O Brasil adormeceu feliz, lindo, orgulhoso de si, certo do dever cumprido, saindo de uma letargia milenar. Onde desembarcará este movimento? Quais serão suas consequências? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo os mais experientes analistas. O certo é que o povo tomou as ruas, enfrentou a polícia, assustou os governantes e deixou atônita a mídia oficial e oficiosa e seus porta-vozes falastrões (não é verdade, Arnaldo Jabor?).
De repente, para todo o mundo e em tempo real, as indignações que corroem a esperança do povo vieram à tona. Os vinte centavos de reajuste da passagem, já por si um acinte à dignidade popular, foi tomando a forma de uma realidade cruel de um país, da falta de qualidade no transporte público, do descaso com a saúde e a educação, da corrupção generalizada, de uma copa do mundo a nos tirar a soberania e que enriquece aos já tão ricos, sem nenhum ganho à maioria da população.
Enfim, o povo se apercebeu de sua própria grandeza, deixando de lado aqueles que nunca o representaram ou que o traíram no transcorrer da história. É lógico que o movimento precisa avançar, compreender que existem mais companheiros de viagem a serem integrados e perceber que a política e os partidos políticos não são um mal em si e reconhecer que alguns partidos sempre estiveram na luta, assim como outras entidades dos trabalhadores.
Mas isso é questão de amadurecimento e aprendizado que somente o tempo dará. O mais importante já foi feito e o povo está ocupando o que é seu: as praças, as ruas e avenidas, sem pedir licença. Pena que muitos (a maioria) daqueles da minha geração que um dia já estiveram nas ruas lutando pelo fim da ditadura, pela anistia aos presos políticos e pelas diretas já, hoje acompanhem tudo pela TV, na sua poltrona confortável ou nos gabinetes palacianos, talvez com um sorriso saudosista no canto da boca, como se a luta fosse apenas um arroubo juvenil...
Danem-se eles! A luta é constante, perene, eterna, como o processo histórico; e ver a juventude nas ruas é um alento e é com orgulho e alegria que estou com ela gritando palavras de ordem, enfrentando a polícia, ultrajando os donos do poder. Tudo está apenas começando, tudo está por fazer, continuemos na rua, na luta, de todas as maneiras, com todas as bandeiras. "Na luta de classes todas as armas são boas, pedras, noites, poemas" - Paulo Leminski.
Arthur Monteiro Junior, advogado