00 e R$ 400,00, mas não é possível estimar quantas foram substituídas devido a ações criminosas. Considerando também aquelas que foram trocadas por quebra ou por terem sido levadas por enchentes, o gasto alcançou a cifra de aproximadamente R$ 145 mil com a colocação de 361 novas tampas em 2013. No ano passado, foram gastos cerca de R$ 240 mil com a substituição de 602 dispositivos.

Já os furtos de fios elétricos nos PVs representaram prejuízo de cerca de R$ 1,5 mil entre 2012 e 2013, segundo a assessoria de imprensa do DAE. Neste ano, já houve cinco ocorrências desta natureza, uma a mais do que o total registrado no ano passado. Em todas as situações, moradores foram prejudicados pela interrupção no fornecimento de água. No caso mais recente, fios elétricos e cabos foram levados da estação elevatória de esgoto do Núcleo Fortunato Rocha Lima, no dia 3 de junho.


Pequenos furtos são maioria em Bauru, de acordo com a polícia

Segundo o delegado Kleber Granja, da Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Bauru, todos os casos recentes registrados na cidade são de furto de pequenas quantidades de fios e cabos. Quase sempre, eles são praticados por usuários de drogas que usam o dinheiro da venda desses produtos para comprar drogas. Os receptadores, também em sua maioria, são pequenos ferros-velhos que funcionam de forma irregular.

Mas, por mais que não haja, aparentemente, quadrilhas especializadas atuando na cidade, Granja explica que esse tipo de crime está sob monitoramento contínuo da Polícia Civil. “O prejuízo não é apenas das empresas, mas também da população. Nosso foco está em quem pratica e em quem recebe este material”, frisa.

De acordo com ele, para que os criminosos possam ser identificados, as empresas vítimas precisam registrar boletim de ocorrência e a população, sempre que puder, ajudar a polícia com informações. “De maneira integrada, fica mais fácil fazer o mapeamento do que ocorre na cidade e identificar quem são estas pessoas”, destaca.

Granja lembra que, há pouco mais de 10 anos, a região de Bauru foi alvo de uma quadrilha especializada em furtos de cabos telefônicos para obtenção de cobre. O grupo que foi desarticulado derrubava, de uma só vez, quilômetros de fiação, que eram transportados em caminhões até regiões de pedreiras.

“Eram locais ermos, onde a capa plástica dos fios era queimada com gasolina. Depois, eles repassavam esse material para empresas da Grande São Paulo. Não ficava em ferros-velhos de Bauru, porque a quantidade era muito grande”, relembra.


Lei estadual quer mapear e fiscalizar ferros-velhos

A Política Estadual de Prevenção e Combate ao Furto e Roubo de Cabos e Fios Metálicos, cuja criação foi proposta pelo deputado Olímpio Gomes (PV) e aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, pretende mapear e fiscalizar, de maneira contínua, os ferros-velhos existentes em cada município. Desta forma, a ideia é inibir a atuação de estabelecimentos clandestinos, que recebem materiais – como bronze e ferro – obtidos de maneira criminosa.

“Com a lei, temos mais condições de fazer o monitoramento e o cadastramento destas empresas, até porque muitas delas são idôneas”, frisa o delegado Kleber Granja.

Atualmente, apenas 19 ferros-velhos estão devidamente cadastrados na Prefeitura de Bauru. A empresária Ana Maria Sanches garante que o dela está entre eles.

Há mais de 40 anos no ramo, ela conta que o negócio, constituído pela família, sempre contou com a emissão de notas fiscais de compra e venda, como forma de evitar a aquisição de produtos de origem duvidosa. “O melhor é agir dentro da lei. Senão, complica”, frisa ela, que trabalha com materiais de ferro, bronze e cobre.

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