Quioshi Goto |
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Ana Valéria Calciolari caminhou por uma hora com os netos, Kauã e Ana Vitória, do Bela Vista ao Altos da Cidade |
O primeiro dia de greve do transporte coletivo de Bauru alterou a rotina dos moradores. Os transtornos não se restringiram aos cerca de 100 mil usuários do serviço na cidade, mas se estenderam ao comércio central, às empresas e até àqueles que saíram de casa de carro e precisaram de paciência extra para trafegar nos horários de pico.
Com o joelho deslocado, a balconista Ana Carolina Macedo, 31 anos, reclamava sobre a falta dos transportes logo no início da manhã. “Saí às 4h do serviço e não sabia que teria greve. O jeito é ir a pé até a consulta médica no Centro. Quando mais precisamos, os ônibus param”, lamenta a mulher, que ficou por quase duas horas aguardando a coletivo em um ponto na avenida Nações Unidas.
“É muito ruim isso, e é sempre assim: tive que ligar para o meu chefe e avisar que não tenho como ir. Sem ônibus, os mototaxistas estão cobrando R$ 35,00 para me levar, quando eu normalmente pago R$ 12,00”, reclama a auxiliar de serviços gerais Eliana Marques, 47 anos, que trabalha em um hospital localizado na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros e esperava ônibus na avenida Rodrigues Alves, esquina com rua Gustavo Maciel, desde as 5h30.
O JC percorreu alguns pontos da cidade para verificar a situação nos pontos de ônibus. Por volta das 9h, parte dos pontos localizados no Jardim Redentor estava vazia. Em toda a avenida Cruzeiro do Sul, a situação não era diferente.
Entretanto, em alguns locais, pessoas permaneciam à espera da condução, como é o caso dos desenvolvedores de software Alan Zanone, 22 anos, e Daniel Suguimoto, 23 anos, que aguardavam em um ponto de ônibus no Núcleo Geisel. “Não sabíamos que hoje (ontem) teria greve. O jeito é irmos a pé para o serviço”.
Corrida
Próximo ao mesmo ponto de ônibus, o JC flagrou uma cena em que várias pessoas corriam, na tentativa de disputar um táxi que passava pela rua. Após negociar com o taxista, alguns conseguiram embarcar. Na avenida Rodrigues Alves, três idosos também esperavam pelos coletivos na altura da quadra 18, por volta das 10h.
A falta de ônibus deixou o tráfego intenso em algumas avenidas e até na rodovia Marechal Rondon, nos horários de pico. Algumas pessoas optavam por bicicletas e pelas caminhadas para não arcar com o alto preço das conduções alternativas.
Por volta das 17h30, a situação se repetiu. Com as ruas do Centro congestionadas, os motoristas tiveram de ter paciência para conseguir voltar para casa. Muitos usuários que dependiam do transporte coletivo decidiram fazer o trajeto a pé, como foi o caso de Ana Valéria Calciolari, 42 anos.
Moradora do Núcleo Gasparini, ela trabalha em um bufê no Jardim Bela Vista e precisa buscar, diariamente, os netos Kauã, 4 anos, e Ana Vitória, 3 anos, na escola onde estudam, nos Altos da Cidade. Sem dispor de carro e sem poder transportar as crianças em mototáxis, resolveu trazê-los a pé da escola até a empresa onde ela trabalha.
“É o trajeto mais curto. A gente dormiu no bufê hoje (ontem), porque já sabia que não teria ônibus. E vamos dormir hoje de novo. Não dá para ir a pé até o Gasparini”, explica. Dos Altos até o Jardim Bela Vista, ela e os netos fizeram cerca de uma hora de caminhada.
Abuso
Na tarde de ontem, a reportagem ligou para sete empresas de mototáxi e, sem se identificar, perguntou o preço da corrida para o Centro da cidade, partindo de diferentes bairros. Em todas, o preço cobrado variou de R$ 6,00 até R$ 10,00. Em uma delas, o funcionário reconheceu que o preço inflacionou devido à greve dos ônibus. “É R$ 10,00, mas geralmente a gente cobra R$ 8,00”, revelou.
Segundo o decreto municipal número 10.455, de 30 de maio de 2007, o valor do serviço de mototáxi é de R$ 5,00 para a chamada bandeira 1, entre 6h e 20h. Nos demais horários, são cobrados R$ 6,00 pela bandeira 2. Denúncias de abusos por mototáxis devem ser feitas por meio do telefone de fiscalização da Emdurb: (14) 3233-9091.
Empresas locam vans
Conforme o JC apurou, muitas empresas tiveram de alugar vans para fazer o transporte de funcionários que, sem transporte coletivo, não tinham como ir para o trabalho. Foi a decisão tomada por várias unidades do Distrito Industrial, por exemplo.
Em uma delas, trabalha a auxiliar contábil Tatiana Veríssimo, 26 anos, que optou por carona para ir e voltar para casa.
“Meu pai me levou e, na volta, vim com um colega de trabalho até a avenida Rodrigues Alves. Como moro no Jardim Bela Vista, foi tranquilo fazer uma parte do caminho a pé”, cita.
Prejuízo para o comércio
Com a paralisação de todos os circulares na cidade, o comércio central de Bauru também foi afetado. Segundo cálculos da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), o movimento no Calçadão da Batista de Carvalho e em ruas transversais caiu cerca de 30%, com redução de 20% nas vendas.
“É uma diferença considerável, que é sentida pelos lojistas. Mas nossa maior preocupação é com o sábado, o dia mais forte para o comércio. Se os ônibus não voltarem a circular, o prejuízo poderá ser maior”, lamenta o presidente da CDL, Alceu Camargo.