São inúmeras as interpretações para os protestos de rua no Brasil. Alguns julgam que o movimento, que criou força via redes sociais, teve início com a indignação quanto ao aumento do valor das tarifas de transporte coletivo, passando pelo questionamento da qualidade do transporte público nacional. Outros entendem que outros fatores estão motivando o crescimento do movimento, tais como: corrupção, descrença nos políticos, impunidade, violência urbana, carga tributária, baixa qualidade em saúde, educação, entre outros. Avalio que o lado positivo está no fato de finalmente a sociedade brasileira sair da passividade. Sempre questionamos que o povo brasileiro aceita sem reclamar as mazelas da classe política, o desperdício dos recursos públicos, não desenvolvendo o senso crítico necessário para postular mudanças estruturais no país. O movimento vai exatamente no caminho oposto, com milhares de manifestantes querendo dizer para todos ouvirem: basta disso tudo! Evidentemente que há exageros quando deixam de ser manifestações pacíficas. Depredar o patrimônio público e privado não é o caminho, tampouco a truculência de alguns policiais despreparados. De qualquer maneira é um novo fenômeno social e como tal deve ser analisado e entendido. Isso tudo levar a crer que pode estar inaugurando um novo momento da postura do povo brasileiro, que começa com uma minoria e envolve o resto da população.
Este é um viés da análise. O que me preocupa, como todo movimento que envolve juventude, é a falta de maturidade para discutir os grandes temas nacionais e, mais que isso, a desinformação. Convivo com jovens em casa e na escola como professor universitário e percebo que os temas importantes para o Brasil não são aprofundados. Alerto os que estão participando dos movimentos para não assumirem bandeiras que servem a interesses fisiológicos, de grupos minoritários que são contra tudo e todos, e mais que isso, vêem nestes movimentos, uma forma de questionar o sistema econômico adotado pelo Brasil.
Se você vai se manifestar, tome cuidado com alguns temas. Um deles é a dívida externa brasileira. Já foi o tempo que era a maior preocupação. Dados recentes apontam para uma dívida com o resto do mundo na ordem de US$ 318 bilhões, com um importante detalhe: US$ 235 bilhões são devidos pelo setor privado brasileiro. Isso mesmo, por empresas que captam recursos no exterior. A dívida externa do setor público é de US$ 83 bilhões, com juros baixos e com prazo médio de 6,5 anos para pagar. Lembrando que esta dívida representava 38,8% do Produto Interno Bruto em 2003 e agora representa 13,9% do PIB. Não gaste muita energia neste tema, mesmo porque se queremos continuar atuando em termos globais, com abertura de mercado, você tendo a liberdade de trabalhar em empresas multinacionais, fazer cursos no exterior, enfim, ser um cidadão do mundo, dar calote na dívida externa afasta o Brasil deste mundo. Vale ainda destacar que o Brasil tem reservas cambiais de US$ 376 bilhões, ou seja, mais do que a dívida externa total.
A dívida interna, esta sim é preocupante. Neste particular questione o custo da rolagem desta dívida. Está na casa do R$ 1,90 trilhão. Esta dívida é retrato da incapacidade que o governo tem, em todas suas esferas, em gastar com qualidade. Outra variável a ser discutida poderia ser o desemprego, mas os números são favoráveis ao Brasil: o desemprego atinge 5,8% da população economicamente ativa. Lembrando que a Espanha convive com 25%. É um tema que não prospera, pelo menos no curto prazo. Já o desempenho do PIB preocupa. Projeções apontam para níveis abaixo de 3% para este ano. Taxa de juros, gastos públicos, falta de investimentos, são temas relevantes para uma discussão. Ouvi pessoas dizendo: "tTem que aumentar o salário mínimo". Isso é verdade, mas cuidado. Hoje o salário mínimo segue uma formulação que combina crescimento da economia e reposição da inflação. Aumentos expressivos de uma hora para outra só criam uma ilusão monetária que não resolvem o problema. É preciso continuar com a recuperação de seu poder de compra ao longo do tempo, desta maneira não faça a avaliação superficial deste tema.
Outro tema é a corrupção. Estimativas apontam que o custo anual varia de 1,3% a 2,0% do PIB, isso em valor seria algo entre R$ 40 bilhões e R$ 70 bilhões. Significativo, mas nesta vertente só protestar não resolve, à medida que a corrupção é endêmica, está espalhada no país afora. Mudanças na legislação penal seriam bem-vindas, inclusive, com melhoria no rito do processo judicial, hoje extremamente moroso. Agora para descontrair cuidado com os que acreditam que a loteria é capaz de pagar a dívida externa, que se acaba com a pobreza emitindo dinheiro, que ao transferir um gasto para o governo isso será de graça para população, essas coisas não existem, são folclore. Na prática o que é importante a meu ver é evitar tratar de temas importantes de maneira superficial e ao mesmo tempo se deixar levar por pseudos líderes que se apresentam como cordeiros, mas são raposas disfarçadas. Mesmo com estes alertas fico com o lado positivo de tudo que vem ocorrendo: a população resgatou a capacidade de indignar. Não aceite qualquer argumento, não se deixe levar por temas que não são aprofundados, manifeste de maneira ordeira e pacífica, e ajude a escrever uma nova página na história brasileira, exercendo na plenitude sua cidadania.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC