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Somos o povo borra-botas?

Silvio Motta Maximino
| Tempo de leitura: 3 min

Há dois anos (edição de 26/7/2011), escrevi aqui um texto buscando responder à intrigante pergunta do jornalista espanhol Juan Arias, no jornal El País: por que os brasileiros não reagiam diante da corrupção de seus políticos?

Só para citar os casos mais recentes: estádios padrão-Fifa (pagos com o nosso suor) e escolas padrão-Etiópia; enquanto isso, agentes políticos e entidades classistas defendendo a venenosa PEC da impunidade (PEC 37), vil atentado à cidadania... violência descontrolada nas ruas e nas escolas públicas, enquanto deputados perdem tempo em manobras para diluir as penas dos mensaleiros e para introduzir imorais reformas na Lei da Ficha Limpa... é melhor parar por aqui.

Naquela ocasião, há dois anos, eu perguntava a você que me lê: somos o povo borra-botas? E eu mesmo respondia: Definitivamente não! Hoje, muito antes do que todos imaginavam, estamos podendo confirmar com nossos próprios olhos. Nossos eleitos ignoram as causas das impressionantes manifestações populares. Seu costumeiro distanciamento, seu descompromisso e desprezo para com os cidadãos em geral, agora os deixam agora atordoados. Eles causaram a desmoralização do que existe de mais sagrado em um Estado de direito democrático: suas próprias instituições políticas. Agora estão assustados e preocupados, fazendo reuniões sigilosas aqui e acolá, tentando adivinhar o próximo passo!

Aqui em Bauru não é diferente... parece que vivemos em plena era medieval onde, de um lado, temos vereador dito progressista votando contra a lei da ficha limpa municipal e de outro, prefeito que ignora solenemente a lei federal da transparência, como se fosse faculdade dele obedecê-la ou desprezá-la.

Lembrem-se! É graças a gente como vocês que as instituições políticas brasileiras caíram em desgraça e descrédito. Dos partidos, centrais sindicais e entidades estudantis cooptadas por esses mesmos partidos, até as câmaras legislativas... todos infelizmente, estão sumariamente banidos das últimas manifestações populares. Que vergonha devem estar sentindo! (ou não?) E que inveja talvez estejam sentindo, não é mesmo?... está acontecendo a maior das festas lá fora e vocês não foram convidados! Lamento informá-los, perderam o bonde da história. Para quem sabe o valor de um partido político para o regime democrático, isso não é motivo para festejo, mas motivo de pesar.

Brevemente surgirão em cena os "profetas do passado", a traçar um "diagnóstico" pseudo-científico de causas complexas daquilo que estão vendo, mas não entendendo.

Quando escrevia, há dois atrás, lembrava que em meio ao mar de lama, a boa notícia é que ciência da antropologia nos ensinava que a cultura é algo dinâmico, sempre se modifica, em diversos sentidos, de forma aleatória ou intencional, lenta ou rapidamente. Só não pensávamos que tudo se precipitaria tão rapidamente.

Todos que trabalhamos séria e gratuitamente em ONGs em prol de um despertar para o exercício consciente da cidadania, que plantamos sementes de cidadania diariamente, estamos ao mesmo tempo contentes, surpresos e apreensivos, pois ninguém está habilitado a decifrar o porvir, os possíveis e também os improváveis desdobramentos. Este grande movimento ainda precisará estabelecer uma pauta perene, para não perder seu vigor e capacidade de mobilização. Precisamos aproveitar esse momento para fortalecer as instituições democráticas, não para enfraquecê-las.

Hoje digo: Parabéns para você que se levantou do sofá! Enquanto os cães velhos latiam sentados, vocês mostraram que não são o povo borra-botas! Desprezaram os anátemas da mídia de massa (que por ora espertamente mudou seu discurso). A todos que deram o primeiro passo em direção ao exercício pleno da cidadania, nota dez! E a nota zero vai para o vandalismo acéfalo e irracional, que nada acrescenta, nada soma, apenas subtrai e desmoraliza.

O autor, Silvio Motta Maximino, é professor de filosofia e antropologia, bem como membro da BATRA ? Bauru Transparente

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