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A vontade no tempo do agir

Milena Tarzia
| Tempo de leitura: 3 min

O desejo de tomar para si, de se aproximar, de se familiarizar, de imprimir sua marca, de unir-se, é - ao que me parece - o que move o homem. Ainda que se traduza ou se interprete esse desejo como luta, engajamento, propriedade, vida, força, arte, amor ou simples apatia, é a vontade que, sempre presente, determina a conduta e a trajetória humanas. Creio que tudo o que vive se expressa de algum modo, ainda que a indiferença impere, por que sente esse desejo, essa ânsia, esse apego; a pessoa que vive é, em seu agir, expressão de uma tradição que nela habita; é reflexo de um enraizamento do desejo, mas é também criação em potencial.

Como um segredo que se esconde por tanto tempo e que se perde por não poder se revelar, a vontade não realizada é como um sonho inacabado. Ao acordar, sentimos certa necessidade de retornar ao cenário da ilusão, porque é a continuidade que nos move, mas sorrimos aliviados por acreditar que pretensão não teve seu fim. Ora, a vontade humana se constitui somente na esfera da ação, e eu não poderia deixar de notar e mencionar que toda ação humana se encontra imersa numa ordem social condicionante.

Sabemos que há ações e ações. Mas há um tipo específico, que me incomoda e que me chama a atenção, que é aquela que se alastra por todas as relações e que se autodenomina movimento, transformação, mas que nunca é iniciativa do agente; é apenas resposta a estímulos externos que a dirigem e condicionam, é vazia de sentido e significado, é estagnação e jogo. Esse tipo de ação dissimulada (e questionável) se estrutura, geralmente, numa postura irreflexiva e numa vontade que se nega. Explico melhor: há uma vontade por detrás desse tipo próprio de ação, que se propõe como libertação, mas que deseja alcançar o que se manifesta como inalcançável. "Libertar-se de quê?" - poderiam questionar alguns. "Alcançar o quê?" ? indagariam outros. E eu respondo: libertar-se daquilo que prende, sufoca e domina. Esse agir vazio, fundamentado numa vontade e numa ética inúteis, quer atingir e se livrar das ações que já aconteceram, anteriores a ele: do passado.

Não pretendo recair ou reduzir o texto a uma análise ética ou a um historicismo barato, mas parece-me que por se tornar impotente em relação à temporalidade, a vontade do homem atual visa a abalar um passado que não aceita e, justamente por não poder agir retroativamente, essa vontade tende a buscar um sentido no sentimento de vingança. Ao se esforçar para subjugar um passado que condena, e diante dessa impotência, a vontade do homem moderno e, vou mais longe, do brasileiro, "quer para trás"; ao almejar atingir algo que não retorna, esse agentes passam a buscar um sentido duvidoso que justifique uma atualidade injustificável: buscam responsáveis pelas ações, apontam culpados dos quais prometem vingar-se.

O instinto de vingança não é novidade na contemporaneidade, nem privilégio dos brasileiros. Ele se instala numa visão de mundo linear e causal, em que passado, presente e futuro se relacionam lógica e sinteticamente (não foi Kafka quem nos disse que o momento presente é uma lacuna entre o passado e o futuro?). E o núcleo da vingança se concentra nessa relação com tempo, de modo que a busca por atribuir a um terceiro responsável àquilo que fizemos de nós mesmos é a forma mais equivocada de se relacionar com o passado. Não podendo agir sobre ele, a vontade que quer para trás tenta dar-lhe um sentido compreensível, prometendo liberdade e ruptura - o que não é possível já que sabemos da irreversibilidade do agir.

Parece-me que libertar-se de um poder que oprime, como o do pretérito, só poderia ter sentido numa vontade que pudesse recriar o passado, e tal criação inovadora só é possível quando se age reflexivamente, quando se é, de fato, autor da ação e não da reprodução.

A autora, Milena Tarzia, é advogada e professora universitária, mestre em Filosofia pela PUC-SP

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